Fazer um Deserviço a Abril

25 de abril Szmpre

João Soares: “Acho um disparate persistir na ideia da sessão comemorativa do 25 de Abril”. Estou com João Soares e, assim parece, com ele e contra a maior parte do “PS institucional” e com a esmagadora maioria dos ditos “partidos de Esquerda”. Do outro lado estão, segundo creio, a maior parte dos cidadãos: eleitores e abstencionistas. E esta divisão faz pensar: a partir de que momento é que a maioria dos eleitos (porque são eles quem compõem o essencial do “PS institucional”) se colocou do lado contrário à maioria dos eleitores e a partir de que momento é que esta separação entre Eleitos e Eleitores se tornou tão grande que não é fácil para os nossos Eleitos conseguirem sair do seu lugar e saltarem, por instantes, para o lugar, dos Eleitos que estão em confinamento domiciliário há um mês, que já começaram a perder rendimentos, trabalho e facturação?

Esta separação entre Eleitos e Eleitores é a raíz onde mora todo o mal para a democracia: quando um segmento se separa a tal ponto do outro: temos instalado o Abstencionismo Crónico que mina, pela base, a saúde da democracia e abre a porta a que um súbito (e demograficamente inexpressivo) movimento ou partido populista, de esquerda (improvável) ou de direita (já temos), cresça a um tal ponto que se torna incontornável para que um partido de direita (CDS ou PSD) regresse ao poder.

Além desta separação, aprofundada pela escavadora da incompreensão que não cessa de aprofundar o abismo entre eleitos e eleitores há outro fenómeno que merece a nossa reflexão: a partir de que momento é que a discordância sobre a forma como se comemora Abril é sinónimo de defender o “24 de Abril” ou o fascismo? Será que já chegámos a um regime tão unanimista onde quem critica uma má decisão é, automaticamente, classificado de “demónio”?
Abril deu-nos a liberdade para discordar e exprimir essa discordância: atacar quem discorda é – na prática – um ataque directo às duas mais centrais conquistas de Abril: A Liberdade de Expressão e a Liberdade para formar e construir uma opinião divergente.

Não é também verdade (como diz Manuel Alegre) que todas as críticas à forma, presencial, pública e cerimonial de comemorar o 25 de Abril venham apenas de quem “não gosta da data e não a quer celebrar”. Como é evidente, suspender, adiar ou alterar o modo da celebração não é cancelar, impedir ou anular a celebração: apenas mudar a sua forma ou a data da celebração.

Precisamente porque vivo em Abril: permito-me e posso discordar.

Precisamente porque defendo Abril gostaria que os nossos parlamentares pensassem – a sério – sobre as causas da sua presente impopularidade.

Precisamente porque vivo em Abril é que acredito que é um erro ainda maior do que não alterar (ou adiar) as celebrações do 25 de Abril manter as “celebrações oficiais do Dia do Trabalhadores, celebrado em 1 de maio, “mediante a observação das recomendações das autoridades de saúde, designadamente em matéria de distanciamento social”. A 8 de Março foi título da “Veja”: “Apesar do coronavírus, Dia Internacional da Mulher reúne multidões. Em alguns países como a França e a Espanha, o Covid-19 foi “personagem” dos protestos”. A Covid-19 foi personagem e factor essencial dos altos índices de contágio em Madrid, como hoje em dia já reconhecem as autoridades espanholas. Mas em Portugal vamos insistir também e novamente nas celebrações do 1 de Maio: numa manifestação popular, de rua e que reúne milhares ou dezenas de milhar de pessoas? Não é sensato, não é avisado, nem oportuno num momento em que a contenção do vírus se faz ainda sem vacina e onde o #FiqueEmCasa ainda é a nossa melhor defesa contra o colapso económico total (evaporação massiva de emprego e empresas que pagam e suportam o Estado Social) e uma explosão do número de internamentos e mortos idêntica aquelas que assolaram (e ainda massacram) Itália e Espanha?

Portugal está no ponto crucial do controlo desta pandemia: permitir que os nossos Eleitos (Parlamento, Governo e Presidência) dêem um Exemplo contrário aquele que estas mesmas entidades exigem (bem) aos cidadãos e que as comemorações de Abril ou do 1 de Maio se façam (com limitações: admito) como se vivessemos, todos, um período normal, é um erro e vai aprofundar ainda mais a distância entre Eleitos e Eleitores e, consequentemente, fazer um deserviço ao 25 de Abril.

Rui Martins

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