Não aos Excepcionalismos em Mobilidade Urbana

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Outrora seguros, hoje em dia, os peões são confrontados com todo o tipo de riscos imprevistos quando circulam nos passeios. Já não bastava o risco que corríamos quando atravessávamos uma passadeira e um condutor mais ou menos tresloucado, mais ou menos distraído, nos atropelava ou fazia uma rasante, mas agora, até nos passeios não estamos em segurança: e, agora, não apenas por causa dos carros que invadem os nossos passeios.

A esmagadora maioria das minhas deslocações são feitas de Metropolitano ou a Pé entre estações de Metro ou, simplesmente, saindo mais cedo e consigo ir assim a praticamente todos os sítios da cidade em que vivo (Lisboa). Mas hoje em dia com a profusão selvagem e desregulada de operadores de mobilidade partilhada (bicicletas Uber e GIRA e oito (!) operadores de trotinetes partilhadas) temos os nossos passeios literalmente invadidos por trotinetes e bicicletas individuais e/ou partilhadas.

Isto é perigoso, já provocou inúmeros acidentes e feridos (quantos: ninguém sabe porque essas estatísticas não são publicadas e desagregadas dos atropelamentos por automóveis) e corrói a boa imagem que as formas leves de mobilidade precisam de ter para se afirmarem como formas de mobilidade alternativa nas nossas cidades por forma a que o país consiga cumprir as ambiciosas metas de 60% de redução de emissão de CO2 que se comprometeu a alcançar até 2050.

Mas entre todos os riscos que os peões agora enfrentam nos passeios assumem particular escala os criados pelos “parceiros”/”representantes” da Glovo. Por alguma razão, são estes que abusam dos termos de serviço do contrato da bicicletas GIRA em Lisboa que impede o seu uso por actividades comerciais sendo raros operadores Uber Eats abusando dos termos de serviço e deslocando-se em bicicletas, próprias ou partilhadas, sobre os passeios. Algo difere na forma com a Globo e a Uber Eats gerem os seus representantes e isto manifesta-se na imagem que essas marcas deixam nos peões: má no caso da Glovo, boa no caso da Uber Eats. É certo que nem só de riscos Glovo vive o pedonalismo lusitano e que, embora menos frequentemente, vemos ciclistas particulares avançando a alta velocidade em passeios ou passando passadeiras em sinal verde para os peões ao arrepio da sinalização dos semáforos, mas de facto, algo distingue os representantes Glovo dos demais porque é nesta amostra que se observam a maioria das mais evidentes regras de segurança de circulação para os próprios e para quem coexiste involuntariamente nos passeios e passadeiras das nossas cidades.

Há alguns dias, mais uma vez, um Glovo passou por mim, a alta velocidade, não me atropelando a mim e à minha filha por uns escassos 10 cms e isto apesar de estar sinal verde para os peões. Não é a primeira vez que isto acontece mas foi, até agora, a mais perigosa. Por outro lado, Lisboa está cheia de Glovos conduzindo GIRAS ao arrepio do consagrado nos termos de serviço desta rede PÚBLICA de bicicletas: “O Utilizador não pode utilizar o Serviço Gira, e o equipamento associado, para fins lucrativos, comerciais”: https://www.gira-bicicletasdelisboa.pt/termos_condicoes.pdf
De novo, há uma anomalia na Glovo: Mais respeito pelos peões exige-se. Mais cumprimento pelas regras de uso da rede pública de bicicletas partilhadas: também.

E não vale a pena invocar a condição de semiescravatura, com remunerações absurdas para a quantidade imensa de horas trabalhadas por estes Glovos (frequentemente mais de dez horas por dia!), a inexistência de segurança no trabalho, medicina no trabalho, segurança social, férias e baixas por doença, para com isso, num estéril exercício de “Whataboutism”: https://pt.wikipedia.org/wiki/Whataboutism) anular todas as críticas. Nenhuma dessas atrozes condições laborais isenta estes representantes Glovo (intencionalmente não lhes chamo nem de “trabalhadores” (como deviam ser) nem de “parceiros” (como alega a Glovo) do cumprimento do Código da Estrada ou do mais elementar Bom Senso no respeito à segurança pedonal. Uma coisa não anula a outra, e vice-versa.

Precisamos de moralizar estes utilizadores de bicicletas imorais (não apenas os Glovo: mas os particulares e os poucos Uber que usam também esta forma leve de mobilidade) e se isso falhar, implementar uma fiscalização severa destes desvios éticos e legais através da criação de patrulhas ciclistas da Polícia Municipal, fardados ou à paisana (haverá que alterar um regulamento municipal) que apliquem também a estes prevaricadores o Código da Estrada e que assim aumente a segurança pedonal e que a bicicleta reforce o seu papel central no aumento da qualidade de vida na Cidade e no combate às alterações climáticas que apenas a redução do uso do carro individual pode cumprir nas nossas cidades.

Rui Martins

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