A inaudita greve dos entregadores de App Brasileiros

Greve Trabalhadores App Brasil
Imagem da greve dos “Trabalhadores das App”, ou seja, a greve de trabalhadores sub-contratados através das aplicações digitais, os quais a maior parte das vezes têm poucos ou nenhuns direitos laborais. São Paulo, Brasil, 1 de Julho de 2020.

Um dia numa discussão que tive numa rede social, encontrei um liberal qualquer que desejava a proibição do PCP, pelo seu carácter “anti democrático”. Disse-lhe para ter cuidado com o que desejava, que o desaparecimento de um partido completamente inserido na legalidade institucional portuguesa que usa uma foice e um martelo nos seus símbolos, nunca faria desaparecer as tensões sociais que levam ao surgimento do comunismo enquanto ideologia. Ignorar a luta de classes nunca fará com que ela desapareça.

Fazer desaparecer as relações de trabalho das actividades económicas pareceu ser desde o inicio o objectivo da chamada “gig economy”. Através do uso das aplicações moveis seria possível criar um admirável mundo novo em que era possível fornecer serviços sem que houvesse um patrão e um trabalhador, um mundo em que seriamos todos patrões de nós próprios. A Uber nunca deu lucro, porque o seu objectivo não era dar lucro, era fazer nascer esse novo mundo das entranhas da classe média em vias de proletarização, tanto nos países emergentes, como do Primeiro Mundo.

Mas enquanto houver alguém a fazer um trabalho recorrendo a um meio de produção que não é seu, a auferir desse trabalho um salário inferior ao lucro obtido pelo detentor desse mesmo meio, haverá uma relação de trabalho, haverá luta de classes.

Autónomos, empresários em nome individual, empreendedores, tantos nomes para o que tantos nestes dias perceberam ser uma só coisa, trabalhadores precários. Trabalhadores precários que no dia 1 de Julho fizeram greve no Brasil.

Uma classe sem sindicatos conhecidos, sem tradição de luta laboral, uma actividade desenhada exactamente como negação simbólica da relação de trabalho. O capitalismo é poderoso, mas não é tão poderoso quanto as suas próprias contradições.

A greve não parou as aplicações, mas teve um impacto relevante nos tempos de entrega, no numero de pedidos, pois foi também acompanhada de um boicote que muitas pessoas preferiram seguir, por reconhecer a sua elementar justiça.

Usando a única via pacifica que alguma vez levou a vitorias para os trabalhadores, a paragem da actividade, os entregadores exigem, entre outras coisas, reajuste de preços, actualizações anuais, negociação de tabela de preços directamente com as empresas, fim da arbitrariedade dos bloqueios de entregadores, entrega de Equipamentos de Proteção Individual na sequencia da pandemia do Covid19, apoio em caso de acidentes, revisão dos sistema de avaliação, entre muitos outros.

Além da paragem da actividade, ocorreram também várias manifestações, em diferentes cidades brasileiras, a maior delas em São Paulo, mas também em Campinas (SP), Santo André (SP), Ribeirão Preto (SP), Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Maceió, Fortaleza, Teresina, Brasília, Belo Horizonte, entre outras.

Não foi a primeira vez que trabalhadores associados à uberização do trabalho fizeram greve, já aconteceu na Indonésia em 2017, nos EUA em 2019, neste caso os condutores da Uber e da Lyft.

A mobilização dos entregadores vem num contexto social extremamente difícil para esta classe, com o Covid19 a aumentar a requisição dos seus serviços, mas também a sua perigosidade, o aumento do desemprego a aumentar também o numero de pessoas a procurar o trabalho para estas apps como uma alternativa de obtenção de rendimento. Ao incluírem o pedido de EPIs nas suas exigências, mais uma vez salta à vista que a pandemia revelou tensões sociais já presentes na sociedade.

Por mais que o capitalismo tente eliminar simbolicamente dicotomia entre trabalho e capital, essa dicotomia não desaparece, dizer que os entregadores na verdade “não são trabalhadores” ou “não trabalham para as Apps” terá tanto efeito material como negar a gravidade ou o aquecimento global. A marcha da história não para e enquanto existirem trabalhadores organizados e preparados para defenderem os seus interesses de classe, a possibilidade de um mundo melhor existe.

 

 

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