Entrevista com Vitor Lima: “50 anos depois, a prisão ampliou-se, está mais bem decorada”

Vitor Lima é anarquista e escreve o blog Grazia Tanta sobre temas de economia, geopolítica, democracia e representação. Faz as contas a como estamos presos a mantermo-nos em guerra uns com os outros para ter direito a conviver com quem beneficia disto tudo.

APD – Vitor, tu sabes que estás preso? Foi por te sentires preso que aderiste ao Partido Comunista, para combater o Salazar/Caetano?

Vitor Lima – Certamente que me sinto preso. Desde muito jovem senti o peso conservador e atávico não só do regime político, então fascista, mas também das pessoas em geral e da sociedade. Naquele tempo não era fácil ter interlocutores para falar do regime, nem sequer do caldo de cultura conservador e ignorante que marcava o povo português. E que marca, ainda hoje, em pontos determinantes da vida social e dos direitos.

Passados quase 50 anos é evidente uma menor desigualdade entre pessoas de sexos diferentes, a aceitação como natural da expressão da sexualidade, qualquer que ela seja. Por outro lado, os atropelos do poder – má gestão, corrupção, incapacidade técnica e política – está à vista. Daí não resulta qualquer atuação coletiva de oposição. Ninguém põe a possibilidade da extinção do modelo político de representação, fechado e oligárquico. Basta que se auto designe como democrático para que todas as críticas parem.

50 anos depois, a prisão ampliou-se, ultrapassa as fronteiras, está mais bem decorada, o carcereiro é mais sofisticado, utiliza mais a mentira e as exclusões do que a força bruta duma Pide. A manipulação e as fake news desenvolveram-se imenso e a vida tende a decorrer tendo o crédito e a canga do sistema financeiro, em geral, como pano de fundo.

Na sociedade-prisão de hoje, os cidadãos, marcados pelo consumismo, pela dívida e pela precariedade de vida – nos campos laboral, da saúde, da educação, da segurança social, dos tempos de reforma… aceitam, de facto, todas as medidas sociais e económicas decretadas pelos governos, como presos. O único direito que sobra é a obrigação de trabalhar, em precariedade e com menos direitos.

A entrada no PC foi uma surpresa, quase acidental, em 1971, no rescaldo da minha atividade no âmbito da CDE de Lisboa, de que fui um dos fundadores. Antes disso pendia para o maoismo, então “vendido” como uma gesta revolucionária, coletiva e libertadora, contrária à dos PC’s tradicionais, pelo que se via em França e Itália. Tal como o PCP prometeu uma explicação sobre a Perestroika e o colapso da URSS, depois de 1989, naquele tempo estava a prometer um trabalho sobre a invasão da Checoslováquia a realizar pelo “sector intelectual”. Nunca produziram esse relatório para o público.

APD – Houve um período da tua vida que estiveste preso não apenas metaforicamente: entraste na prisão para conversar com os Pides, os agentes da polícia política do Salazar. Conta como foi, em traços gerais.

Vitor Lima – Naquele tempo, a conclusão do curso universitário colocava a questão do serviço militar e a quase certa mobilização para a guerra colonial. Isso era geralmente aceite como um dever ou, pelo menos como uma chatice inevitável; um “dever” aceite porque não havia grande volume de baixas no exército colonial e os soldados conseguiam juntar algum dinheiro para casar no regresso à terra. Eu não pensava ir para a tropa e, menos ainda, para a guerra colonial. Mas estava à espera de ser chamado para o serviço militar (tinha um ano de espera possível pois ainda tinha 24 anos).

Um homem do CC do PC (Lindolfo) fez um contrato com a Pide: ao ser preso denunciou mais de uma centena de pessoas, onde me incluiu. E daí a prisão, a tortura do sono e dois anos de cadeia, com episódios curiosos que me vieram a afastar totalmente do PC que, para mais, nem sequer defendia a recusa da participação na guerra.

Depois da saída de Peniche seguiu-se uma separação conjugal e a espera de uma quase certa chamada para a tropa; como, entretanto, voltara ao emprego anterior, era tempo de juntar dinheiro para ir a salto para França, onde tinha conhecimentos, próximos de Genebra; e os refratários da guerra colonial eram bem recebidos.

Politicamente, não me revia em qualquer segmento da oposição, tal como hoje. Mas valorizava as ações de sabotagem contra o aparelho militar e repressivo.

APD – Foi essa experiência que te fez romper com o PC?

Vitor Lima – A entrada no PC envolveu muita ingenuidade. A experiência da prisão anulou essa ingenuidade e, por outro lado, focava-me então, no momento de sair do país, naturalmente, “a salto”. Ainda hoje, me sinto deslocado em Portugal.

APD – Como viveste a revolução do 25 de Abril? E o que aprendeste com ela?

Vitor Lima – Entrei na tropa dia 22/4/1974 com um encontro marcado para dia 29, na Benedita com o passador que me colocaria em França. Tinha a mala feita, o dinheiro do banco levantado e as lágrimas da minha mãe na memória. Embora todos, há anos, soubessem que jamais iria para a guerra colonial.

O 25A aconteceu três dias depois de ingressar no quartel de Mafra e quatro dias antes da prevista fuga para França que não chegou a acontecer e que vejo como o pior erro estratégico da minha vida. Acreditar que as coisas em Portugal poderiam ter uma evolução libertadora e geradora de bem-estar foi uma ingenuidade, como é gradualmente mais nítido. Como costumo dizer, Portugal é apenas um corredor atravessado pelas redes das transnacionais com um empresariato autóctone incapaz, que vive acoplado ao Orçamento, em relação osmótica com a classe política, de grilos falantes em quem um povo de sonâmbulos se dá ao trabalho de votar.

Vi muita gente cheia de entusiasmo, com desejos de mudança (embora com muita ingenuidade sobre o que teria de mudar) e muitos safardanas a apresentarem-se como guias da causa popular junto de um povo muito ingénuo, ignorante (o analfabetismo e a iliteracia eram imensos) e despolitizado. Um membro recente então recrutado para o PC, quando me foi “adjudicado” e lhe perguntei se já tinha lido alguma coisa do Lenin, respondeu… quem é o Lenin? Claro que ainda me lembro do nome desse tipógrafo.

Por exemplo, fui escolhido pelos operários das oficinas do Diário de Notícias para os representar no conselho fiscal da empresa; era onde trabalhava o meu pai e eles conheciam-me de miúdo. A minha função era fiscalizar os actos da administração, conservadora, ainda que já nomeada depois do 25A; consegui que voltassem atrás numa transferência de 10000 contos para o principal acionista que era dada como “pagamento de serviços”; esse acionista era uma grande empresa de… moagens e o dinheiro que não saiu serviu para o pagamento do subsídio de natal dos trabalhadores. Mais tarde, o controlo do DN pelo PC deixou-me siderado, com agressões, em plenário, de trabalhadores não-alinhados com o partido.

Recordo a alegria das nacionalizações – “nacionalizado, nosso” – sem que se pensasse que o descalabro no tecido económico resultava do fim das colónias mas sobretudo, da enorme alteração que a abertura do Suez iria causar num modelo económico baseado na construção/reparação naval e na petroquímica…; e que fez abortar o desejo de Caetano em criar grupos económicos em Portugal.

Recordo, ter visto manifestações de todos os grupos políticos, do MRPP ao CDS, a vitoriar as nacionalizações que eu via como um futuro encargo estatal com empresas falidas, descapitalizadas, desestruturadas e inviáveis. Perante tanta unanimidade quase que cheguei a pensar não estar bom da cabeça… Dez anos depois, após o enorme investimento público em reestruturar e financiar um sector público e nacionalizado, Cavaco e Constâncio, conluiados, iniciam as privatizações… o partido-estado PS/PSD em todo o seu esplendor.

APD – Os capitães de Abril, apesar de vencedores da revolução, foram ostracizados na sua vida profissional pelos democratas que tomaram o poder.

Vitor Lima – Para se safarem da guerra tiveram de mandar o regime fascista para o lixo e esperavam uma transição tranquila, o que não aconteceu. Tiveram de proceder às nacionalizações e aceitar a inevitável descolonização, no qual foram peões de jogos geopolíticos. Como as altas patentes estavam comprometidas com o regime fascista, abriram-se portas para as promoções de muitos, das segundas linhas da hierarquia.

Não seria compaginável, no enquadramento geopolítico português, a criação de um regime de grande preponderância de militares.

Passados uns anos as FA’s portuguesas servem apenas como pelotões ao serviço da NATO, para escoar armamento de segunda linha made in USA ou de assento para “generais sentados” na célebre frase de um embaixador americano em Lisboa; e para transformar rambos em futuros seguranças privados.

Os regimes não democráticos, seja o fascista ou o atual, pós-fascista, gostam sempre de se legitimar através da emanação de dispositivos jurídicos que servirão para fomentar o medo ou para punir os desobedientes; e há uma relação muito próxima entre a classe política e os escritórios de advogados, para gerir os favores e as fraudes. Cada regime configura a teia (dita legal) para se legitimar e desencorajar verdadeiras oposições. Daí que há anos venha chamando à Assembleia da República, o Pavilhão das Aves Canoras; as decisões de aplicação dos dinheiros públicos não passam por lá e o que passa, encontra um leque de funcionários dos partidos, devidamente amestrados.

APD – A tua participação na oposição proibida ao Salazar/Caetano teve consequências na tua vida profissional, depois do 25 de Abril?

Vitor Lima – Claro. Na função pública, várias vezes fui preterido para lugares de chefia, embora nos concursos de promoção ficasse sempre em lugares cimeiros, até chegar ao topo da carreira, como técnico. Sem nunca ter tido compromissos partidários no atual regime, fui apeado de um cargo de responsabilidade – na entrada do governo Durão, por um naipe de ignorantes vindos do CDS – depois de sete anos de desempenho.

Em vários períodos, estive sem que me dessem tarefas para desempenhar; sempre preferiram manter-me sem trabalho efetivo do que atribuir-me tarefas menores. Os três períodos sem atribuições somam uns oito anos.

Nesse contexto, nos anos 80 comecei a trabalhar como consultor económico em várias áreas como profissional liberal – num sindicato primeiro e depois, como gestor de uma empresa de estudos de mercado; como consultor de várias empresas de estudos económicos, mormente em planeamento e prospectiva com relevo para uma multinacional holandesa que, com a crise, fechou as suas instalações em Portugal, há uns dez anos. Ao mesmo tempo que estava empregado na função pública, essa atividade – interessante e bem paga – consubstanciava-se em muitas horas de labor, mesmo ao fim de semana.

APD – Como profissional e cidadão, em democracia, continuas a sentir-te preso? Porquê?

Vitor Lima – Não vivemos em democracia. Quem não pertence ao poder é um súbdito sujeito às arbitrariedades e objeto de rapina.

A diferença real face ao regime fascista, em termos políticos, é a ausência de uma Pide. Tudo o mais se manteve – as oligarquias políticas e económicas, a corrupção, a exclusão dos que não são yesmen, uma imprensa miserável, a manipulação das mentes pelo espetáculo mediático, a emigração, o baixo salário, a precariedade, o baixo nível de instrução em termos europeus, um empresariato culturalmente indigente parasitando o erário público… Tudo isto já era real, com as devidas adaptações no tempo do fascismo. Daí que designe o atual regime como pós-fascista.

APD – Escrever o blog liberta-te? Como?

Vitor Lima – Sem dúvida. Escrever como crítico da sociedade, do capitalismo e dos regimes políticos é gratificante. Além da exteriorização do que penso, vejo e posso medir o grau de interesse com que os meus textos são recebidos, em Portugal, e também em outros locais. Por vezes, quando adequado, traduzo para inglês.

Procuro aprofundar o conhecimento da realidade, traçar quadros prospetivos e geopolíticos, denunciar sem limitações a podridão e a fascização das classes políticas e do modelo de representação, oligárquico e corrupto. Procuro apontar os perigos do desvario capitalista que se manifestam sob várias formas – precarização e empobrecimento da grande maioria da Humanidade, enorme concentração de riqueza, a pulsão do crescimento infinito a par com estratégias de redução do efetivo humano. E ainda, a ingenuidade de quantos – mesmo afirmando-se anarquistas – se cingem à agenda ecologista, pensando ir longe no combate ao capitalismo, por essa via. Claro que o capitalismo agradece, com um sorriso.

One comment

  1. VITOR LIMA: PARABENS, BONITO TEXTO. Bastante fundamentado.
    Bastante critico a uma REALIDADE que eu diria GLOBAL.
    O que faltou, ao meu ver, são quais SUGESTÕES, VITOR LIMA tem a apresentar para que as COISAS MELHOREM, ou pelo menos iniciem MELHORAS.
    Claro que digo isto em função de eu pessoalmente achar que todos com nossas mentes mais ou menos cultas, devemos, não apenas CRITICAR mas sugerir os talvez, MELHORES CAMINHOS, para uma SOCIEDADE GLOBAL, melhor embora eu tenha a CERTEZA que isso, dados às forças GLOBAIS e LOCAIS dos grupos econômicos mandantes à muitos anos, não seja SIMPLES, ou até quem sabe IMPOSSÍVEIS.
    SAUDE, PAZ e muitas ALEGRIAS, parta que continuem, pelo menos colocando as RAZÕES do que eu chamaria de DESGRAÇA COTIDIANA da grande maioria GLOBAL.
    Abraços: Jose SERAFIM Abrantes, brasileiro, porém nascido na BEIRA ALTA, vindo para esta TERRA, à qual só tenho a agradecer, pelas oportunidades que me deu, embora sempre com muito TRABALHO e SUOR.

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