O legado de Robert Maxwell

Nota Editorial: este texto também foi publicado no blog À Luz do Dia, disponível aqui, e faz parte de uma série sobre a Ghislaine Maxwell- a primeira parte está disponível aqui.

A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele. Ezequiel 18:20

Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. Exodo 20:5

Estes dois versículos bíblicos aparentemente contraditórios, contextualizam o porquê de escrever o perfil de Robert Maxwell na sequência da análise do caso Epstein.

Robert Maxwell viveu uma vida extremamente intensa e controversa e nem a sua morte foi isenta de polémica

Ninguém deve ser condenado pelos crimes dos seus pais, nem os progenitores são responsáveis directos pelos crimes dos seus filhos. Mas as relações familiares criam laços e legados relevantes. Ghislaine Maxwell não era uma ilha, embora tenha dado nome a um iate. A sua vida de socialite foi em grande parte financiada pelo dinheiro que o seu pai saqueou a fundos de pensões e não será exagero pensar que a sua atitude perante o mundo e a vida terá sido influenciada pelo seu pai, pelo menos em parte.

Imponente, incontornável e descrito como tendo uma voz trovejante, Maxwell passou de um refugiado da então Checoslováquia a herói de guerra, homem de negócios, deputado pelo Labour e titã dos media. A sua fortuna incluía extravagâncias típicas de um príncipe do golfo, entre helicópteros, jatos privados e uma coleção de Rolls Royce.

O seu império mediático incluía o Daily Mirror e o New York Daily News e estava também presente no negócio do Futebol, com participação em dois clubes, Oxford United e Derby County.

Ainda o Reino Unido e o mundo discutiam as circunstâncias da sua morte, com pessoas próximas a defender com igual convicção, acidente, suicídio e assassinato, quando foram revelados buracos na ordem das centenas de milhões de libras nos fundos de pensões das empresas por ele geridas. Não foi o primeiro nem o último caso de saque criminoso a fundos de pensões, mas foi um dos mais impactantes da sua época no Reino Unido, tendo levado a uma série de alterações à lei e condenação às autoridades regulatórias, obviamente tudo isto, à posteriori.

Jogo de tabuleiro vendido na altura do escandalo das pensões saqueadas por Robert Maxwell Pensions Archive Trust (LMA/4598/01/001). https://www.pensionsarchive.org.uk/maxwell

De toda a família próxima de Maxwell, Ghislaine terá sido das mais afectadas. Descrita normalmente como a filha favorita, teria o habito de, já em adulta, o tratar como My Daddy. Mas se Ghislaine foi a mais afectada a um nível pessoal, os seus irmãos não escaparam incólumes e tiveram de se defender de acusações de participação nos crimes do pai.

Foi em representação dos negócios do pai que Ghislaine se inseriu na alta sociedade Nova Iorquina, vindo mais tarde instalar-se na cidade que nunca dorme a título permanente, onde viria a envolver-se com Epstein, negando até hoje todas as acusações de envolvimento nos crimes de que ambos foram acusados.

Nascido numa família de judeus de uma cidade da Checoslováquia, actualmente na Ucrânia, Maxwell fugiu para França ainda adolescente, vindo a perder grande parte da família no Holocausto. Foi como parte do exército da Checoslováquia no exílio que foi evacuado para o Reino Unido, onde se alistou no exército, sob um nome falso. É nesta fase que conhece a mulher, na altura estudante na Sorbone.

Após o final da guerra, Maxwell mantém sempre uma forte relação com o Estado de Israel, investindo fortemente na divulgação de empresas ligadas ao sector tecnológico israelita. Ao longo da sua vida foi várias vezes acusado de pertencer à Mossad ou pelo menos de espiar para o Estado de Israel, acusações que negou sempre, inclusivé em tribunal. Mesmo na morte, a sua relação com Israel é controversa, cujo funeral de estado não foi suficiente para silenciar as especulações sobre o envolvimento das autoridades israelitas no fatidico dia em que caiu ao mar.

As revelações do saque ao fundo de pensões poderão ter sido surpresa para alguns, mas já desde 1971 que o Departamento de Comércio e Indústria afirmava que Maxwell não deveria ser considerado pessoa recomendável à gestão de qualquer empresa cotada em bolsa. Pessoas idóneas, há muitas, mas ao que parece, nem os agentes reguladores que efectivamente conseguem detectar quem não o é, conseguem impedir actos de má gestão de prejudicar milhares de pessoas inocentes.

Mas se a gestão empresarial de Robert era no mínimo, self serving, a sua vida familiar foi descrita por pessoas próximas como extremamente abusiva, nomeadamente em relação aos filhos, dos quais apenas Ghislaine terá escapado aos castigos corporais e humilhações regulares a que os irmãos eram sistematicamente sujeitos. Ghislaine era vista como a favorita entre os irmãos e apesar dessa proximidade com o pai, foram os restantes filhos que tiveram ainda de se defender em tribunal das alegações de conhecimento e cumplicidade em relação aos crimes do patriarca.

Como patrão no Daily Mirror, Maxwell era também descrito como estravagante, vaidoso, incontornável e também um bully, que não hesitava em despedir funcionários quando os chefes de equipa intermédios não estavam presentes, como descrito por Julia Langdon, na altura editora política do Mirror.

Entre outras extravagancias, Maxwell tinha o habito de simular conversas telefónicas com a Casa Branca ou com Downing Street, para demonstrar o alcance dos seus contactos e até de corrigir bailarinas de ballet a meio de uma performance num espetáculo de caridade.

Se os contactos directos com Washington poderiam ser exageros de uma mente narcisista, a relação próxima com o poder político israelita era real e, podendo não ter sido oficialmente um espião na folha de pagamentos da Mossad, era visto como um importante lobbyista a favor dos interesses israelitas. A sua passagem pela câmara dos comuns resultou de uma vitória pelo Labour numa zona tipicamente conservadora, mas a sua posição social na altura e até o seu perfil, indicavam já na altura, uma tendência nesse mesmo partido a abdicar de posições ideológicas em troca de vitorias locais.

Robert Maxwell viveu uma vida cheia e longa, com um impacto duradouro no Reino Unido, mas também nos EUA e em Israel, onde foi enterrado como um herói de estado. Os seus crimes afectaram directamente milhares de trabalhadores que se viram na iminência de perder o acesso às suas pensões. Se a sua gestão criminosa de bens que não eram seus e o seu modelo de parentalidade e relacionamento familiar possa ter moldado a pessoa em que Ghislaine Maxwell se veio a tornar, é algo que só ela e os que lhe são mais próximos poderão alguma vez responder.

Robert Maxwell foi a enterrar em Jerusalém e o seu funeral teve direito a honras de estado pelo Estado de Israel

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