Andrew, príncipe de coisa nenhuma, Duque da falta de vergonha

São muitos os políticos, cientistas, artistas, advogados de fama e sucesso a aparecer associados aos crimes de Jeffrey Epstein, a maioria deles dos EUA. Este artigo não é sobre nenhum deles, mas sim sobre Andrew Albert Christian Edward, Duque de Iorque, terceiro filho da ainda rainha Isabel II e, até indicação em contrário, oitavo na linha de sucessão à coroa britânica.

Como era hábito na altura, Andrew nasceu em “casa”, no Palácio de Buckingam. Como é hábito das famílias reais ou em geral, dos ricos e poderosos, foi criado por uma governanta e educado numa escola privadas de elite, nomeadamente na Heatherdown School, uma escola para rapazes em Berkshire, no sudeste de Inglaterra. Mais tarde completou os seus estudos na Escócia, desta vez em na Gordonstoun School, também privada, também de elite, neste caso mista.

Tal como o próprio príncipe, Gordonstoun não é isenta de controvérsias, tendo sido incluída num inquérito generalizado a situações de abuso de menores em escolas escocesas. A instituição é conhecida por historicamente ser rígida e ter uma abordagem à educação que seria considerada necessária para educar os filhos das elites britânicas. Além da linha educativa oficialmente rígida, é também descrita como um local onde o bullying e o establecimento de hierarquias informais entre alunos era comum e encorajado.

Os casos de abuso têm vindo a lume como algo que aconteceu ao longo dos anos de operação da instituição, mas também tão recentes como 2008 ou 2019, altura em que o inquérito já referido estava já a decorrer. Além das situações de abuso entre alunos, Gordonstoun foi descrita como uma das muitas instituições de ensino em que a mistura entre predadores em série, cultura institucional insular e leis pouco eficazes, permitiram que situações de abuso se prolongassem durante décadas. Os abusos até agora descritos seguem um padrão já demasiado familiar de figuras de autoridade, normalmente homens, a abusar dessa autoridade para se manterem próximos das suas vítimas potenciais. Também parte do padrão é a resposta institucional de, quando confrontada, evitar qualquer envolvimento de tribunais e oferecer aos pais das vitimas garantias de que a sanção interna seria suficiente para evitar futuros abusos. Em muitos dos casos, não foi, a continuidade no ensino e reincidência no abuso está documentada, apesar das promessas solenes de que a escola impediria abusadores de voltarem a ensinar. Quando a escritora Miranda Doyle testemunhou publicamente parte desse abuso, teve quase imediatamente suporte e mais denuncias de outros ex alunos.

Antes de seguir a tradição militar da realeza britânica, Andrew esteve ainda em intercâmbio internacional no Canadá na também escola de elite Lakefield College School, instituição que passou a patrocinar.

Seguindo a tradição militar já referida, Andrew completou a sua formação na Royal Navy, chegando a participar na Guerra das Malvinas, estando estacionado no porta aviões ligeiro HMS Invincible, segundo relatos da altura, o risco de assassinato de um membro da família real levou o governo britânico a pressionar para que ele fosse transferido para uma posição sem combate, pressão que terá sido contrariada pela Coroa. A carreira militar de Andrew continuou após a guerra e já após sair de funções activas, foi promovido a titulo honorário a Vice Almirante.

A nível de relacionamentos com pessoas maiores de idade, são lhe conhecidos principalmente dois, Koo Stark, actriz e fotografa, descrita pela biografa da Princesa Diana Tina Brown como o seu único interesse romântico real, e Sarah Ferguson, com quem esteve casado de 1986 a 1996. Do casamento têm duas filhas. Sarah Ferguson tem uma vida extremamente activa tanto antes como durante e após o casamento com Andrew, sendo autora, porta voz, produtora, filantropa e aparecendo em várias produções televisivas. Esse conjunto de actividades e também a sua relação priviligiada com a casa real, levou-a a ser alvo de uma reportagem de camara oculta em que foi gravada a “vender acesso” ao seu ex marido, a um repórter que se identificou como um homem de negócios indiano. Mais tarde, na sequência de graves problemas de liquidez e dividas, o próprio príncipe apelou a Jeffrey Epstein que a ajudasse a pagar dividas na ordem dos milhões de libras, apelo a que Epstein terá respondido positivamente. Chegou também a ter um mandato de prisão internacional emitido pela Turquia, em que a justiça de Ankara afirmava que um dos seus documentários sobre orfanatos no país violava a privacidade das crianças filmadas e representava as condições de vida do país de forma falseada e enviesada.

Ao longo da sua “carreira” de membro da família real, Andrew envolveu-se também numa quantidade relevante de projectos de diplomacia económica, representando os interesses empresariais do Reino Unido em diversos países na qualidade de Special Representative for International Trade and Investment, uma posição que foi ocupada apenas por um outro membro da família real, antes dele, Príncipe Edward e que deixou de existir após o fim do seu mandato. Como outros membros da Família Real, envolveu-se também em várias organizações de caridade, tanto no Reino Unido como a nível internacional, nomeadamente ao nível de educação, empreendedorismo e acesso à saúde . No total, o seu “salário” ascende às 250000 libras anuais(cerca do dobro do salário base do Presidente da República em Portugal) e despesas suportados pela Coroa chegaram, por exemplo em 2008 a atingir as 436000 libras. Quem quer rainhas, paga-as e quem quer príncipes lateralmente relacionados com a rainha a assumir funções de Estado, também.

Esta carreira deu também lugar a um conjunto de escândalos muito antes da sua ligação a Jeffrey Epstein ficar sob escrutínio. Desde ter sido citado a criticar o escrutínio da imprensa britânica aos negócios do seu governo, a sua mansão ter sido comprada por um alegado oligarca/cleptocrata do Cazaquistão com dinheiro canalizado por offshores e em geral pelas suas actividades de diplomacia económica em nome dos interesses empresariais britânicos o colocarem sistematicamente nas relações próximas de personagens reconhecidamente corruptas, autoritárias, ou ambas, inclusive na negociação de armamento.

As criticas à relação próxima que Andrew estabeleceu com Epstein são antigas, bastante anteriores à detenção que culminou na morte do banqueiro. Em 2011, ao ser divulgada uma foto em que surgia junto a Epstein no Central Park, viu-se obrigado a abandonar o cargo que ocupava na diplomacia económica britânica e terá afirmado que deixaria então de se relacionar com ele.

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Real embaraço: foto tirada em 2011, já Epstein havia sido condenado por lenocínio. https://en.mogaznews.com/World-News/1252367/GUY-ADAMS-investigates-Jeffrey-Epstein-the-billionaire-who-relished-having-VIP-.html

A pressão sobre Andrew e sobre a casa Real Britânica à volta da sua relação com Epstein nunca parou de escalar desde 2011. A esta pressão ajudou a sucessão de casos cíveis em tribunal, contra Epstein e os seus cúmplices, que procuravam, já que a acusação criminal tinha sido mal sucedida, processa-lo por danos. Desses casos destacavam-se as alegações de Virginia Giuffre contra o príncipe, entre outros.

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Uma imagem vale mais que mil títulos. Virginia Giuffre afirma que à data da foto, era menor de idade. Andrew afirma que a foto “pode ser falsa”. https://www.theguardian.com/uk-news/2019/sep/06/jeffrey-epstein-virginia-roberts-giuffre-prince-andrew-photo

Virginia afirmou em tribunal ter sido abusada por Andrew em três ocasiões diferentes e os agora famosos registos de voo do Lolita Express colocam-na nos locais por ela testemunhados, às datas referidas. Estas acusações foram sendo categoricamente negadas tanto pela burocracia da Coroa Britânica , como pelo próprio, na malfadada entrevista que deu à BBC. Virginia não é a única a acusar o pouco encantado príncipe de comportamento impróprio. Pelo menos uma outra testemunha o afirma, num caso diferente, neste caso de ter sido tocada contra a sua vontade, ao posar para uma foto.

Andrew admite ter passado alguns dias na casa de Epstein, já em 2010. À data Epstein já havia sido condenado por lenocínio e abuso de menores, no famigerado caso de 2008.

Entre o final de 2019 e Maio de 2020, voluntariamente ou não, Andrew abdicou de todas as posiçoes publicas e relações de mecenato e não só com instituições publicas e privadas.

Os mais recentes desenvolvimentos relativos à relação do príncipe com o caso Epstein resultam de duas situações diferentes. A primeira, que já se vai passando há algum tempo, Andrew é tido como person of interest na investigação ao caso Epstein nos EUA e nas suas declarações públicas e na comunicação oficial da Coroa, demonstrar vontade de colaborar com a investigação. Esta auto declarada transparência vai contra desenvolvimentos mais recentes em que as autoridades dos EUA afirmam que essa colaboração simplesmente não está a acontecer. A segunda resulta da abertura de documentos até aqui selados, para o julgamento de Ghislaine Maxwell. Os documentos abertos dão mais algum detalhe às alegações de Virginia Giuffre.

A “ascensão e queda” desta figura não pode deixar de causar uma reflexão sobre o papel das monarquias e das famílias reais no mundo moderno. A monarquia constitucional é vendida ao mundo moderno como cumprindo um papel simbólico e institucional de solenidade, neutralidade e intemporalidade, que o comportamento destes seus membros simplesmente desmente. Mesmo não confirmando todas as suspeitas em relação ao Duque de Iorque, o seu percurso de vida mostra uma monarquia, que, longe de estar acima das preocupações mundanas da gestão política do país, se coloca numa posição de influenciar a vida económica do mesmo, por via de escolhas que são conduzidas por enviesamentos pessoais e até mesmo, por puro e simples suborno ou chantagem. Epstein é suspeito de, além de tudo o resto, conduzir ou participar num esquema de lobbying, chantagem e influência, o seu acesso privilegiado, convivência, pagamento de dividas e talvez mais, permitiria a um cidadão privado ter uma influência enorme sobre decisões que afectariam negócios de milhões e também milhões de pessoas. Os sistemas políticos de base aristocrática, mesmo que a aristocracia não tenha poder político por simplesmente existirem, vendem também a ideia de que uma educação de excelência que só a aristocracia pode dar, justifica essa posição. O que agora se revela sobre o que se passa dentro dos corredores, salas e quartos das instituições em que essa mesma aristocracia é educada, mostra que desde cedo, está lá o ambiente para a perpetuação dos ciclos de abuso ou até para a auto justificação dos abusadores.

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