O “Médico da TV” que prescreve “medicamentos” homeopáticos

Certo dia constatei, com espanto, que um familiar meu tinha vindo de uma consulta com um médico “famoso” e popularizado em inúmeras aparições mediáticas nas televisões com uma prescrição de um medicamento que me surpreendeu por se tratar, alegadamente, para condições psiquiátricas e que havia sido receitado a um adolescente. Mais surpreendido fiquei quando reparei no nome do medicamento: “Sedatif PC”. Que pediatra receitou um sedativo a um adolescente sem registo de problemas psiquiátricos ou psicológicos graves e que lhe tinha chegado com um diagnóstico de “dificuldades respiratórias”?! Bem: um “Médico da TV” era a resposta.

No concreto o medicamento receitado tinha na embalagem a indicação de que destinava a “estados ansiosos e emotivos ligeiros, perturbações ligeiras do sono”. Lendo a composição dizia-se que cada 1 dos 90 comprimidos tinha 300 mg dos quais “aconitum napellus 6 CH” com 0,5 mg, “Atropa belladona 6 CH” com 0,5 mg e “Calendula officianilis 6 CH” com 0,5 mg. Ou seja, estes 3 componentes, somados pesavam 1,5 mg dos 300 mg… o resto eram excipientes, a saber, sacarose e lactose em… 298,5 mg! Ou seja, 0,5% destes comprimidos eram o alegado “composto activo” deste medicamento homeopático! Como comparação, um comprimido de aspirina tem geralmente 500 mg de Ácido acetilsalicílico. Este “medicamento” tinha 1,5 mg de três componentes! E que componentes eram estes?

O “aconitum napellus” é, de facto, a Aconitum napellus, uma planta venenosa, o acónito (ou capuz) sendo mais encontrado em Portugal o Aconitum napellus da subespécie lusitanicum. Esta planta venenosa, que floreia no Verão, é altamente tóxica para os sistemas nervoso central e cardiovascular uma vez que tem vários compostos que podem provocar a morte por ingestão (ao contrário do que é descrito na página na Wikipedia…) razão pela qual era usado para cobrir as pontas de setas e lanças, era dado a criminosos como parte da sentença de morte na época romana, tendo sido o seu cultivo severamente regulado para impedir o uso disseminado como ferramenta para assassinos e criminosos. Contudo, para ser mortal, tem que se reunir entre 20 a 40 mL de tinturas. 0,5 mg é totalmente inócuo como veneno e, de forma decorrente, como “medicamento”.

O “Atropa belladona” é outro veneno vegetal muito conhecido e rodeado de muita mitologia… No Antigo Egipto era usado como narcótico e as práticas de magia negra na Europa medieval usavam-na profusamente. E Itália, no século XVIII, uma baga era colocada sobre os olhos das damas para provocar a dilatação da pupila e ficarem assim, alegadamente,”mais belas”, uma vez que a atropina nele contida produz midríase. Daí o nome “bella donna”. De sublinhar que a beladona é uma das plantas mais tóxicas encontradas no hemisfério oriental. A ingestão de apenas uma folha pode ser fatal para um adulto e quando consumida como chá provoca alucinações. A atropina tem uso na medicina científica em medicamentos antiespasmódicos usados no controlo de espasmos da laringe e das cordas vocais e no tratamento de traqueítes. Mas nada como “sedativo” e nunca, nem de perto, nas quantidades presentes neste comprimidos (1,5 mg!) é totalmente inócuo quer como veneno quer como “medicamento”: para um adulto apenas uma dose de 2-3 g de material fresco do bolbo poderia ser mortal.

Por fim, nesta caminhada pela mitologia “medicinal homeopática” temos a “Calendula officianilis” ou Calêndula, usada para a cosmética e como pigmentos e, desde a Antiguidade Clássica, como planta medicinal enquanto cicatrizante, antiinflamatório e antibacteriano. De todos os compostos este parece ser o único que tem um uso medicinal efectivo mas, claro, não para tratamento da ansiedade ou de perturbações do sono e, de novo, nunca em concentrações tão baixas como 1,5 mg.

Portanto estamos perante um “medicamento” homeopático que é simultâneamente inócuo (pela dosagem) e perigoso se for consumido em grandes quantidades e que, seguramente, não terá jamais o propagandeado efeito “sedativo” que o referido “médico da TV” vendeu aos pais deste menor. No seu site o fabricante garante que é um produto “sem dependência” e que “não provoca sonolência”. Claro que não! Pois se é fundamentalmente composto por açúcar (sacarose e lactose)…

Mas o que é mesmo um “medicamento homeopático”? Basicamente é uma pseudociência que quando aparece no receituário de um médico conhecido (“da TV”), que trabalhar – supostamente – com medicina científica e que conquistou um título e reconhecimento académico obtém assim uma validação inadequada ao seu verdadeiro estatuto mítico, anacrónico e pseudo-científico. Ao aparecer na resposta de um médico reconhecido enquanto tal pela Ordem dos Médicos esta prática perigosa obtém a validação de que desesperadamente precisa. E não se trata de uma “diferença de opiniões”: a ciência não é opinião: é um produto do médico científico e não depende da quantidade de opiniões a favor ou contra. A Medicina não é Democrática: é Ciência e Facto Demonstrável e Repetível.

E entre todas as pseudociências a Homeopatia é precisamente aquela que um médico pediatra menos devia escolher porque esta pseudociência assenta em duas premissas erradas:
1. o princípio dos similares e 2. a lei dos infinitesimais.
Segundo o primeiro “similar cura similar” em que uma doença pode ser curada com uma substância que provoque um dos seus sintomas (sendo por isto que este “Sedatif PC” para a ansiedade prescreve compostos que provocam a sonolência seguida de morte como o Acónito e a Belladona e os “homepatas”receitam cebola para tratar a constipação). O segundo, a dita “lei dos infinitesimais” ainda é mais absurda já que pretende declarar que quanto maior for a diluição de um medicamento maior será a sua capacidade curativa. Sim, exactamente. Leu bem. Não me enganei. Por isso é que na “medicina” homeopática que aparece no cardápio deste pediatra aparecem venenos como a belladona, o acónito e… para “tratar” a asma, a diarreia, a “inquietude” e a “fraqueza” o muito cancerígeno arsénico! Porque as dosagens são tão baixas que estes efeitos se perdem. Perdem-se estes efeitos e todos os alegados efeitos positivos porque os níveis de diluição usados na homeopatia são tão elevados (10^30 ou mais) que na solução final, no meio do excipiente não resta uma só molécula do composto alegadamente activo (como demonstrou o químico italiano Amedeo Avogrado já em meados do século XIX).

É impossível saber se este pediatra receitou este “medicamento” homeopático porque esqueceu o que aprendeu na universidade, se o fez na mira de uma qualquer “recompensa” financeira ou apenas porque acreditou que receitar um placebo poderia servir para tratar uma situação de ansiedade. Mas ao fazê-lo credibilizou uma prática pseudocientífica que não merece qualquer credibilidade e consequentemente violou os princípios que devem reger a actuação de qualquer médico reconhecido pela Ordem dos Médicos (que já foi confrontada com esta questão). Ao receitar um “medicamento” homeopático este pediatra agiu como cúmplice ao lado daqueles que prescrevendo tratamentos homeopáticos para o tratamento de doenças fatais, como a pneumonia ou o cancro podem provocar a morte nos pacientes que seguem esta linha. Assim sendo este “médico da TV” provou apenas que a fama nem sempre é merecida e que mesmo entre os médicos mais conhecidos e famosos da nossa praça subsistem práticas obscurantistas e medievais como a homeopatia.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s