Razões versus teologias

File:Bible on Table (Unsplash).jpg - Wikimedia Commons

Como se pode explicar o ressurgimento da influência da teologia e do irracionalismo na cultura política ocidental?

O positivismo inaugurou uma era de cerca de dois séculos de aumento da influência ideológica da “razão” ou da ciência como ideologia, na cultura ocidental. O fim da União Soviética foi seguido de um ressurgimento da influência do fundamentalismo religioso na política, podendo servir de marco histórico a declaração da guerra das civilizações, em 2003.

Do fim da II Grande Guerra e do sucesso aparente das lutas anti-imperialistas dos movimentos de libertação das colónias, em meados do século XX, resultou uma Terra dividida em territórios sob a soberania formal de estados-nação mutuamente dependentes entre si. Essa rede de estados, também conhecida por comunidade internacional, organiza a exploração da Terra e dos seus recursos, incluindo os recursos humanos. A partir de então, verificou-se um crescimento acelerado da população mundial, do consumo de recursos não renováveis e de destruição do meio ambiente e da diversidade da vida.

O novo período histórico que começou com o novo século corresponde, noutro plano, ao princípio do fim da globalização. Esta começou nos anos 80, como resposta à crise do petróleo e do estado social. Reforçou-se com o fim da Guerra Fria e a adesão da China à Organização Mundial do Comércio. Entrou em colapso com a crise do subprime (a falência do sistema financeiro global) em 2008. Desde então o projecto de organização “livre” do mundo a partir das bolsas ficou ligado às máquinas do serviço da dívida pago pelos estados subordinados. Em 2016, com a chegada de Trump à presidência dos EUA, oficializa-se o reconhecimento ocidental dos resultados perversos para o império da política de alargamento planetário da sua influência. A economia e a sociedade foram sendo usadas para fins que não as beneficiaram e continuam a exigir sacrifícios sem perspectivas de futuros melhores.

Há muitas formas de dividir cronologicamente a história da modernidade. Cada uma delas ajuda a responder às perguntas que lhe são feitas e dificulta obter respostas que se desejam evitar.

A modernidade pode ser apresentada como a era em que finalmente a cultura se autonomizou da natureza, graças à indústria e à urbanização. Pode também ser apresentada em três fases: a era liberal (século XIX), a era social (século XX curto) e a era da globalização neoliberal. Com a crise ecológica ficou claro como a política e a comunicação social escamotearam intencionalmente as prospectivas de risco de desastres ambientais irreversíveis produzidas pela ciência, desde os anos sessenta, antes da crise do petróleo de 1973. Com vista a manter políticas propícias às elites industriais e financeiras vencedoras das II Grande Guerra, para quem fazer crescer a economia sob o seu comando é o único modo de sobrevivência, concretizou-se na prática uma nova era geológica: a Antropoceno, que podia ser chamada o Elitoceno. A destruição da Terra pelas elites humanas que imaginam construir um mundo pós-humanista, em que a vida será substituída por máquinas inteligentes ao seu serviço.

A ciência que foi mobilizada para ajudar a ganhar as guerras e a evitar novas guerras, como o sistema MAD (destruição mutuamente assegurada – mutual assured destruction), mantém-se profissionalmente ao serviço das corridas aos armamentos e desmobilizada no campo da ecologia, quando descobriu que o crescimento infinito da produção industrial não apenas é impossível como tentar prossegui-lo destrói o meio ambiente que, excepcionalmente, a Terra tem sido favorável à existência da espécie humana. A ciência filtrada pela política egoísta e suicidária das elites comprometeu o seu prestígio aos olhos dos que nunca estiveram muitos dispostos a prescindir da religião. Embora a política e os meios de comunicação social tenham tentado esconder os compromissos políticos da ciência e a reacção popular contra ela, o escarnecer contra as culturas populares e as suas crendices deixou de ser eficaz para reprimir e neutralizar as lógicas religiosas, abandonadas aos entusiasmos místicos dos fundamentalistas cristãos, muçulmanos e judeus.  

À esquerda e à direita, nos países do capitalismo e do socialismo, a ecologia foi desclassificada para última prioridade, apesar da aflição das pessoas a esse respeito. Estas, impotentes, mantêm-se profissionalmente a colaborar com a destruição das condições ambientais para conseguirem obter rendimentos que lhes permitam sobreviver no imediato. É uma história em tom de tragédia. No quadro da pandemia, as pessoas são levadas a desejar, logicamente, que tudo volte ao normal, já que nas últimas décadas se têm vindo a adaptar sucessivamente a priores condições gerais de vida. Mas o chamado novo normal revela-se, para cada vez mais gente e também nos países ricos, uma distopia. Às crises ambientais somam-se crises financeiras, crises políticas, crises económicas, crises sanitárias, crises de valores, crises de violência.

No plano da política, essa desesperança é representada pelo aumento de influência dos partidos e sobretudo das ideias xenófobas, punitivas, isolacionistas, discriminatórias, estigmatizantes, sacrificiais, de que os fundamentalismos religiosos, clubísticos, partidários, corporativos, disciplinares, são parte. Nota-se a necessidade de usar a crítica, a arma racional por excelência, tirando partido das gerações mais bem-educadas de sempre. Também se nota que os resultados esperados não surgem. Ao invés, os mitos urbanos, como os que circulam nos media sociais ou em torno das eleições políticas, constituem-se cada vez na base das decisões de acção e de voto dos cidadãos e dos eleitores. As gerações mais bem-educadas de sempre são, também, mais volúveis aos fundamentalismos, aos relativismos, às corrupções. Profissionais nas horas de trabalho e hooligans por prazer e desabafo, na esperança irracional de aliviar a culpabilidade decorrente da nossa cumplicidade colectiva na destruição das melhores condições ambientais para a vida humana na Terra.

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