O que é a sociedade?

Sociedade é Versailles (Elias, 1990), o princípio da grande reclusão (Foucault, 1975) e da necessidade da democratização da psicologia (auto-ajuda; cuidar de si) (Foucault) tratada nos salões, clubes, outras organizações da leisure class (Veblen, 2018). A expansão da sociedade e da grande reclusão acentua-se com a vontade das classes trabalhadores de verem reconhecido o mérito do trabalho através da revolução social (Castel, 1995), isto é, da igualdade, da sociedade comunista ou socialista, uma sociedade em que todos fossem igualmente membros da mesma sociedade.

A revolução era necessária porque as elites não estavam dispostas a aceitar essa igualdade. Então, a igualdade passou a ser melhor entendida como a igualdade de tipo militar. Os militantes alinhados como militares em parada, no intervalo das lutas. A violência era a única maneira classes populares poderem continuar a imitar a cultura dominante. Contra essa igualdade dita totalitária, teoricamente contrária à liberdade de manter os privilégios, se levantaram as democracias de sufrágio universal. Até as mulheres e os jovens passaram a poder votar, para evitar o poder dos trabalhadores contra os patrões e o estado. Depois da II Grande Guerra, os estados mais modernos passaram a representar “todos nós”.

As ciências sociais foram profissionalizadas nessa altura com a incumbência de fazer imaginar uma sociedade inclusiva (em que todos poderiam ser cortesãos, viver em apartamentos, comer à mesa, ter casas de banho, participar nos salões, incluindo no desporto, na cultura, nas escolas e universidades). Basicamente organizaram um (falso) count-down das desigualdades, na esperança de um dia elas possam ser anuladas pelo estado, contrariando a economia. Na prática, as desigualdades não foram abolidas com as revoluções socialistas e comunistas, menos ainda com os estados social ou liberal.  Então, passou a fazer sentido (com Tatcher e Reagan) dizer que a questão social tinha sido uma ilusão – nunca haverá, diz-se, qualquer semelhança entre as elites, os populares e os underdogs, outcast, bodes expiatórios. Tal desigualdade é natural. As hierarquias estariam inscritas nos genes e fazem justiça às pessoas individualmente auto-produzidas. Os processos de imitação nunca serão capazes de superar as diferenças (Clark, 2014).

A hegemonia da ideologia neoliberal acompanha a afirmação do império norte-americano no pós-guerra, com o apoio da antiga potência imperial, a Inglaterra, e as primeiras potências imperiais modernas, os países ibéricos (cimeira de 2003, nos Açores, anunciando a guerra sem fim à vista contra o Islão radical), retomando ideologias tradicionalistas e religiosas. Essa hegemonia impôs, através de políticas globais de ciência, a submissão das profissões sociais a perspectivas de estudo das desigualdades confinadas ao “modo de vida americano”. Criadas para lutar contra o desemprego, a pobreza (a começar na Grande Depressão dos anos 30), a reintegração social dos imigrantes e das tropas (após as guerras mundiais e as guerras coloniais), as ciências sociais passaram a tomar as decisões políticas e as elites que as promovem como factos sociais inamovíveis, como se o poder fosse e tivesse de ser obedecido.

A focagem obsessiva das teorias sociais no poder coloca na penumbra do olvido as práticas de cuidados, desqualificadas como femininas e privadas. Assim, as identidades nacionais, políticas, profissionais, de classe, individuais, são apresentadas, contra as evidências, como escolhas pessoais tomadas em plena liberdade concedida pelo direito e pelo estado. Grande parte da identidade mais profunda de cada um é imposta na primeira infância, a começar pela nacionalidade, sem alternativa. Os processos de incorporação são, a maior parte, inconscientes resultados da reprodução social das condições de cuidados a que cada um têm acesso em criança (Bourdieu, 1979).

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“La Distinction- Critique Sociale du Jugement” de Pierre Bourdieu, 1979.

Esta distorção cognitiva das teorias sociais, reforçando o poder e alienando as condições de prestação de cuidados às crianças e a toda as pessoas, afasta-as dos critérios de cientificidade. O mesmo se passa em muitos outros sectores da vida intelectual e profissional, sempre atentas aos desejos de quem está em cima e alheados das necessidades de quem está em baixo.

Uma característica da modernidade do pós-guerra é a mentalidade do pluralismo pragmático conformista. Cada um que se desenrasque conforme melhor se conforme com as elites exploradoras da Terra e dos seus recursos, incluindo os recursos humanos.

Não são só as ciências sociais que se desenrascam sozinhas, que se incompatibilizaram com o direito e com as ciências naturais. O vice-versa também se verifica. O resultado é o afeiçoamento das teorias às limitações das profissões, cuja formação inicial é especializada. Especializada. entenda-se, a conformar-se com os interesses dos empregadores e financiadores das formações iniciais e dos empregos.

Do ponto de vista cognitivo, o olvido das práticas de cuidados vai de par com a abolição da imaginação holista sobre o que seja e possa ser a sociedade desejada, a sociedade de todos para todos. A sociedade, embora seja o objecto de estudo das ciências sociais, simplesmente não é discutida: aparece aos estudantes e aos profissionais como um facto natural, indiscutível, embora cada um seja livre de pensar o que quiser sobre o assunto. Ou como dizem Max Weber e todos os estudantes de ciências sociais, ao menos nas formações iniciais de profissionais do social, há que separar ideologia (desejos de viver em sociedades de todos para todos) e a ciência (em que as ideologias não se discutem).

As ciências sociais deixaram de aspirar a ser ciências. Ficaram num limbo entre as humanidades e as ciências. Tornaram-se ciências centrípetas: incomunicantes não apenas com as outras disciplinas, como o direito, a filosofia, a teologia, a biologia, a física, a astronomia, mas também incomunicantes entre as disciplinas das ciências sociais, economia, política, cultura, comunicação, sociologia, etc. O processo de alienação não para aí. Todas estas subdisciplinas das ciências sociais estão igualmente divididas de modo incomunicante entre sub-subdisciplinas, como as que são aplicáveis a diversas instituições, como educação, família, prisões, pobreza, instituições, movimentos sociais, corpos, emoções, etc. Como se estas instituições fossem espontâneas, naturais, eternas e sem relação entre si.

Uma das consequências deste estado de coisas é bem conhecido na medicina. Comparando a medicina ocidental com a medicina oriental, a grande diferença é que a primeira está focada na cura (e cura de modo incomparavelmente mais eficaz que a segunda) e a medicina oriental está focada na prevenção. Para vincar esta diferença, diz-se que os doentes orientais pagam aos seus cuidadores de saúde enquanto estão saudáveis e deixam de pagar quando estão doentes, ao contrário do que acontece com as medicinas curativas.

Noutras políticas, como a defesa do património, na cultura, na defesa do meio ambiente, na luta contra o aquecimento global, a prioridade à cura (depois de o mal estar feito) é também aplicada com bons resultados a curto prazo e resultados catastróficos a longo prazo. Longo prazo que é agora!

Em vez de organizarmos a prevenção da destruição do meio ambiente e da miséria nas condições de vida das populações que vivem em cima de minas, em cima de terrenos que se pretendem utilizar para especulação urbana, em vez de prevenirmos as condições de saúde dos trabalhadores, a desertificação, etc., continuamos a destruir o meio ambiente e as condições gerais de vida das populações. Nestas circunstâncias de obsessão pelo respeito ao poder, a própria imaginação de uma organização social diferente torna-se dolorosamente incomodativa, já não só para as elites, mas também para todas as pessoas. A imaginação torna-se distópica, como no caso dos pós-humanistas (Harari, 2018) e dos neo-nazi-fascistas.

Prevenir

Referências :

Bourdieu, P. (1979). La Distinction. Minuit.

Castel, R. (1995). Les métamorphoses de la question sociale. Gallimard.

Clark, G. (2014). The Son Also Rises. Princeton University Press.

Elias, N. (1990). O Processo Civilizacional (Vol I e II) (1a edição). D. Quixote.

Foucault, M. (1975). Surveiller et punir : naissance de la prison. Gallimard.

Harari, Y. N. (2018). Homo Deus; História Breve do Amanhã. 20/20 Editora, Elsinore.

Veblen, T. (2018). A teoria da Classe do Lazer. Almedina.

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