Quinta das Águias (em Lisboa)

Um pouco de História:

Quem passar pela Rua da Junqueira, 138, em Lisboa (freguesia de Alcântara), encontrará as ruínas do Palácio da Quinta das Águias. A localização do palácio tem, desde logo, significado porque esta rua da Junqueira (cujo nome advém dos juncos que aqui havia antes do século XIII), que liga a freguesia de Belém a Alcântara foi usada depois do grande terremoto de 1755 como uma das zonas preferidas pela nobreza para construir os seus palácios e palacetes.

A entrada do edifício da Quinta das Águias

O Palácio é o coração da Quinta das Águias (também chamada de “Quinta de Diogo Mendonça”, “Quinta do Visconde da Junqueira”, “Quinta dos Côrte-Real” ou ainda “Quinta do Professor Lopo de Carvalho”. A denominação “Quinta das Águias” advém das águias de pedra em ambos os lados do portão principal e designa uma propriedade com 11,369 m2 dos quais 6,788 m2 são jardins.

O núcleo original da actual edificação data de 1713 e foi construído sobre um terreno de João Saldanha tendo sido construído pelo advogado da Casa da Suplicação (nome dado ao tribunal supremo de Portugal) Manuel Lopes Bicudo que aqui habitava com a sua mulher. Após a sua morte, a quinta foi herdada pelas quatro filhas religiosas. Em 1731 o palácio foi comprado por Diogo de Mendonça Corte-Real, filho do Secretário de Estado de D. João V de mesmo nome e padrinho de uma das filhas de Carlos Mardel, o arquiteto que tão importante papel teve na reconstrução de Lisboa depois de 1755 e que poderá ter tido uma palavra na construção do palácio.

Foi Diogo de Mendonça quem aqui realizou extensas obras no palácio a partir de um núcleo que se pensa ter sido construído pelo licenciado Manuel Lopes Bicudo na propriedade que fora dos Saldanha e Albuquerque. Foi também Diogo de Mendonça, ministro de D. Pedro II e de D. João V que comandou operações militares na Guerra de Secessão espanhola e, mais tarde, nas negociações do Tratado de Utrecht. Data de então a construção da capela e completou a cerca do jardim. Em 1751, Diogo de Mendonça Côrte-Real expande o terreno da quinta para construir um sobrado mas os protestos do Conde da Ega obrigam-no a desistir do projecto porque lhe tiraria as vistas do rio é com esta aquisição que a quinta passa a ter mais de 15 mil m2.

O terremoto de 1755 deixou relativamente em paz a zona da Junqueira e muita população lisboeta refugia-se nesta região. Data desta época a referência à quinta feita, pouco depois da catástrofe, pelo padre João Baptista de Castro: “que a deliciosa quinta, e palácio de Diogo de Mendonça tinha por orago Nossa Senhora da Anunciação e que ficou intacta depois do terramoto”.

Depois de 1755 Diogo Mendonça Corte Real fez grandes obras na casa e criou o jardim entre o palácio e a rua da Junqueira, com bancos e muretes de revestimento azulejar azul e branco da 1ª metade de Setecentos. Foi durante este período que o palácio se tornou um dos centros da vida social em Lisboa acolhendo várias festas e bailes nos quais participava regularmente D. João V. Mas a relação de D. João Pedro Diogo de Mendonça com o monarca degrada-se rapidamente, paralelamente deixa-se rodear de dívidas e este é obrigado a sair de Lisboa, primeiro para o norte de Portugal e, depois, degredado para a praça marroquina de Mazagão regressando apenas em 1768 vivendo perto de Peniche até 1771. As razões deste degredo devem ter sido maiores que a sua falência por dívidas e talvez uma conspiração contra o rei ou alguém da alta nobreza portuguesa.

A partir daqui fica a viver na quinta a governanta francesa, Maria Josefa Catherine du Pressieux sendo provável que ninguém tenha aqui habitado apenas um par de anos tendo ficado o palácio desabitado cerca de seis anos. A partir de 1758, Diogo de Mendonça arrendou a casa à filha, Maria Francisca, e ao seu esposo D. José Manuel (meio-irmão mais novo de Diogo de Mendonça) mas esta família entra numa espiral despesista e, consequentemente, a propriedade degrada-se e este recua na intenção de lhe doar a propriedade em 1764. É também em 1764 que a mulher de Diogo de Mendonça é exilada para Angola e a família entra num período de grande conflito interno.

Em 1758 faleceu no palácio o cardeal patriarca de Lisboa D. José Manuel da Câmara, que então arrendava a propriedade. D. João Pedro Mendonça, meio-irmão do proprietário, passa então a viver na Quinta das Águias mas é com a morte de Diogo Mendonça Corte Real que a quinta entra num período de abandono.

O período de abandono da quinta começado em finais do século XVIII termina em 1838 com a resolução do litígio judicial sobre a herança de Diogo Mendonça Corte-Real sendo a quinta entregue à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que a venderá, em 1841, a José Dias Leite de Sampaio depois de ter estado sete vezes em hasta pública e a um preço várias vezes abaixo do primeiro valor. É sob a responsabilidade deste novo proprietário que se fazem intervenções na propriedade com o arquitecto Fortunato Lodi. Leite de Sampaio reside aqui até 1856 e em 1890, o palácio é novamente vendido, desta feita ao Visconde da Junqueira, contratador de tabaco e de sabões e proprietário de uma fábrica de óleos em Alcântara e da quinta vinícola de Alorna. O visconde viveu aqui durante 14 anos. Após a sua morte, o palácio passa para a propriedade de seis primos seus que a arrendaram não sem antes levaram para a Quinta de Alorna as quatro grandes estátuas de mármore que decoravam o jardim.

Em 1890 a quinta está na posse do médico Fausto Lopo Patrício de Carvalho, que realizou grandes obras no palácio e jardins com os arquitetos Vasco Regaleira e Jorge Segurado com a adição de uma varanda na lateral ocidental do palácio, grandes renovações na ala oriental e o acrescento de um muro exterior e das suas torres. É nesta época que são instaladas as águias de mármore, algumas das quais podem ser ainda hoje observadas com os seus “S” que se referem ao Barão Sampaio.

A partir de 1900 a quinta esteve na posse da família Carvalho mas por volta de 1970 e depois de mais de meio século de abandono passou à posse de um fundo do antigo BES numa operação não muito clara e chegou a estar à venda por 20 milhões de euros, tendo descido posteriormente para 17,5 milhões. Não é nítido se ainda se encontra neste estado havendo indicações, pouco nítidas, de que se encontra à venda no site da Sothebys com indicação de que seria convertido em “hotel de charme” mas actualmente não pode ser aqui encontrado em nenhuma das suas várias designações e nada se encontra nem no site do Novo Banco nem no da Sotheby’s sendo que a quinta parece estar hoje na posse da “Sociedade de Administração Imobiliária Palácio das Águias, SA” (com um único funcionário e com sede na Rua Castilho).

Em 1913, já no século XX, a morte da condessa da Junqueira transporta a quinta para um segundo período de decadência que só termina vinte anos depois. Em 1918, o dentista e empresário Manuel Caroça compra a Quinta da Alorna, em Almeirim, juntamente com outras propriedades algumas das quais em Lisboa descobrindo assim que entrou na posse da Quinta das Águias, mas arrendado desde 1914 encetando então uma acção judicial para que fosse desocupada algo que conseguiu apenas em 1924 (já então a Justiça não tinha fama – e mérito – de ser rápida).

Em 1996, o palácio da Quinta das Águias é classificado como “imóvel de interesse público” e, em 2004 a sua propriedade transita para a “Sociedade de Administração Imobiliária Palácio das Águias” que o administra até hoje. Três anos depois é apresentado um projecto de reabilitação à Câmara Municipal de Lisboa que visava a construção de um hotel de cinco estrelas com quarenta e duas unidades de alojamento e que iria também reabilitar os jardins e em – teórico – respeito pelos traçados originais mas construindo-se novos edifícios no jardim mas que teria sido congelado devido às dificuldades do banco que financiará o projecto.

Actualmente, o destino da Quinta ainda é incerto e a sua degradação não cessa de se agravar tendo todas as tentativas de visitar o espaço sido acolhidos com um sepulcral silêncio. É certo que algumas organizações cidadãs de Lisboa (como Fórum CidadaniaLx) se têm batido pela preservação da quinta e do seu palácio mas até ao momento não se sabe se o projecto hoteleiro irá mesmo vingar, nem qualquer será a escala da reabilitação ou reconstrução na quinta e nos seus jardins… Aguardemos: portanto, pelos melhores dias que inevitavelmente terão que vir para esta bela quinta da Junqueira.

O Palácio e a Quinta:

O Palácio da Quinta das Águias tem uma planta regular em forma de quadrilátero em três pisos com torreões nos cantos e de secção quadrada com 24 quartos (e 10 balneários). Segundo o historiador Arthur Lamas: “Na escada de pedra havia um candieiro, com tres vidros grandes, de folha de Flandres (…). As paredes da sala estavam forradas de magníficas sedas e chitas da Índia e de Itália e algumas delas ornamentadas com muitas e delicadas peças de loiças boas da China, do Japão e da Saxonia. (…) Não faltavam lá cómodas, cadeiras, armários, bufetes e mesas de pau santo e de outras madeiras de fóra, e as talhas da China. (…).

As coberturas dos quatro torreões têm, ainda hoje, telha vidrada e estrutura piramidal. A sua fachada principal apresenta dois andares e um alpendre onde, na zona central, encontramos uma arquitrave, em curva e um arco de volta inteira. No interior surge em especial destaque o átrio, com o seu pavimento a mármore e tecto em estuque branco segmentado em doze quadrelas, cavadas, sobrepostas com relevo de estuque no estilo Luís XVI (Sala de Jantar). No muro de fundo há uma porta de ferro da autoria de Vasco Regaleita (Fábrica Granja: Século XX) e emolduramento de cantaria. Uma livraria, uma sala de música e um salão de baile dignificam o palácio existindo numa delas (ignora-se qual) se encontrava uma escultura em carvalho representando a Última Ceia e datando do século XVI. A escadaria desdobra-se em duas no segundo piso e tem um tecto em estuque abaulado, com clarabóia e lanternim e está revestida a azulejos do século XX. A Sala de Entrada tem, também, tecto revestido a estuque, ligeiramente elevado e uma porta de grande qualidade artística e da autoria de Vasco Regaleira. A Sala de Jantar e a Sala de Estar têm tectos em estuque. A Quinta tem uma cavalariça com capacidade para entre cinco a dez carruagens. Segundo Arthur Lamas “no quarto de dormir, que tinha janela para a varanda, havia um leito de pau de santo com embutidos de madeira de Sebastião de Arruda e de pitiá amarelo (…). No quarto de banho havia uma tina de chumbo revestida de madeira, pintada a fingir pedra, com duas torneiras (chaves), de bronze, por onde corria agua para o banho. Por cima da tina estava embutido na parede um prato de loiça, que tinha pintada, por um Rafael, uma batalha de Alexandre (…). Num gabinete do quarto alto achava-se assim instalada a livraria” e ainda, segundo o mesmo historiador “na cosinha havia dois espetos para assar, uma mesa de quatro pés, de madeira do Brasil, e um armario da mesma madeira (…). A casa tinha dois fornos de cozer pão, e um quarto para se amassar onde estavam guardadas duas talhas grandes para azeite”

No interior do palácio destacamos a capela, de pequenas dimensões e construída em 1748 por José Nogueira, executando o seu testamento que consagrava “4000 cruzados para fundar uma capela em qualquer lugar do reino na qual ditassem missas diárias e perpétuas” de planta quadrangular e galeria superior com balaustrada de madeira e silhares que exibem azulejos setecentistas de pintura policromática na sanca e uma pintura que se atribui a Pierre-Antoine Quillard, pintor francês nascido em Paris em 1700 e falecido em Lisboa em 1733 mas que foi destruída do terremoto de 1755. Destacava-se igualmente na capela a porta do átrio, com cantaria e portal de ferro da autoria do arquitecto Vasco Regaleira (1897-1968) com a águia heráldica dos Sampaio.

O jardim da Quinta das Águias segue ainda o traçado original setecentista com muretes de azulejos azuis e brancos com cenas de caça, bustos de mármore e várias espécies vegetais.

A Quinta das Águias é um “Imóvel de Interesse Público” segundo o Decreto n.º 2/96, DR, 1.ª série-B, n.º 56 de 06 março 1996 e está incluída em várias “zonas especiais de protecção conjunta” (como a da Capela de Santo Amaro, Palácio Burnay e Cordoaria Nacional).


Algumas Fontes:
http://www.monumentos.gov.pt/site/app_pagesuser/sipa.aspx?id=4072
https://www.atlaslisboa.com/quinta-aguias/ 
https://www.nit.pt/fora-de-casa/na-cidade/09-17-2016-edificios-abandonados-este-palacio-em-lisboa-esta-em-ruinas
http://miseriasdelisboa.blogspot.com/2015/09/palacio-das-aguias.html
https://informacoeseservicos.lisboa.pt/contactos/diretorio-da-cidade/palacio-das-aguias-quinta-das-aguias
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/fotos/editor2/Cadernos/2serie/cad5/artigo06.pdf
http://www.sosazulejo.com/wp-content//gallery//azulejos-furtados/120.jpg
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/fotos/editor2/Cadernos/2serie/cad5/artigo06.pdf
http://www.tsf.pt/programa/encontros_com_o_patrimonio/emissao/_as_quintas_de_recreio_4605244.html

Bibliografia:
LAMAS, Arthur, A Quinta de Diogo de Mendonça no Sítio da Junqueira, Lisboa, 1924 ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, Fasc. 8, Lisboa, 1950
VIDAL, Frederico Gavazzo Perry, Os Velhos Palácios da Rua da Junqueira, in Olisipo, Ano XVIII, Nº 70, Abril 1955 e Ano XVIII, Nº 71, Julho 1955
TAÍDE, M. Maia, (coordenação), Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, Lisboa – Tomo III, Lisboa, 1988
GONÇALVES, José Manuel, Palácio das Águias, in Casa e Jardim, Lisboa, Setembro 1990
“Portugal Antigo e Moderno” – Mattos, Moreira & Companhia – Lisboa, 1873 – , vol.I, pág.40

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