Eleições 2022 e a armadilha da pobreza

Há 45 anos, Mário Soares apresentou aos portugueses a sua Europa Connosco, dizendo-se contra o miserabilismo dos terceiro-mundistas que preferiam, segundo ele, prescindir de estar ao lado dos ricos (os países desenvolvidos da Comunidade Económica Europeia) para se manterem pobres. Os miserabilistas calaram-se, mas as misérias continuaram e continuam.

O G20, desde o início do século, anuncia sucessivamente a erradicação da pobreza no mundo, entretanto inscrita como primeiro objectivo da agenda para o desenvolvimento da ONU. Falhadas todas as metas, a esperança é sempre a última a morrer: agora é 2030. Porém, a cada crise tudo volta (in)compreensivelmente para trás: como se costuma dizer, primeiro é preciso haver ricos para depois poderem distribuir.

Há 20 anos, a entrada de Portugal no euro, em 2002, foi a grande decisão dos políticos do arco da governação deste país. Libertou-os de tomar decisões monetárias, entregues à União Europeia, cuja solidariedade ficou patente por ocasião da falência do sistema financeiro global (2008), reduzindo o prestígio dos países do Sul a porcos (PIGS). Atrás dessa cortina de fumo de propaganda neocolonalista e nacionalista, atingindo a honra de parceiros de Bruxelas, sob a tutela de Berlim, decidiu-se que seriam os estados nacionais mais frágeis, com maior dívida pública, a assumir as responsabilidades do que então se chamou ganância dos banqueiros. Funcionou.

Os pobres continuam a pagar as crises, como sempre e como não poderá deixar de ser no sistema imperial vigente. Pagam os países pobres e pagam os pobres em todos os países.

Foi nesse quadro que emergiu com força renovada a extrema-direita na Europa, representada no governo de Portugal por Passos Coelho (2011-2015). A sua derrota política foi possibilitada pela geringonça, em 2015, reacção democrática contra as tendências auto-flageladoras de grande parte do eleitorado, a mesma que deu maioria relativa aos partidos desse governo em 2015. Foi um golpe democrático integrar os partidos que se opuseram às políticas europeias e romper com o arco fechado da governação, remetendo Passos Coelho para a oposição. A extrema-direita, entretanto isolada no PSD, acabou por formar partidos novos, na sequência da incapacidade dos partidos tradicionais de promoverem explicitamente a discriminação social, por via da raça ou por via do mérito. Os novos partidos tornaram-se as grandes sensações da campanha eleitoral 2022, em terceiro e quarto lugares no ranking dos partidos.

Induziram a redução da abstenção, colocaram o PSD aberto ao diálogo com o PS sem capacidade para combater frontalmente as emergências à sua direita, motivaram a maioria absoluta do PS, após seis anos de poder, para que este resista à extrema-direita. Desta vez, o rotativismo não funcionou. Os eleitores jogaram à defesa de quem lhes prometeu proteção perante as incógnitas da pandemia, mantem boas relações com a União Europeia, promoveu a democracia e não se confunde com a extrema-direita.

É claro que todos perceberam que foi António Costa quem quis romper com a geringonça e voltar ao modelo do arco de governação. Mas todos sabemos que isso é imediatamente indispensável para acolher as exigências de Bruxelas que veem com a bazuca e as oportunidades de financiamento da reconfiguração da economia europeia. Tal como no tempo de Soares, há quase meio século, o que os eleitores votaram foi num interlocutor forte, mas não auto-flagelador, para fazer aquilo que a União Europeia queira que Portugal faça. O vencedor, surpreendido, prometeu manter a democracia activa durante o período. Intenção meritória e difícil de cumprir. Estará isolado nesse desígnio. A democracia fenece por todo o mundo, e também em Portugal.

Com o Banco Central Europeu a despejar dinheiro a rodos para a banca, a manter as taxas de juro negativas, a comprar as dívidas dos estados-membros, o sistema financeiro europeu, como o global, estão ligados à máquina. À máquina de acumular riqueza nas mãos das elites: “Um novo multimilionário a cada 26 horas desde o início da pandemia. Os dez mais ricos do mundo duplicaram as suas fortunas, a par de mais de 160 milhões atirados para a pobreza”, escreve a Oxfam no seu relatório 2022. Tudo isto numa situação em que se estima 17 milhões de mortes, a maior escala de mortalidade desde a II Grande Guerra, afirma o mesmo relatório.

A falência financeira do sistema global está a ser evitada independentemente dos custos, enquanto continua a beneficiar a acumulação de riqueza. O problema é que está a conduzir à transferência de poder entre Washington e Pequim. À actual capital do império resta a máquina de guerra (nomeadamente a renovação da Guerra Fria) para se manter no centro das decisões de acumulação, que é a maneira mais convencional de fazer reformas de fundo (a destruição criativa).

A guerra, entretanto, já não é o que era: ela é pandémica, internética, cibernética, orbital, genética, além de energética e tecnológica que sempre foi. Sobretudo enfrenta os limites da pulsão auto-destrutiva, simbolizada pelo nuclear, mas a ser concretizada pelo Antropoceno: as mudanças geológicas como o degelo da Gronelândia e do permafrost, a subida das águas do mar, os fenómenos meteorológicos extremos, as novas rotas de navegação e exploração no ártico, o aumento da frequência das pandemias, etc.

A grande ausência na campanha eleitoral foi, pela sua actualidade, o tema da seca extrema que o país vive, no quadro dos prognósticos de desertificação em curso. As perspectivas da eco geringonça, uma sonhada aliança entre o PS e os novos partidos à esquerda que poderiam ser suficientes para renovar uma maioria de esquerda sem os principais partidos tradicionais à esquerda do PS, resultou, na prática, na redução do PAN a uma deputada e no desaparecimento do PEV da representação parlamentar. O PS, por seu lado, com a maioria absoluta, não precisa do Livre nem de nenhuma outra esquerda. Os eleitores, como os partidos verdes, entenderam não ser útil estar a falar das dificuldades existenciais, como a desertificação do país. Preferem pôr a cabeça debaixo da areia e esperar a protecção divina, neste caso de um governo de maioria absoluta, que vai manter a rega dos campos de golfe e a plantação de eucaliptos.

António Costa e o PS sabem muito bem os tempos difíceis que se avizinham. Com a ajuda dos partidos, que não querem incomodar os eleitores com problemas, calaram e vão continuar a calar a falência do sistema financeiro, as conspirações globais conduzidas militar e mediaticamente nas diferentes frentes de guerra, o endurecimento da vida das pessoas sem recursos suficientes para se protegerem, isto é, pagar pela energia, água, saúde, habitação, transportes. Como em qualquer esquema de Ponzi, para acumular riqueza num ponto, tem de haver uma multidão de contribuintes que pagam, geralmente com trabalho, mesmo que para isso vivam na miséria. Para que os trabalhadores continuem a trabalhar, há que lhes mostrar os infernos da vida para os que nem isso podem fazer, por viverem em países errados, por terem nascido em famílias erradas, por não terem as competências certas.

Tal como explicaram Marx, Foucault e Bourdieu (ou Bentham, Taylor e Dejours), a exploração implica um grande internamento cujos efeitos psicossociais, para as pessoas integradas, é incorporado. Os eleitores portugueses mostraram, apesar de serem dos mais pobres da Europa, estar integrados num sistema que está a precisar de remodelação profunda, mas que em Portugal ninguém tem ideia nenhuma sobre o que fazer.

A Iniciativa Liberal sobe clamando contra essa inércia, na defesa daquilo que diz ser a liberdade: a capacidade de iniciativa dos empresários, provavelmente os jovens aspirantes a empreendedores a quem convenceram que o mundo lhes foi oferecido por um Deus já fora de moda, mas que eles têm o direito de continuar a explorar, à custa do trabalho dos recursos humanos que nunca abundaram tanto, à medida que o sistema imunitário da Terra já estabeleceu um programa de irradicação da infecção humana que deteriora o seu ambiente, à superfície.

O Chega emerge ameaçando tudo e todos, como um desempregado acabado de sair da taberna a rever a sua história de colaborador das discriminações e explorações mitificadas nas histórias contadas pelos vencedores e divulgadas nas escolas e pela comunicação social.

Quando um grupo de multimilionários, aqueles que a ideologia dominante diz que mandam nisto tudo, fazem um abaixo-assinado a pedir para que lhes cobrem impostos, incluindo aos multimilionários que não querem pagar impostos, ficamos a saber que não fazem ideia do que fazer com o dinheiro que acumulam e que os estados preferem não ter dinheiro para não o ter que usar. Como se costuma dizer, o avião não tem ninguém no cockpit, a festa é brava na executiva e na turística o pessoal dorme.

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5 respostas

  1. À excelente análise do António gostaria de acrescentar alguns detalhes, pois um olhar um pouco mais aprofundado mostra uma realidade ainda mais negra.
    Refiro-me ao disparo da inflação internacional, tema que a campanha evitou religiosamente. Muito longe de ser um fenómeno conjuntural, é um problema sistémico que veio para ficar por muitos e bons tempos.
    As continuadas injecções massivas de liquidez no sistema financeiro para o manter à tona, longe de resolver os problemas, apenas mantèm a aparência do business as usual. As escala brutal desse maná tem por colateral inevitável a alta continuada da inflação pela depreciação do valor da moeda. Esse facto tem sido ainda mais potenciado pelas disrupturas generalizadas nas cadeias de distribuição onde a procura tem vindo a superar largamente a oferta, sem solução à vista, gerando enorme escassez em muitos produtos industriais e alimentares com o consequente disparo dos preços. Certas medidas administratativas tomadas por alguns governos (EUA, RU. etc.) restringido bastante os fluxos migratórios, têm originado graves carências de mão de obra de baixa ou média qualificação, engarrafando ainda mais as cadeias de distribuição. Como se tudo isto ainda não bastasse, os falcões do decadente império yankee têm-se lançado numa corrida para o abismo, provocando com insistência os seus adversários russos e chineses, numa nova guerra fria que tem tido como subproduto imediato a contínua alta dos preços da energia.
    Como sempre acontece nestes quadros, os poderes tendencialmente hegemónicos procuram rodear-se cada vez mais de yes-men que lhes digam o que eles querem ouvir, distanciando-se sucessivamente das realidades. Claro que o Costinha agitou a bandeira do diálogo, mas apenas para ficar bem na foto do situacionismo. Mesmo que não fosse o arrogante que sabemos, toda a gente tem a noção de que ele não dialogará seriamente com ninguém. Ora deste contexto, não poderá sair nada de bom, sobretudo para as classes já empobrecidas e desvalorizadas, até porque as apregoadas liberdades que Cotrim propala de modo nenhum se destinam a estas camadas, mas a outras.

  2. Muito incisivo. Traça com rigor o triste panorama internacional que nos toca viver e contra o qual nos sentimos formigas a lutar contra um elefante

  3. Excelente texto. Pena é que num tempo em que a comunicação entre membros da comunidade está sendo “curtocicuitada” pelos mais variados modos e demasiada gente desistiu de pensar.

  4. Artigo interessante, embora o autor denote algum Idealismo, no sentido de que o mundo caminha para a Sociedade ideal.”(…) para fazer aquilo que a União Europeia queira que Portugal faça”. Esta é a frase-chave. Para que a Vida nos Estados-membro da Europa Central continue , alguém tem que pagar. Quem paga são os países do Sul da Europa. É a nova Liga de Delos, onde os países periféricos têm que pagar o bem-estar da metrópole. E em relação a isso não existe muito a fazer. Os eleitores perceberam que estava em causa a sua própria segurança.

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