A REVOLTA DOS NÚM3R05 / “Mentiras, Malditas Mentiras, e Estatísticas”

Todas as épocas têm os seus excessos e obsessões.

Uma das obsessões favoritas da sociedade moderna é o uso de estatísticas completamente desprovidas de contexto. Esta tendência é simultaneamente fascinante e preocupante, e está-se a tornar de tal forma comum que até está a ter efeitos notórios no mundo do futebol, por exemplo. E não é só na maneira como os clubes gerem as equipas, visto que hoje em dia todos os clubes de elite têm departamentos de análise de dados cujo trabalho pesa cada vez mais na maneira como gerem o departamento médico, os treinos assim como as políticas de contratações. Até na maneira como os fãs comentam o desporto vemos a obsessão com a utilização de números a ocupar cada vez mais espaço, sejam os números úteis e relevantes, ou não. Dantes debatia-se qual era o jogador que tinha as fintas mais espetaculares ou simplesmente “melhores”, hoje em dia vamos dizer que um certo jogador tenta fazer 2.7 dribbles por cada 90 minutos enquanto que um outro só tenta 1.9. A miopia que estatísticas singulares como esta podem provocar é mais do que óbvia. Para comparar realmente a capacidade de dribble de dois jogadores, quanto mais para medir verdadeiramente a qualidade total de cada jogador e a sua utilidade e função na equipa, são necessárias muitas mais estatísticas, muitas mais variáveis e mais conceitos, assim como teríamos que ter algumas considerações que não são tão facilmente medidas de forma quantitativa, numérica.

Ou como diz uma frase tendencialmente atribuída a Mark Twain, “existem três tipos de mentiras- mentiras, malditas mentiras, e estatísticas“.

Em vez de usarmos os números para fertilizar debates genuínos e informar as nossas decisões através de uma colheita de factos estruturada e honesta, vivemos numa época em que cada vez mais deixamos que os números nos ceguem e hipnotizem.

Como todo e qualquer instrumento que fabricamos, o qual também tem o potencial para depois nos magoar, ou até dominar, ou como escravos que são usados ao belo prazer do escravagista… Até o escravo se revoltar…

Em vez de sermos só nós a usarmos os números… 

Parece que os números estão lentamente a começar a aprender a usar-nos a nós.

 

João Silva Jordão

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2 respostas

  1. O João exemplificou com o “ópio do povo” e eu exemplifico com as seguradoras. Há uns anos, uma seguradora alemã descobriu que, estatisticamente, os carros brancos tinham muito menos acidentes que os de cor escura ou preta. E vai daí que decidiu onerar os prémios de seguros dos segundos e desonerar os primeiros. Se aquele facto é verdadeiro, tb não é menos verdade que tal se deve não evidentemente à cor dos carros, mas sim ao reduzido nº de carros brancos em comparação com os escuros. É apenas mais um exemplo de como há chicos-espertos um pouco por todo o lado e não apenas aqui pelo burgo. Oh, cabecinha pensadora……

  2. ”Parece que os números estão lentamente a começar a aprender a usar-nos a nós”. Boa última frase João Silva Jordão! Sendo adepto de futebol, eu quero é ver os jogos para saber se X,Y, ou Z jogam bem e não perder tempo com debates sobre a comparação de golos entre X e Y.

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