A democracia na Ucrânia, o 25 de Abril e a ameaça à democracia na Europa

A democracia na Ucrânia, o 25 de Abril e a ameaça à democracia na Europa

O momento presente atravessa três crises simultâneas que se cruzaram por fortuito da História e que são – cada qual à sua medida – de diferente natureza mas que partilham uma gravidade extraordinária.

1. Atravessamos (agora em fase de rescaldo) a maior crise sanitária dos últimos cem anos: a COVID-19,

2. A verdadeira crise existencial dos nossos tempos: as alterações climáticas e,

3. Desde 24 de fevereiro, a maior ameaça dos últimos 50 anos à democracia na Europa e à soberania de países que constituem a União Europeia ou que expressaram a intenção de aderirem à união: a Invasão da Ucrânia pelas tropas do regime de Putin.

Perante o cruzamento destas três crises todos os cidadãos devem reflectir sobre o seu papel nestes tempos tão conturbados e sobre e estão a fazer tudo aquilo que a História e os tempos presentes exigem dele. Não me excluo desta lista e por essa razão dei o meu modesto contributo para a resposta à crise sanitária sendo voluntário no Centro de Acolhimento de Cidadãos Sem Abrigo e, mais tarde, na Refood; para a crise ambiental estou a ajudar a montar uma associação de sustentabilidade ambiental e agora, mais recentemente, arranquei um projecto de voluntariado na Polónia e Ucrânia que visa aumentar a resposta na área de saúde e cibersegurança perante a catástrofe humanitária criada pela invasão da Federação russa. Mas o que fiz, faço e farei continua a deixar-me a sensação de que não estou a fazer o suficiente.

Em particular acredito que neste momento urge – todos – melhorarmos e aumentar o nível de ajuda que estamos a dar aos cidadãos da Ucrânia. Se tudo correr como planeado na primeira semana de Junho estarei na Polónia e na Ucrânia dando – juntamente com outros voluntários – o meu contributo mas precisamos de ser mais a participar nesta crise e precisamos de ser mais, de fazer mais e melhor porque o que se passa na Ucrânia não é “apenas” a invasão de um país por outro país. A crise na Ucrânia é, ela também, o produto do cruzamento infortuno de várias crises:

1. A crise da presença e credibilidade da Europa no Mundo quando permitiu que a Rússia anexasse a Crimeia e regiões de Donetsk e Lugansk em 2014 e organizasse os subsequentes “referendos” sobre a situação política dos oblasts ucranianos de 11 de maio de 2014.

2. A crise na credibilidade externa da Alemanha (uma das duas maiores potencias da UE) quando permitiu que a sua economia se tornasse demasiado dependente do gás russo.

3. A crise na capacidade europeia para se defender e defender os seus parceiros europeus (como a Ucrânia) quando passou a acreditar numa política de “soft power” que excluía a defesa armada e permitiu a redução das suas forças armadas a níveis que estão muito abaixo nos níveis mínimos de dissuasão.

4. A crise que representa um regime imprevisível, de um autocrata irracional e provavelmente em doença terminal, que ameaça verbalmente os estados membros da UE e os nossos parceiros continentais com o uso de armas nucleares e que desloca este tipo de armamento para junto do Báltico e da península escandinava.

5. As ameaças – propagadas pelas televisões russas e emitidas por “analistas” próximos do Kremlin – de invasão dos países bálticos e da anexação (após um “referendo” e uma invasão a partir do sul da Ucrânia) do território moldavo da Transnístria.

6. Graças à “operação especial” russa temos em movimento na Europa mais de cinco milhões de refugiados naquela que é a pior crise de refugiados na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial (segundo a ONU): a Ucrânia vai demorar décadas a recuperar da destruição nas suas infraestruturas (que já não eram as melhores do continente) e da sangria de quadros qualificados e de jovens para a Europa, para as baixas da guerra e para as unidades defesa territorial numa guerra que não vai terminar em breve mas que, pelo contrário, tem condições para se manter durante os próximos anos (ainda que descendo de intensidade).

7. A ameaça ao governo democraticamente eleito de Kyiv em 2019 quando Volodymyr Zelensky foi eleito presidente do país com quase três quartos dos votos (73% na segunda volta) sendo que esta é a maior ameaça de todas: Que Europa queremos ter quando um autocrata pode enviar os seus tanques e aviões para depor um governo democraticamente eleito e estabelecer um governo fantoche? Se permitirmos que isto aconteça até onde vão avançar depois as tropas de Putin? Até à Moldávia? Até à Polónia? Até aos países bálticos (com grande população de língua russa)? Se a Europa fizer cedências qual será a próxima exigência do regime de Putin? Se cedermos não estaremos a cometer os mesmos erros da política de “apaziguamento” que estiveram na base da agressão nazi à Europa e à segunda Grande Guerra?

Todos precisamos de fazer mais (muito mais e muito melhor) para defender a Democracia na Europa: assim o saibamos e queiramos fazer.

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6 respostas

  1. É muito significativo que o Rui não faça a mínima alusão aos EUA e à NATO nem ao papel que têm vindo a ter no conflito. Casualidades, é claro. Sobre a alegada democracia ucraniana, apenas lembrarei alguns factos que a narrativa NATO procura ocultar. Zelly ilegalizou mais de uma dezena de partidos todos de esquerda, perseguiu e prendeu os principais opositores políticos, apoia descaradamente todas milícias nazis e suas atrocidades e até nomeou para chefe das secretas um conhecido torcionário nazi com a alcunha de “estrangulador”. Porque será?????

    1. Olá José,
      Como sabe adoro sempre os seus comentários. Até agora mantivemos um sistema onde todo o comentário tem que ser aprovado antes de poder ser visualizado pelo público, dado certas situações anteriores. Mas como já não é a primeira vez que os leitores se queixam de não haver a visibilidade imediata, vou então mudar para que apareçam imediatamente.
      Tenho também a questão de realçar que nunca faço censura política, só removo spam, publicidade e ameaças.
      Melhores Cumprimentos,
      João Silva Jordão

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