Camarate e Tancos são Agulhas num Paiol: o Denso Tráfico de Armas em Portugal

Portugal ficou para sempre marcado pelo caso não resolvido de Camarate, que vitimou duas figuras-chave no xadrez político nacional na noite de 4 de Dezembro de 1980, há 40 anos precisamente: Francisco Sá Carneiro (Primeiro-ministro) e Adelino Amaro da Costa (Ministro da Defesa Nacional). O caso ficou dado como encerrado depois de múltiplas investigações tendo o relatório de 1981 da Polícia Judiciária, concluído que se tratara de um acidente por falta de gasolina num dos tanques, excluindo totalmente a tese criminal. Em 1983, o Procurador-geral da República, Arala Chaves (atualmente com 104 anos de idade) deu então o caso como encerrado. Mas a versão não oficial, a conspiratória portanto, coloca Diogo Freitas do Amaral (imediatamente designado como Primeiro-ministro interino após o atentado) numa teia obscura relacionada com Henri Kissinger, a CIA e ex-militares do ultramar. Uns dias depois de Freitas do Amaral assumir funções interinas o cargueiro Cherbourg sai do Porto de Setúbal carregado de armas de proveniência não determinada, para o Irão.

Já nesses primeiros anos de República após o 25 de Abril, dizia-se mesmo que Mário Soares, Pinto Balsemão e Freitas do Amaral manteriam contacto direto com a CIA através de Kissinger, Carlucci e outros espiões e enviados especiais norte-americanos. Kissinger terá mesmo financiado a formação de democracias por oposição a governos de esquerda, quer em Portugal quer na Grécia, na mesma época. Segundo a teoria de Ricardo Sá Fernandes, advogado de uma das vítimas do “acidente” de Camarate, o alvo primordial terá sido Adelino Amaro da Costa, pela sua oposição ao acordo internacional de venda de armas ao Irão, promovido pelos EUA. Em 2011 a confissão de dezoito páginas de Fernando Farinha Simões é clara e inequívoca quanto ao seu envolvimento na operação da CIA da qual recebeu 750 mil dólares, uma pequena fortuna na época, para que providenciasse a morte de Adelino Amaro da Costa por forma a parecer um acidente. José Esteves terá recebido 200 mil dólares para fabricar as bombas e muito do restante dinheiro terá servido para corromper pessoas envolvidas na investigação. Mas mesmo perante esta confissão, o caso não foi reaberto.

Em 2015, sobre o Caso Camarate, a X Comissão Parlamentar de Inquérito à Tragédia de Camarate conclui, finalmente a tese de atentado, reunindo todas as provas conclusivas necessárias. Dessa Comissão resultou também a conclusão que as duas principais testemunhas do processo (José Moreira e Elisabete Silva) terão sido assassinadas em 1983, dias antes de testemunharem, de acordo com o relatório das autópsias. Recentemente Alexandre Patrício Gouveia, primo de Pinto Balsemão e irmão de António Patrício Gouveia (uma das vítimas de Camarate) publicou a sua tese sobre o atentado, do qual não tem dúvidas, depois de uma investigação de quatro anos que resultou no livro “Os Mandantes do Atentado de Camarate – O Envolvimento Americano“.

Recentemente o Caso dos Paióis de Tancos veio trazer a público outra trama de tráfico de armas com possíveis ligações internacionais, gerida por militares no ativo, de baixas e altas patentes. Por se tratar de uma rede de desvio de armamento imediatamente o caso foi alvo de uma tentativa falhada por parte da Polícia Judiciária Militar em abafar o caso, para que não fosse envolvida a Polícia Judiciária diretamente. Mas esta tentativa falhou e imediatamente foram desmascarados os envolvidos, presos os perpetradores e demitidas algumas altas patentes militares pela encenação falsa da recuperação do armamento. Com isso tentou-se colocar alguma água na fervura e desviar o caso da sua verdadeira essência: o desvio de armamento em larga escala para o mercado negro do tráfico de armas nacional e internacional, mercado que tem aumentado exponencialmente, agora também por envolvimento de várias máfias mundiais, como a ucraniana e a chinesa. Em 2019, por exemplo foi preso em Évora um dos maiores traficantes de armas do mundo, o belga Jacques Monsieur. Também em 2019, uma enorme rede de jovens foi apanhada em Setúbal, por serem especializados em comprar e vender armas pela internet, chegando mesmo a usar cartões falsos e crachás da CIA. Metralhadoras AK47, carabinas e pistolas automáticas, pistolas, silenciadores e munições em abundância são apanhados em quase todas as operações conjuntas da PJ e DCIAP.

Basta fazermos uma busca rápida no Google sobre tráfico de armas em Portugal para ficarmos surpreendidos com as dezenas de resultados de operações das polícias de investigação em território nacional ou em operações conjuntas internacionais. O que significa que, apesar dos meios de investigação estarem a facilitar o êxito destas operações, o tráfico aumentou exponencialmente, passando muitas vezes pelo nosso território, envolvendo portos marítimos, iates e jatos particulares bem como estradas de ligação a Espanha e a outros países europeus. Muitas armas têm origem em países de Leste e são alteradas ou renovadas para entrarem no grande tráfico internacional, muito dele destinado a África ou Médio Oriente. Mas o mais preocupante são as quantidades e calibre das armas em questão. A Europa está a tornar-se num barril de pólvora, com a política de imigração descontrolada e com todas estas armas a circularem em grandes quantidades entre múltiplos países europeus. É do conhecimento das várias polícias europeias que centenas de infiltrados do Daesh se encontram já a viver na Europa, em células adormecidas e que a sua capacidade militar para lançarem ataques terroristas de larga escala aumenta exponencialmente, cada vez que conseguem adquirir explosivos e metralhadoras.

Portugal, pelos níveis de corrupção política por um lado, e pelo empobrecimento da classe média por outro, está a fomentar direta e indiretamente o aumento exponencial não só do tráfico de armas, como do tráfico de estupefacientes e branqueamento de dinheiro. De tal maneira entrámos na cena internacional por este tipo de crimes que até séries de televisão de sucesso como a recente galego-portuguesa Auga Seca retratam este “novo” mundo de forma bem realista. Com o desemprego e a corrupção a aumentarem, não se esperam portanto melhorias no mundo do comércio ilegal de armas. Está Portugal a tornar-se num paraíso mundial para o mundo do tráfico?

Texto de Pedro M. Duarte

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