É Inegável – O Estado de Israel Sempre Promoveu e Financiou o Hamas

“O Hamas, Para Meu Grande Pesar, é uma Obra de Israel”

A emergência do Hamas em 1987, durante a Primeira Intifada, teve origem na estrutura estabelecida pela Mujama al-Islamiya, um movimento social e religioso fundado por Sheikh Ahmed Yassin em 1973. Israel reconheceu oficialmente essa entidade como uma instituição de caridade em 1979, o que permitiu que a Mujama expandisse suas atividades- incluindo creches, clínicas, escolas e a Universidade Islâmica de Gaza- praticamente sem interferência direta de Tel Aviv. Esse apoio indireto, ou ao menos a tolerância consciente, acabou por fortalecer uma vertente islâmica que mais tarde se transformaria no Hamas, especialmente como contraponto à resistência secular do Fatah e da OLP.

A lógica estratégica israelita era clara: promover uma oposição interna que dividisse os palestinianos e enfraquecesse a coesão política dos movimentos nacionalistas. Como explicou o general Yitzhak Segev, militar da época, “o governo israelita me dava um orçamento, e o orçamento militar era destinado às mesquitas”, numa referência ao apoio ao Islã político para equilibrar o peso político das facções seculares. Outro ex-funcionário, Avner Cohen, confessou: “O Hamas, para meu grande pesar, é uma obra de Israel.” Este permissivo investimento social instituiu as bases para que a resistência islamista viesse a crescer com autonomia e posteriormente cercar o Fatah.

Os cofres de Doha: Qatar, Netanyahu e o Cheque em Branco

Em 2018, Benjamin Netanyahu enviou uma carta secreta a Doha pedindo a manutenção de transferências de 30 milhões de dólares mensais para Gaza, argumentando que isso “preservava a estabilidade regional e evitaria uma catástrofe humanitária”. Três anos depois, o Shin Bet revelaria que essas verbas acabavam, em parte, nas mãos da ala militar do Hamas, com estimativas de US$ 30 milhões por mês sendo desviados para fins armados. O próprio Netanyahu reconheceu que permitiu esses pagamentos como via “para dividir o Hamas da Autoridade Palestina”.

Antecedentes Ignorados: Avisos e Desatenção Estratégica

Existem também vários elementos que apontam para uma hipotese- no mínimo dos minimos, o Estado de Israel sabia antecipadamente que o ataque de 7 de Outubro iria acontecer, e existe até a possibilidade de o Hamas ter sido “enganado” e coagido a levar a cabo esse ataque de forma a beneficiar o objectivo principal – a limpeza étnica de Gaza, o genocídio da população Palestiniana e a construção de colonatos ilegais em território Palestiniano. Antes do ataque de 7 de outubro de 2023, Netanyahu foi alertado várias vezes:

A reação de Netanyahu? De acordo com as fontes, uma resposta quase fria: “Ouvi, mas continuamos o processo”. Em suma, geopoliticamente eficaz- mas letal em termos de segurança interna.

Ainda para mais, muitas das pessoas que morreram no ataque do dia 7 de Outubro de 2023 foram provocadas pelo próprio exército israelita, nomeadamente, mas não só, através da aplicação do Protocolo Hanibal, uma diretiva que ordena o exército de Israel de tentar dentro do possível matar imediatamente qualquer israelita que esteja a ser capturado por uma força inimiga de forma a minimizar a sua capacidade de usar prisioneiros como forma de chantagem e de extrair informação dos mesmos.

Alguns relatos de cidadãos israelitas até indicam que muitas das mortes durante o ataque de 7 de Outubro, sobretudo no festival de música que foi atacado, foram provocadas por um ataque de helicópteros israelitas, e existe um artigo em Hebraico no Haaretz que faz esta mesma acusação, sendo que obviamente a IDF e a polícia israelita vêm depois negar qualquer culpa, como sempre, porém, temos que ter em consideração que as fontes israelitas oficiais tendem a ser altamente dúbias, tendendo para a mentira descarada e compulsiva.

Al-Qaida em Gaza? Dividir para Reinar

Embora menos discutido que o papel do Qatar, há indícios de que Israel tolerou ou até facilitou o crescimento de grupos radicalizados em Gaza, como a Al-Qaeda, com o objetivo- mestre da tática de “dividir para governar”- de fragmentar a resistência palestiniana. Algumas declarações atribuídas a Netanyahu sugerem reconhecimento dessa estratégia, ainda que sem citação direta ou documentação clara- trata-se mais de leitura analítica do cenário político e das concessões pragmáticas que Israel fez em troca de estabilidade de curto prazo.

Conclusão: Gaza como campo de concentração e o domínio do poder militar

A conclusão é dura e inegável: Gaza é, de facto, um campo de concentração moderno: há anos que sofre de um cerco, de bloqueio geral pela parte do Estado de Israel, sob constante vigilância, e sobre o controle apertado das suas fronteiras. Dentro deste espaço asfixiado, Israel financia- mesmo que indiretamente- os atores mais violentos da resistência palestiniana, alavancando-os como instrumentos para atrair o conflito para onde Israel detém supremacia absoluta: o campo militar.

Em última instância, esta não é mais que uma estratégia de um Estado cínico, mentiroso, oportunista e sem qualquer sentido de humanismo ou honra: cultivar o inimigo interno para justificar a guerra, a militarização da sua própria sociedade e tentar justificar o injustificável- a punição coletiva dos Palestinianos, o roubo e a matança, e neste caso, o ignóbil genocídio em curso. Enquanto os olhos se voltam para as chamas em Gaza, o poder do Estado israelita permanece intacto, pronto para esmagar qualquer resistência- especialmente a mais desorganizada e desesperada, e assim continuará, até o inevitável colapso daquele que é certamente a entidade política mais aberrante e horrível à face do planeta- o Estado de Israel.

Referências Principais e Mais Fontes e Elementos Sobre Este Tema

  1. Carta secreta de Netanyahu ao Qatar (2018), solicitando o repasse de US$ 30 milhões mensais para GazaSegundo a reportagem da DAWN, Netanyahu enviou em 2018 uma carta ao governo do Qatar pedindo que continuasse a transferir US$ 30 milhões por mês para a Faixa de Gaza, justificando que isso preservaria “a estabilidade regional e evitaria uma crise humanitária” Dawn.
    • A Ynet / Jerusalem Post detalha que esse montante era dividido em três partes: US$ 10 milhões para combustível da usina de energia, US$ 10 milhões para salários de funcionários do governo, e US$ 10 milhões em adiantamentos a famílias necessitadas ynetglobal.
  2. Transferência de fundos do Qatar com aval israelita em direção ao HamasA Times of Israel revelou que o enviado qatari Mohammad al-Emadi coordenou pessoalmente a entrega de centenas de milhões de dólares ao Hamas — com aprovação de Israel — entre 2018 e 2021, visando “acalmar tensões” na região The Times of Israel.
  3. Avisos de que os fundos estavam sendo desviados para o braço militar do Hamas antes de 7 de outubro de 2023Em 2019, o chefe do Shin Bet, Nadav Argaman, alertou Netanyahu de que os recursos do Qatar estavam sendo desviados para o braço militar do Hamas. Em 2020, a Direção de Inteligência Militar de Israel reforçou esse alerta, indicando que cerca de US$ 4 milhões mensais eram desviados para fins militares The Times of Israel.
  4. Documentos oficiais mostrando apreciação israelita pelos fundos do QatarO Mossad expressou agradecimento ao emir do Qatar por meio de uma carta de 2020, destacando a importância da ajuda humanitária para estabilidade da Faixa de Gaza. Em 2021, outras correspondências reconheceram que o Comitê de Reconstrução do Qatar contribuiu com projetos de infraestrutura e apoio civil The Times of Israel.
  5. Admissão pública de Netanyahu sobre o financiamento indireto ao HamasO El País reportou que Netanyahu reconheceu publicamente que seu governo permitiu, desde 2018, que fundos do Qatar chegassem ao Hamas. Segundo essa investigação, cerca de US$ 30 milhões mensais eram destinados ao braço armado, com consentimento do governo israelita El País.
  6. Entrevista ao TIME (2024): análise e contestação das alegações sobre apoio estratégico ao HamasNa entrevista, Netanyahu negou ter apoiado o fortalecimento do Hamas para dividir os palestinianos, afirmando que tais alegações eram “ridículas”. Contudo, a análise do TIME registra contradições em relação às evidências históricas desse apoio indiretamente admitido Time.

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