O Ben Laden, o Benjamin, o McDonald’s, o Ibrahimovic, o O’Brien e a Johansson (Os Nomes Patronímicos)

Em cima, três coisas responsáveis por muitas mortes- Osama Ben Laden, Benjamin Netenyahu e a cadeia de “restaurantes” de “comida” Americana McDonald’s. Em baixo, três celebridades relativamente inofensivas.

O que têm o terrorista Osama Ben Laden, o criminoso de guerra e genocida Benjamin Netanyahu, a cadeia de “restaurantes” com “comida” Americana McDonald’s, o Zlatan Ibrahimović, o Conan O’Brien e a Scarlett Johansson em comum? Todos estes nomes são exemplos de nomes patronímicos, isto é, nomes que originalmente significavam ‘filho de’ ou ‘filha de’ alguém.

Os patronímicos são um dos sistemas de nomeação mais antigos e universais da história humana. Antes de existirem sobrenomes fixos, era comum identificar uma pessoa a partir do nome do pai. Em algumas culturas, também da mãe. Esse hábito deu origem a milhares de apelidos e sobrenomes que ainda hoje usamos, muitas vezes sem saber que carregam séculos de história linguística, cultural e até religiosa.

Neste artigo, exploramos como diferentes línguas e famílias linguísticas formaram os seus patronímicos, desde o Ben semítico até ao -son germânico, ao -ić eslavo, ao oğlu turcomano e muitos outros. O objetivo é mostrar como nomes aparentemente díspares, vindos de continentes e tradições opostas, partilham uma mesma raiz cultural: a necessidade de dizer de quem somos filhos. Vejamos então alguns dos exemplos de nomes que incluem prefixos e sufixo patronímicos.

  1. Línguas Semíticas

Hebraico

  • ben- = filho de
  • bat- = filha de

Exemplos:

  • Ben-David = filho de David
  • Ben-Ami = filho do meu povo
  • Bat-Sheva = filha do juramento

Árabe

Usa-se ibn/bin para “filho de” e bint para “filha de”.

Exemplos:

  • Ibn Khaldun = filho de Khaldun
  • Ibn Sina = filho de Sina
  • Bint Ali = filha de Ali

Sobrenomes árabes modernos frequentemente usam o sufixo -i, que indica origem, não paternidade.

  1. Línguas Indo-Europeias

Ramo Germânico

Inglês

  • -son = filho de

Exemplos:

  • Johnson = filho de John
  • Wilson = filho de Will
  • Harrison = filho de Harry

Escandinavo (sueco, norueguês, dinamarquês)

  • -son / -sen = filho
  • -dóttir / -dotter = filha (histórico; ainda ativo na Islândia)

Exemplos:

  • Andersson / Andersdóttir
  • Johansen
  • Olofsson

Islandês (sistema ainda ativo)

O patronímico muda conforme o pai ou a mãe:

  • -son = filho
  • -dóttir = filha

Exemplos:

  • Magnús Jónsson = Magnus, filho de Jón
  • Anna Jónsdóttir = Anna, filha de Jón

Holandês / Frísio

  • -s, -se, -sen

Exemplos:

  • Pieters = filho de Pieter
  • Jansen = filho de Jan
  1. Ramo Eslavo

Eslavo do Sul (bósnio, croata, sérvio)

  • -ić / -ović / -ević = descendente/filho de

Exemplos:

  • Ibrahimović = filho de Ibrahim
  • Petrović = filho de Petar
  • Marković = filho de Marko

Russo (patronímicos ainda em uso)

Os patronímicos são o nome do meio:

  • Masculino: -ovich / -evich = filho de
  • Feminino: -ovna / -evna = filha de

Exemplos:

  • Ivan Petrovich = filho de Petr
  • Anna Petrovna = filha de Petr

Polaco

Historicamente: -owicz / -ewicz

Exemplos:

  • Kowalewicz = filho de Kowal
  • Adamowicz = filho de Adam

Sistemas modernos incluem formas femininas:

  • Kowalski → Kowalska
  1. Ramo Céltico

Irlandês / Gaélico

  • Mac / Mc = filho
  • Ó = descendente (neto de)
  • Nic = filha de (em gaélico escocês)

Exemplos:

  • MacCarthy = filho de Carthy
  • MacDonald = filho de Donald
  • Ó Briain (O’Brien) = descendente de Brian

Formas femininas (gaélico escocês):

  • Nic Dhòmhnaill = filha de Donald
  • Ní Bhriain = filha de Brian (irlandês)

Ramo Itálico (Latim, Italiano)

O latim clássico não tinha sobrenomes fixos, mas:

  • -ius às vezes marcava descendência (ex.: Tullius → filho de Tullus)
  • Na tria nomina, o nome de família muitas vezes deriva de um ancestral antigo
    • Ex.: Gaius Julius Caesar → Julius = nome de gens (clã) derivado de Iulus

Sobrenomes italianos modernos:

  • Di / De = de, do → originariamente “filho de”

Exemplos:

  • Di Giovanni = filho de Giovanni
  • De Luca = filho de Luca

 

  1. Línguas Indo-Iranianas

Persa

Patronímicos presentes em sufixos como:

  • -zadeh = nascido de / filho de
  • -pur / -pour = filho de
  • -i = de (origem, não patronímico)

Exemplos:

  • Mohammadzadeh = filho de Muhammad
  • Gholampour = filho de Gholam

Hindi/ Sanskrit

Historicamente:

  • -putra = filho de
  • -putri = filha de

Exemplos (clássicos):

  • Rama-putra = filho de Rama
  • Sita-putri = filha de Sita

Máximo uso hoje ocorre apenas em nomenclatura tradicional ou religiosa.

  1. Línguas Uralicas

Finlandês

Historicamente havia:

  • -poika = filho
  • -tytär = filha

Mas raramente se tornaram sobrenomes. A maioria dos sobrenomes finlandeses é toponímica.

  1. Línguas Turcomanas (Turquicas)

Frequentemente usam:

  • oğlu / oğli / ulı = filho de
  • kızı / qizi / kız = filha de

Azeri

  • -oğlu = filho
  • -qızı = filha

Exemplos:

  • Aliyev originalmente significava “de Ali”
  • Ali oğlu = filho de Ali
  • Ali qızı = filha de Ali

Cazaque

  • uly = filho
  • kyzy = filha

 

  1. Línguas do Cáucaso

Armênio

  • -yan / -ian = filho/descendente de

Exemplos:

  • Petrosyan = filho de Petros
  • Abrahamian = filho de Abraham

Georgiano

  • -shvili = criança de
  • -dze = filho de

Exemplos:

  • Nakashidze = filho de Nakashi
  • Tsereteli = criança de Tseret

Ambos os gêneros usam o mesmo sufixo.

 

  1. Línguas do Leste Asiático

Chinês

Não há sufixos patronímicos; o sobrenome precede o nome, representando a família:

  • Zhang Wei = família Zhang → Wei

Formas patronímicas antigas como Zi existiram, mas desapareceram.

Japonês

Não há patronímicos.
Antigos nomes de clãs às vezes usavam:

  • Fujiwara-no X = X da casa Fujiwara

Mas isso não funciona como “filho de”.

 

  1. Línguas Africanas

Akan (Gana)

Nomes geralmente seguem o dia da semana do nascimento, não patronímicos.

Amárico (Etiópia, semítica africana)

Sistema patronímico ainda ativo:

  • O sobrenome é o nome do pai.
  • Não há sufixo; usa-se diretamente o nome do pai.
  • Homens e mulheres seguem a mesma estrutura.

Exemplos:

  • Haile Mariam Mengistu = Mengistu é o pai
  • Mulheres fazem o mesmo

Depois, temos claro as excepções, ou casos que parecem ser prefixos patronímicos, mas não são, como o “M’” de M’Bappe, que não indica “filho de Bappe”. O que significa o “M’ / Mb / Mba / Mbe / Mbi…” que são tão comuns? Depende do idioma específico, mas geralmente estes são prefixos de classe nominal no sistema gramatical bantu.

Em línguas bantas, substantivos têm prefixos que indicam classes/ categorias gramaticais (pessoas, animais, lugares, abstrações).
Por exemplo, em banto (ex.: lingala, kikongo):

  • Mo-/Mu-/M’ → prefixo para “pessoa”
  • Ba- → plural de pessoas
  • Ki- → língua / modo de ser
  • N-/Ng-/Nk- → variações fonológicas

Então, vejamos algumas excepções de prefixos que parecem ser patronímicos, mas não são:

  • M’Bappé → prefixo M’ + raiz Bappé
    (significa “a pessoa da família / tribo / linhagem Bappé”, não “filho de Bappé”)
  • M’Baye (Wolof)
    • “Mbaye” é um nome próprio tradicional, e M’ às vezes representa apenas elisão fonética, não um prefixo produtivo.

Muitas vezes portanto o “M’” é somente uma marca fonética, e não é indicadora de paternidade. Nas línguas bantas, muitas palavras não podem começar com determinada consoante sem um prefixo nasal (M/N). Assim, o “M’” muitas vezes é apenas um prefixo nasal, uma exigência fonética ou um marcador de classe nominal.

Excepções Notórias

Como acabamos de ver, talvez a grande exceção no que toca a famílias linguísticas sejam as línguas chinesas, que notoriamente não parecem ter nem vestígios nem qualquer tradição de patronímicos. O sistema onomástico chinês baseia-se quase exclusivamente em sobrenomes familiares muito antigos, herdados de clãs e linhagens, e não em nomes derivados do pai. O mesmo acontece com o vietnamita, cuja estrutura segue o modelo sino-cultural: um apelido fixo de família, um nome intermédio geracional e um nome pessoal, sem qualquer elemento que signifique ‘filho de’ ou ‘filha de’. Assim, tanto no chinês como no vietnamita, a identificação familiar não passa pela paternidade imediata, mas por linhagens estáveis estabelecidas há muitos séculos.

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