A Farsa das Moedas Virtuais


Virtuais

Uma inusitada – mas não inédita – cena de conflito numa padaria franchisada de Alvalade, que apesar do seu cunho modernista e hipster, tem de facto dos melhores produtos do bairro. Um individuo pedia livro de reclamações e gritava, o estabelecimento não aceita dinheiro como forma de pagamento e legalmente, segundo assegurava o irado cavalheiro, devia. Findo o bate boca, a funcionária – sem poder decisório nas políticas comerciais da loja – lamentou-se timidamente. E eu pedi e paguei as minhas bolachas de centeio, com cartão – se tiver mesmo de ser.

Na lavandaria do outro lado da rua, a regra é a oposta – as máquinas só funcionam com dinheiro físico. Para o meu amigo que precisa de se desfazer de um sem-número de tokens por cada vez que que precisa de realizar uma transacção, uma ida à Alvawash revela-se uma grande epopeia. Mas socialmente, os movimentos aparentemente antagónicos exigindo quer a materialização soberana do dinheiro, quer a instituição das crypto como o novo padrão-ouro, são na verdade muito semelhantes.

Moedas

Duas ruas por cima da padaria, em 2023, enquanto recolhia assinaturas para uma petição municipal, parei numa loja de croissants (O melhor croissant do bairro) onde trabalhava um jovem guineense, licenciado em história, que a par de me auxiliar na divulgação da petição, me deu uma aula sobre o rumo da África pós-colonial que merecia mais a minha presença do que os Croissants. Nas suas sábias palavras, em bom rigor as potenciais coloniais nunca descolonizaram. O comediante Jimmy Carr, numa brilhante entrevista ao podcast “The Diary of a CEO”, menciona-o:  “Inglaterra concedeu a independencia e remunerou as nações colonizadas pelos danos causados, mas disse-lhes ‘bem malta, agora vocês têm esse dinheiro todo que podem imprimir, porque não o investem nesta coisa que chamamos City of London”. Para o historiador, França fez o mesmo: “Podem ter governos, mas não imprimam moeda, nós fazemos isso por vocês” e assegurou que uma série de países (Benum, Burkina Faso, Costa do Marfim, Guiné Bissau, Mali, Niger, Senegal, Togo, Camarões, República Centro-Africana, Chade, Congo, Guiné Equatorial e Gabão) continuassem com um Franco CFA – das colónias francesas de África – dirigido por bancos franceses.

Felix Rex (Black Pigeon Speaks) dissertou imensamente sobre essa, de que a habilidade de produzir moeda, é um poder mais relevante do que a de a gastar. Depois da adesão ao Euro, Portugal perdeu-a. O governo Português pode gastar o seu dinheiro comigo, ou noutrém, mas o banco central (agora em Frankfurt) decide quanto é o meu poder de compra. Os estados, segundo Felix, alicerçaram-se em torno desse poder: Até ao século XIV o seu poder e papel era relativamente reduzido, mas foi-lhes concedida a singular valia de imprimir papel de dívida que se viria a converter na principal unidade monetária. As trocas deixaram de ser feitas com ouro e sim nesse papel equivalente. Cada nação cunhava e possuía o seu. Tornando-se no tutor da moeda por excelência, os estados fortificaram-se em competências e dimensão. Ao supramencionado papel feiote, baptizámos de “dinheiro”. É com um equivalente de dívida, estabelecido por uma unidade política, que pago a lavagem dos meus cueiros. Mas as bolachas de centeio, têm mais que se lhe diga.

Do Canadá (onde nasceu o Felix) e à Guiné (onde nasceu o historiador), a habilidade de se cunhar currency é uma fonte imensa de poder. Um salto no BCE e o dinheiro que eu tenho, muito ou pouco, deixa de chegar para a lavagem. Na era dos mercados cambiais, hoje felizmente muito menos flutuantes, surgiria a questão: “e não é o mercado que trata disso?”. Não. É maioritariamente assente em decisões políticas. Sejam as tais moedas dos estados africanos com sede em Paris (uma outra forma de colonialismo e privação de riqueza aos países francófonos Africanos segundo Georgia Meloni), seja a bitcoin. A história da economia venezuelana pode exemplificar o fenómeno em parte. Em Weimar, os políticos Socialistas recorreram à impressão de moeda, fixados em aumentar a remuneração dos Alemães. É um exercício de demagogia recorrente para os governantes, aludir aos aumentos salariais (sobretudo o salário mínimo) conseguido sob o seu mandato. Se quisermos ser exactos, o que uma política deve providenciar é o aumento de poder de compra do povo sob a qual recai. A nota que paga a lavandaria, pode converter-se em pouco mais do que papel higiénico pelo que, uma infinidade delas, não me tornariam mais rico. Excepto em papel higiénico1.

Os Portugueses sabem isso melhor do que ninguém, pois apesar dos inúmeros “aumentos” na última década, o seu poder aquisitivo diminuiu. A inflacção (apenas significativa no pós-covid) justifica parcialmente, mas existem inflacções especificas em itens essenciais como a habitação ou o azeite. Os valores dos recibos de vencimento cresceram em proporção com a distância entre o centro de Lisboa e a localização da casa que de facto conseguem obter. Um trabalhador dos serviços, sem formação superior, podia ter uma casa num dos bairros centrais da cidade; Os filhos, graduados e pós-graduados, resignam-se a Massamá.

Controlo

O primeiro mérito – assumo que merecido – atribuído a Oliveira Salazar, ainda nos anos 30, foi haver açaimado um escudo, caótico tanto na I república como na ditadura militar. As congéneres europeias autodestruíam-se na instabilidade política e as más decisões económicas tomadas a nível global – Portugal e o seu isolamento crónico de então, esquivaram-se a ambas. Disciplinando a moeda, disciplinou o país. O controlo pertencia-lhe ainda antes de estabelecer “O Estado Novo”, como ministro das finanças, pasta da tutela e do controlo político sobre o Banco de Portugal que acumulou com a presidência do conselho em 1932, 47 e 55 . Miguel Cadilhe, Victor Constâncio, ou Salgado Zenha foram alguns dos dirigentes que o fizeram em Democracia. São pessoas de carne e osso a quem podemos exigir explicações se desvalorizaren as nossas poupanças – ou dar um merecido murro na cara, caso derrapem a inflacção. Zenha trabalhou para o meu Pai. Cadilhe foi vítima de adultério pelo cinematógrafo amador Tomás Taveira. Foram os personagens de uma era.

Os últimos ministros das finanças com poder tutelar sobre a moeda

Com o advento do Euro, Portugal abdicou dessa incrível valia – decidir quantos pães vale 1 escudo. Mas apesar disso, mesmo não se encontrando nas mãos da política Portuguesa, a moeda usada em Portugal tem um controlo político – assente em Frankfurt, determinado pela comissão e pelos powers that be Europeus. Embora longe, continua a corporizar-se em Draghi ou Lagarde. Decide quantos pães vale 1 €. E ainda bem. A economia cambial é demasiado importante para depender do mercado. As várias crises financeiras a que assistimos (nos anos ’90, em 2008, em 2011 e dizem que teria havido uma em 2020 se não fosse o covid) são prova disso.

O controlo da bitcoin

A bitcoin também não é só tutelada pelos maluquinhos que andam nela, por quem compra e vende, por quem mimetizou a criação de uma moeda virtual e modela o seu valor através de transacções paralelas. Quem o faz? Não sei. O processo de mineração (produção de novas bitcoin), nos primórdios acessível a qualquer agente com o equipamento necessário, permite compreender a sua falta de fiabilidade. Reforço a expressão “maluquinhos” porque as últimas duas pessoas que me disseram que ganhavam muito com a bitcoin, pediram-me dinheiro emprestado nos dias seguintes. Recusando-me a emprestar a uma de ambas, no dia seguinte, a respectiva esposa no dia seguinte, tentava vender porcelanas da família nos Vizinhos de Alvalade.

O custo oculto do falhanço económico.

A impressão da moeda é corresponsável pela inflação. Todavia à pergunta: “pode a economia produtiva pode crescer infinitamente?”, respondo “Tem crescido”. Nem me oponho. Mas chegamosà dimensão económica do problema. Sou Socialista; Associo a produção ao trabalho e não ao capital nem à flutuação económica. A bitcoin e congéneres é um expoente máximo da economia de casino que na crise do fim dos anos 2000 deu razão aos Socialistas de todo o mundo, inclusive aos muitos que permitiram que a banca começasse a financiar a economia especulativa. Lembro-me do Ferro Rodrigues perorar contra a especulação (que originou a crise) e Soares recordar que os capitalistas estavam sempre a defender o fim do estado, mas quando os bancos faliram em catadupa, foram todos de mão estendida ao estado.

Claro que ninguém aprendeu nada e a economia especulativa regenerou-se para assentar em itens ainda mais virtuais, destoados da realidade, desapegados da economia e da produção, assente no trabalho. É o que é um token: Um item imaterial, avaliado exclusivamente em função da procura. Num equivalente político, esbatemos a diferença entre um candidato valoroso porque desenvolveu obra (pessoal ou pública) para um candidato que é apenas popular como Trump ou Oprah. Passei dias com amigos que trabalham nas crypto e recebem bastante acima da média, mas por mais sofisticação que pareçam ter as operações, do meu lado, só vejo um item alterando aleatoriamente o seu valor em função da acção da turba.

A economia que compreendo
A economia que compreendo

Porque conheço a economia real, dos 6 kgs de azeitona que se tornam num litro de azeite, às contas do rendimento de há dez anos, que precisa tanto de input de capital – os gajos que compram as máquinas –  como de trabalho (os operários dos lagares), também sei que o azeite tem especulação e até já ganhei dinheiro graças a essa especulação; mas no âmago do tema, continua a existir azeite. Nos mercados cambiais (a verdadeira expressão da bitcoin), não! Foram por isso responsáveis pretéritos por crises de hyperinflacção e deflacção. É a derradeira expressão da economia, que como ouvi de um amigo bloquista, se resume a um gigantesco esquema Ponzi.

Felizmente que os bancos centrais adquiriram capacidade para meter um travão às variações bruscas que são capazes de destruir economias inteiras.

Nessa dimensão económica, tenho de invocar a única noção económica alguma vez transmitida pelo economista mais famoso de Portugal que nem sequer estava a postular um princípio económico quando o invocou‎. Gresham. “A má moeda expulsa a boa moeda“. A bitcoin é, como disseste, uma má moeda de troca. Porque razão alguém a utilizaria? Mas se popularizar, pode expulsar a boa moeda, as currencies de cada país (seja o Euro, o Dolar, a Coroa Dinamarquesa, etc) que passam a ficar guardadas em vez de utilizadas nas trocas correntes.  Segue-se o caos: Gente a trocar uma por outra como se não houvesse amanhã, trucidando a estabilidade de preços. Aconteceu na Alemanha (com o Marco e o Rentenmarco) e na Venezuela (com o Bolívar e o Dolar Americano) mas o melhor exemplo é o da Inglaterra de Tudor: além das cabeças de duas companheiras, dois tipos de moedas foram feitos rodar pelo rei Henrique VIII. A tendência de acumular uma (chamemos-lhe boa moeda) impeliu o a tendência para fazer circular a outra (má moeda). As trocas entre ambas aceleraram a desvalorização de uma. Correu mal

A lei mais famosa da economia nacional não foi invocada por razões económicas

Agora imagina que todos os países passam a ter uma situação dests. É um dos meus problemas com o ESG (que planeiam transformar uma currency), sendo que o outro – e mais macabro – é sentir que as pessoas estão a ser bancadas para adoptar principios. Monstruoso, independentemente da virtude dos principios.

O trabalho ainda tem valor?

Os gajos da bitcoin são os yuppies dos anos ’90 que se acotovelavam na wallstreet/nas praças dos tigres asiáticos e que subitamente ficaram sem nada inclusive sem a solidez de uma profissão. O Pai de um amigo, sem nunca ter tido um emprego, jogou na bolsa e enriqueceu como corrector vindo a desistir justificando-o afirmando que os verdadeiros players estão munidos de algoritmos capazes de prever aquilo que a mente humana não consegue. O Pai de outro amigo do mesmo grupo imitou-o, mas no casino onde destruiu a propriedade da família que sofreu privações alimentares nos seus anos de maior investimento. Já o meu, que se entusiasmou com a bolsa (quando tinha idade para essas parvoíces), perdeu o suficiente para delas se deixar no 11 de Setembro – O cisne negro que definiu, ao invés do bug, o início do milénio.

Tal como os yuppies, os corretores da bitcoin são ambiciosos, apressados e desprezam o dinheiro provindo do salário que os devolve à condição trabalhadora. Nos países onde o trabalho paga pouco e é socialmente ainda menos valorizado, a tendência é compreensível. É de economias desestruturadas e selvagens, e não consolidadas e estáveis, que nascem as ansias de enfiar tudo na roleta, com a sofisticação do adolescente que se fecha profissionalmente no Estoril a torrar a mesada dos Pais, desesperado por “ser rico”. Cingem-se a uma actividade degradante, independentemente do seu putativo (embora improvável) sucesso.

Nos antípodas está um cirurgião maxilo-facial ex-comunista que me repetiu várias vezes ambicionar “fazer um bom trabalho”. O brio do artesão que Jorge Cruz confessa em Lúzia “Ele que saiba que eu trabalho noite e dia pelo roque popular”.

Os proto-anarquistas repudiavam o sector não-produtivo e não-laboral da economia. Mas muitos se aproximaram do anarco-capitalismo não só por quererem dinheiro (algo estimável), como compreenderem que o trabalho paga mal (cá) e começou a ver nisto esse semblante de liberdade, de autonomia face aos poderes fácticos, com um item que ninguém pode controlar, cujo valor não depende de nenhum banco central, que é universal, ignora fronteiras ou credos religiosos e opera naquele que devia ser o espaço por natureza de toda a gente da Esquerda que é a internet.

Só que essa deslocação acarreta alguns enganos. O primeiro é de que há melhor entidade para preservar o valor de um item do que o estado (não há) e de que o mercado pode ser o melhor regulador da economia e da sociedade (não pode). Paulo Bárcia termina “Movimento de Esquerda Socialista: Uma aventura improvável” com essa asserção. Somos mais livres sob a alçada de um governo democrático e para o qual podemos ser eleitos, que podemos condicionar com acção política, do que dos tipos que coordenam o valor da bitcoin quer porque a imprimem quer porque a têm em quantidade suficiente para poder estoirar o mercado.

Também não compreende realidades económicas, nomeadamente a que durante uma década, graças ao controlo do BCE et al, a inflacção foi vestigial. Faz com que a conversa de que “tens de investir para que o teu dinheiro não desvalorize” se resuma a pura ignorância. Mesmo perdendo 1 % ao ano devido à inflacção, os desgraçados que compraram papel comercial do BES “para não perder dinheiro” acabaram a limpar o rabo com ele. A especulação tem dessas coisas.

No Azeite aprendi também que a ditadura do mercado não é absoluta. Um dia um produtor pediu-me mais 40 % do que o mercado estipulava e não havia gráfico ou bolsa internacional que o pudesse disuadir. Como expliquei a um amigo leigo então, tu até podes ter namorado com todas as modelos do país, mas a decisão de se a próxima miúda fica contigo ou não, é exclusivamente da responsabilidade dela. Um colega na faculdade que queria “investir nas microcurrencies” (com o meu dinheiro, tenho de mencionar) descobriu subitamente que, “ao preço de mercado”, ninguém lhas comprava.

Uma forma de religião

A jogatana das crypto elevou-se a um patamar de triunfo e minimalização dos demais, como se as pessoas que de facto prestam serviços aos outros – polícias, bombeiros, enfermeiros, farmacêuticos, investigadores e este cirurgião brilhante de que falo – fossem uma cambada de inúteis. Passos e Costa foram alguns dos seus sacerdotes. E eu, cheio de ambições de um dia me tornar funcionário – desempenhar função – público, um dos seus infieis. Convencido de que a vida parece-me demasiado importante para ser jogada no mercado.

A tónica cultural do “investimento” transpõe-se para as valias individuais do próximo jogador. Ninguém se quer revoltar, ser visto como “instalado”, “temeroso”, “medricas”, que não tem coragem de ousar e arriscar; trouxe uma purga inquisitorial à poupança, como nem Mariana Mortágua a previu. A adesão a tais fenómenos torna-se num culto, a pressão de pares que senti na adolescência quando me ofereceram cigarros pela primeira vez. Não funcionou. Parece-me tudo coisa de gente burra. Algumas das pessoas mais imbecis que conheci na vida, encarreirou no bitcoin, com a retórica de salvação pessoal que também já pertenceu à Lyoness (mudada de designação tantas como P.Diddy encontrando-se igualmente acossada pela justiça por cometer equivalentes perfídias): Fui duas vezes às missas dos seus imãs fanatizados (por alguma razão estranha, imensa gente me quis arrastar para isso) e a mediocriadade da tentativa frustrada do João de Miraflores imitar Tony Robbins só tinha paralelo naquele orador motivacional revelado homicida/violador em série que surge na quinta temporada de Dexter. Tenho a certeza que o puto dos hoteis anda louco com a bitcoin, porque é apanágio daquela demografia. Dos gajos que me querem convencer a querer ter a vida deles quando a vida deles é uma merda.

Don’t be yourself! Be Authentic

O assunto tratado aqui e aqui, presente numa multiplicidade de esquemas homologos com que tive o desprazer de me cruzar,  é a aculturação de um problema complexo: uma geração descrente no elevador social por compreender ser-lhe incapaz aceder aos padrões de consumo dos progenitores e enveredar por vias alternativas, sinuosas e frequentemente criminosas. Sempre movidas a deslumbramento, recalcamento e inveja.

Vivemos numa simulação

As crypto simulam uma perversa forma de propriedade. A propriedade é, por definição Marxista, um meio de produção, aquilo do qual é possível extrair mais-valia. Quem “investe em crypto“, isto é, troca uma currency de valor volátil por outra, não adquiriu qualquer meio de produção como uma máquina industrial ou o stock de uma loja ou um imóvel que possa arrendar.

Aqui está a sua popularidade.

Perante uma geração proletarizada pelo congelamento dos salários e a inflação do imobiliário, as crypto são o paliativo ideal. O seu “proprietário” continua a viver exclusivamente do trabalho, a pagar renda e transporte, mas sem comprar nada porque se possui verdadeiro poder aquisitivo, sem o suficiente para dar entrada numa casa ou comprar um carro, cinge-se à bitcoin. O popular conjunto de dados, sendo apenas isso, transmite a sensação de que se tem alguma coisa. Que na verdade não se tem; existe como o fármaco que persuade o corpo de uma melhoria ou anestesia a agonia, mas nada cura. É o ouro dos tolos.

Outro fulano que conheci, Australiano, “enriqueceu a minerar bitcoin”; A produzir a quantia, em casa, como quem imprime dinheiro como se fosse o Artur Alves dos Reis. Além de respeitável faz todo o sentido ampliar uma moeda retalhável que qualquer imbecil pode produzir unipessoalmente enquanto se reza para que a sua inflacção não dispare. Tem tudo para correr bem.

Como muitos outros auto-afirmados milionários – este, podia mesmo afirmar “fazer o seu próprio dinheiro” – O fulano não enriquecera suficientemente, pelo que se dedicava em paralelo a traficar pastilhas de ecstasy através dos CTT. Foi apanhado e preso; Encontra-se cumprindo pena. A bitcoin não rendera.

Corolário

Ler “A luta de classes” de Karl Kautsky nunca esteve mais actual. Os comunistas não eram cobiçosos nem detestavam ricos; previram apenas um mundo onde o trabalho desvalorizasse ao ponto de que ninguém precisaria de trabalhar. Necessitando ocupar a mente e o espírito, os comunistas desdobraram-se em teorias sobre aquilo de que ocuparia a classe trabalhadora num mundo onde a automação e o engenho dispensaria qualquer mão-de-obra. Essa maquinaria seria nacionalizada e a sua infinita produção distribuída pelas pessoas doravante livres e ociosos autores de música, literatura, cultura ou ciência.

Uma simples frase de André Abrantes Amaral põe toda a teoria comunista em cheque: “O mundo estã mais complexo e por isso precisa de mais gente que nele trabalhe” 2. O emprego não acabou no fim do século XIX e se há 10 anos falassem em moderadores profissionais de redes sociais, a forma como a teleperformance remunera melhor os seus quadros do que os laboratórios de investigação da Universidade de Lisboa revela como nem as últimas transições tecnológicas extirparam a economia do elemento humano. Adaptar suas necessidades e legitimas ambições ao contributo que pode entregar à humanidade é o desafio que nos cabe; Assegurando que, como escutei do agora ex-chancelor Scholtz, “Por muito fortes que soprem os ventos da mudança, não deixaremos ninguém para trás”.

 

1 – Há narrativas de Weimar que contam sobre como o marco foi mesmo usado para limpar rab0s
2 – Inexacto; Se encontrar o original, corrijo

Partilhar Artigo

Facebook
Twitter
LinkedIn

Uma resposta

Deixe o Seu Comentário!

Discover more from Casa das Aranhas

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading