Nota Editorial: Este artigo é meramente analítico e não pretende prestar conselhos sobre investimento financeiro
A liquidação de 10 de outubro deu um enorme impulso aos puristas e maximalistas de Bitcoin
A maioria das pessoas que possui cripto moedas concorda: o colapso massivo de 10 de outubro de 2025 foi uma lição monumental sobre por que as “Altcoins” são uma desgraça e por que só se deve confiar na Bitcoin (ou seja, ser maximalista de Bitcoin), e mesmo isso é discutível.
O que aconteceu foi uma enorme manipulação e uma série de rug pulls em moedas importantes. Muita gente perdeu tudo.
Nesse dia cataclísmico para muitas ditas “Altcoins”, ou seja, moedas virtuais para além da Bitcoin, o mercado cripto sofreu um cataclismo financeiro: foram liquidadas posições alavancadas num valor estimado entre 16 e 19 mil milhões de dólares. A queda foi disparada por um choque macro: o anúncio inesperado de tarifas de 100 % sobre produtos importados da China (por Donald Trump) desencadeou uma fuga em pânico no setor cripto. As ditas “Altcoins” foram aquelas cuja valorização foi mais violenta. Ethereum, Solana, XRP, e muitos outros viram o seu valor cair na ordem dos 15 % a 30 % em poucas horas. Em casos extremos, moedas como a Cosmos (ATOM) chegaram a sofrer um flash crash tão brutal que, por momentos, foram cotadas em USD 0,001 (sim, milésimo de dólar) nalgumas plataformas de troca de moedas virtuais, antes de se recuperarem para valores mais altos, mas mesmo assim mais baixos do que nos dias anteriores ao cataclisma.
Mesmo com toda essa carnificina, a Bitcoin não foi tão destroçada quanto as “Altcoins”. Ela, apesar de não ter escapado ilesa, caiu “apenas” cerca de 10 % a 14 % de seus picos no dia, caindo de patamares acima de USD 122.000 para mínimas entre USD 104.000 e 101.000 em algumas plataformas de moedas virtuais. Depois desse mergulho brutal, a Bitcoin já recuperou boa parte do terreno perdido, reaproximando-se rapidamente dos níveis pré-choque, especialmente porque muitas “Altcoins” sofreram danos estruturais que retardaram sua retomada plena.
Esses contrastes, as “Altcoins” a sofrerem grandes descidas e algumas até a serem quase aniquiladas, e a Bitcoin resistindo comparativamente muito melhor, e tendo recuperado muito mais rapidamente, oferecem munições fortes à narrativa maximalista: mostram que, num colapso de mercado extremo, a moeda mais consolidada ofereceu uma “base de resistência” muito mais sólida, ao passo que ativos menores mostram fragilidade estrutural em liquidez, coordenação e resiliência a ataques e manipulações de mercado.
Mas porque é que as “Altcoins” são tão instáveis? Porque as suas arquiteturas dependem de pré-alocação de moedas, o que centraliza a detenção de altas percentagens dessas moedas em poucas mãos, fazendo com que a manipulação do valor das mesmas seja mais fácil e mais frequente e fácil de executar, e portanto mais prováveis. Muitas são pura e simplesmente esquemas fraudulentos, cheias de promessas vazias alimentadas por jargão incompreensível. A verdade é que a maioria dos projetos de cripto moedas não serve para absolutamente nada. Há, então, realmente uma grande verdade por detrás das considerações já apresentadas num outro artigo da Casa das Aranhas que crítica “A Farsa das Moedas Virtuais”.

A Bitcoin, por outro lado, é de facto algo extraordinário, e penso que cada mais pessoas vão começar a perceber isso. O resultado parece inevitável, e será uma descredibilização crescente das “Altcoins” e eventualmente, a médio prazo, uma maior enfase no verdadeiro valor da Bitcoin sobretudo entre aficionados das moedas virtuais. Isto poderá provocar:
- Um fluxo de capital para dentro da Bitcoin.
- A transferência de fundos das Altcoins para a Bitcoin.
- Uma legitimação da própria Bitcoin, porque muito da sua má reputação vem por associação com essas “Altcoins”, as moedas inúteis que tentam surfar a crista da onda da Bitcoin e o seu conceito e arquitetura.
E o curioso é que a Bitcoin parece resistir de forma quase imperturbável. Uma das razões por detrás da estabilidade crescente da Bitcoin é que a sua arquitetura, baseada no seu código de base, é praticamente imutável e, em grande escala, parece ser relativamente imune a manipulações vindas de um único grupo ou até de um consórcio potencialmente malicioso. Manipular o seu preço global exigiria um nível de coordenação que é hoje, e cada vez mais, quase impossível, precisamente por causa da adoção massiva e da sua natureza relativamente descentralizada, baseada na rede de computadores que alimentam a sua verificação, validam as suas transações e mantêm o seu código de base. Todo o contrário, portanto, de 99% das “Altcoins”, que usam o termo “descentralizado” como ferramenta de marketing, mas que de facto são inevitavelmente controladas por uma mão cheia de pessoas, ou até nalguns casos uma pessoa singular.
Basicamente, os Pontos Principais dos Maximalistas de Bitcoin Estão Lentamente a Ser Confirmados
Depois deste cataclisma do mercado das moedas virtuais, e com a adoção que parece não abrandar, a taxa de retorno assim como a instabilidade histórica da Bitcoin provavelmente vai desacelerar a médio longo prazo, mas ainda assim deverá ser relativamente impressionante. Afinal, cada vez mais pessoas, sejam eles investidores de varejo, empresas e até bancos, vão certamente tender para migrar para a Bitcoin, não só pela sua estabilidade, mas porque as moedas Fiat continuarão a inflar e a perder valor, em detrimento certamente das “Altcoins” e provavelmente cada vez mais também de outros investimentos ou até das próprias moedas Fiat, que tende para a desvalorização inflacionária.
E é precisamente contra essa desvalorização estrutural que a Bitcoin se posiciona, segundo o seu manifesto inicial, a sua arquitetura e a sua intenção original.
Assim, a Bitcoin pode até vir a tornar-se a escolha preferida para contas de poupança de longo prazo. Há quem diga que até vai desviar parte do dinheiro que hoje é canalizado para o setor imobiliário, e esse mercado, recorde-se, é gigantesco.
O que é então o “maximalismo de Bitcoin” e quais são as suas teses principais?
Primeiro ponto: as moedas Fiat nacionais são inflacionárias por natureza. Já a Bitcoin é deflacionária por desenho. Daí a célebre frase entre os maximalistas: “Bitcoin has no top because Fiat has no bottom”, ou seja, “O valor da Bictoin não tem tecto porque a desvalorização das moedas Fiat também parece não ter limite aparente”.
O manifesto original da Bitcoin é, em si mesmo, uma crítica ao sistema monetário fiat. Pretende introduzir um modelo alternativo que funcione simultaneamente como contraponto e rival das moedas tradicionais, expondo e tentando corrigir as suas falhas estruturais, entre elas, a inflação programada, o controlo centralizado e a manipulação política do valor do dinheiro. Existem, claro, ainda, imensos riscos associados à utilização e investimento na Bitcoin. Desde o potencial para a sua base criptográfica ser posta em causa com a emergência de computadores quânticos, até rumores que no seu centro poderá estar um código desenvolvido e detido pela tenebrosa agência de espionagem do Estado Federal Americano, a NSA, e claro, os muitos casos de roubo, fraude e colapso de plataformas de troca de moedas, o futuro da Bitcoin como moeda credível parece por enquanto ainda estar involuto de algumas dúvidas, porém, a sua história até agora tem sido uma de, a médio longo prazo, resiliência e aumento impressionante de valor quando comparado com as moedas Fiat.







