O Moralismo Conservador de Variações e a Ilusória Leveza de Conan Osiris

Este texto é, obviamente, uma provocação filosófica a vários níveis, sobretudo no que toca à obra de António Variações, e foi escrito por alguém que adora a sua música e obra

Conan Osiris

Conan Osiris conseguiu dar recentemente um novo folego a uma técnica brilhante- a de esconder uma mensagem profunda por detrás de sátira, ironia e dadaísmo. O segredo por detrás do sucesso do Conan Osiris é que mesmo quando faz piadas, consegue ser e parecer mais genuíno do que a grande maioria.

Mas talvez mais ainda, o seu vasto apelo depende da sua capacidade impar de transmitir mensagens sérias sem que possa ser acusado de se achar superior aos outros, precisamente porque o faz sem se levar demasiado a sério- por detrás do sucesso de Conan Osiris está a sua capacidade de comunicar, e personificar, o paradoxal.

Conan Osiris tem sido comparado, e com razão, a António Variações. Variações também ele era um artista que pode ser considerado como a personificação mesma do paradoxal- porém, no centro do paradoxo que é a obra de Variações, ao contrário de Conan Osiris, encontramos uma vertente claramente moralista, para não dizer algo conservadora, as quais são ubíquas nas suas líricas, e como que por coincidência, ou não, estão presentes sobretudo nas suas canções mais conhecidas e apreciadas. E isto não é necessariamente mau, pelo contrário- a capacidade de unir aparentes opostos de uma forma funcional e credível é uma componente essencial da incontestável originalidade do artista do distrito de Braga.

A análise mais comum da obra de Variações defende que ele quebrou barreiras culturais e que era contracorrente, e sobretudo, que era um paladino da luta contra o tradicionalismo, conservadorismo e moralismo Português– gostaria de contestar esta visão, ou pelo menos, de lhe adicionar uma nuance que me parece importante.

Variações foi, de certa forma, o oposto exato do que a maioria acredita que ele foi. Não foi simplesmente mais um artista avant-garde que chocou sensibilidades e feriu sentimentos, ou melhor, até pode ter sido, na altura, mas em retrospectiva, a obra de Variações pode ser interpretada como sendo um grito desesperado de um tradicionalismo Português, com claras tendências Católicas, em vias de extinção e sob ataque de todos os lados.

Proponho que Variações só conseguiu ganhar tração popular e notoriedade num Portugal pós-25 de Abril precisamente porque a sua música é do mais profundo moralismo, e portanto, a sua estética inovadora só não alienou o público porque estava aliada a algo familiar, muito familiar- uniu o novo ao que já conhecíamos, gerando em nós fascínio e admiração. O moralismo de Variações está relativamente camuflado, ou melhor, revestido por uma estética que fazia com que a sua obra parecesse representar todo o oposto da moral Cristã, nomeadamente, por ter sido um homossexual assumido, com um visual hiper-sexualizado e exuberante. Esta estética permitiu-lhe não somente ser aceite pela juventude da altura, como o permite continuar a ser uma referência até aos dias de hoje, precisamente por ter conseguido simultaneamente juntar um visual e estilo irreverente, mas o qual está aliado a uma série de mensagens que comunicam o tipo de lições de vida que estamos acostumados a ouvir dos nossos pais e família, ou até de um qualquer padre, imam ou rabino.

Variações

Um visual irreverente, provocador, criativo e altamente pessoal, como só Variações era capaz de trazer à vida. Variações também exercia a profissão de cabeleireiro.

Visto desta forma, o visual e a orientação sexual de Variações não passam de confetti à volta da verdadeira espinha dorsal do seu trabalho, que é a de tentar ser o porta-voz da sabedoria, senso comum e da moral popular em tempos de rescaldo revolucionário. Variações ensina-nos a não deixar coisas para amanhã, a respeitar os nomes ditos “tradicionais”, lembra-nos que nunca nos devemos esquecer de amar a nossa mãe, a não sermos gulosos, gananciosos, etc. Em tempos em que imperava a dúvida e a transformação, Variações era tudo menos revolucionário ou imprevisível, muito pelo contrário; as suas letras eram e são a saudosa voz das lições de vida que talvez até já sabemos, mas que mesmo assim não nos importamos que nos sejam lembradas por uma voz amiga e que sabemos que só quer o nosso bem.

Temos por exemplo “É p’ra Amanhã”, uma critica à procrastinação, uma transposição musical do verso dos Livro dos Provérbios (13:4), “O preguiçoso deseja e nada consegue, mas os desejos do diligente são amplamente satisfeitos”… A frase “Ai tu bem sabes que o trabalho foge, Mesmo de quem diz que quer trabalhar”, tanto poderia ser dito por um conservador de direita como uma critica da alegada razão pela pobreza dos pobres, como ao mesmo tempo invoca o verso Bíblico “O preguiçoso não lavrará por causa do inverno, pelo que mendigará na sega, mas nada receberá” (Provérbios, 20:4). Aliás, o Livro dos Provérbios está repleto de críticas aos “preguiçosos” que dizem que vão fazer isto e aquilo no dia seguinte, mas nunca o fazem verdadeiramente, e até de avisos que o amanhã poderá não vir sequer (ver Provérbios 15:19, 22:13, 26:13-15, 27:1, etc.)

Temos também um ode à sua mãe, “Deolinda de Jesus”, sendo que a glorificação do papel da mulher como mãe é um pilar de todo e qualquer sistema ideológico conservador que se preze.

Temos também uma chamada à redenção e à transformação pessoal, “Muda de Vida”, que nos lembra, como nos lembra aliás qualquer religião Abraâmica, que por muitos pecados e erros que possamos ter cometido, que o caminho da salvação está sempre aberto a quem o queira percorrer, ou como diz a Bíblia, Salmos 130:7, “Espere Israel no Senhor, porque no Senhor há misericórdia, e nele há abundante redenção”, talvez porque por muito que possamos errar, há sempre retorno, porque “O Senhor não demora em cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Pelo contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2 Pedro 3:9).

Já a canção “Maria Albertina” é mesmo só uma demonstração de um puro conservadorismo, se bem que num tom algo relutante e bastante cómico, no qual defende os nomes tradicionais Portugueses em detrimento dos novos nomes degenerados, como Vanessa, usando avaliações altamente arbitrárias sobre o suposto “encanto” dos nomes tradicionais “cá da terra”. A cereja em topo do bolo? A Vanessa não só tem um nome indigno, como provavelmente andou a comer demasiado porque é “cheinha”, ou seja, na opinião de Variações a Vanessa é demasiado gorda, tão gorda que Variações sente a necessidade de apontar a sua alegada obesidade não menos do que três vezes no final da canção. A Vanessa, andou, provavelmente, a abusar dos prazeres mundanos, certamente culpa da sua gula, um dos sete pecados mortais.

Mas quem é que paga afinal pelo apetite voraz da Vanessa? Esta pergunta leva-nos à canção que sem dúvida acaba por ser uma das que mais cabalmente consegue captar e transpor a essência da moral Cristã numa só música, talvez até especificamente Católica, mas que encontramos também no Islão, no Judaísmo, e basicamente em toda e qualquer religião digna desse nome – um dos incontornáveis clássicos da música Portuguesa, “O Corpo é que Paga”.

No seu irónico mas absolutamente sincero e sentido aviso sobre os perigos dos excessos mundanos, “O Corpo é que Paga”, tem na sua letra uma mais eloquente ilustração artística da essência da moral Cristã do que a maioria das canções alguma vez ouvidas numa igreja, ou em qualquer lado. É talvez um dos melhores resumos de sempre de uma das lições centrais do Cristianismo a qual é de imenso valor teológico tanto para leigos como que para teólogos e crentes. Para além da temática iminentemente Católica do castigo do corpo, é uma exposição da natureza autodestrutiva da incapacidade de controlarmos os nossos desejos assim como dos perigos iminentes e óbvios que traz para o corpo. Ou como nos diz a Bíblia, “Foge também das paixões da juventude; e segue a justiça, a fé, o amor, e a paz com os que, com um coração puro, invocam o Senhor” (2 Timóteo 2:22), ou talvez como simples aviso contra a ganância excessiva pelos prazeres da terra: “Sejam vossos costumes sem avareza, contentando-vos com o que tendes…” (Hebreus 13:5).

Como diz Zizek, nós precisamos de novos clichés, e António Variações assim como agora, Conan Osiris, conseguem como ninguém gerar novos clichés, novos memes, ou simplesmente trazer para a ribalta as expressões e sabedoria popular que já todos usamos no dia a dia, mas de uma forma fresca e original. E isso já é uma contribuição enorme. É uma contribuição muito séria, para além de ser rica em paradoxos, conceito o qual Conan Osiris demonstra dominar perfeitamente na sua palestra TEDx, o qual acaba por ser um tratado sobre a importância dos paradoxos em todas as esferas da vida, e foi, como que por coincidência, dada na cidade berço de Variações, Braga. A sua invocativa e sombria canção Coruja é talvez das canções que não somente são paradoxais, mas que serve também como uma lição de mestre do que é sequer um paradoxo, e como as nossas vidas são regidas por eles.

Já Variações, com o seu visual irreverente e mensagens moralistas, é efetivamente o predecessor de Conan, mas consegue possivelmente ser mais enigmático ainda, na medida que o paradoxo profundo da sua obra e pessoa ter escapado, até agora, à maioria, senão a todos os comentadores e inúmeros admiradores da sua obra.

João Silva Jordão

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