Crise no sexo, boom na moda: efeitos colaterais da Pandemia 2020

Enquanto passeava higienicamente esta semana vi uma cena quotidiana que me deixou a pensar sobre os efeitos a médio e longo-prazo desta pandemia. Um casal de namorados a conversarem à distância regulamentar de 2 metros. Ela dentro do átrio do prédio, ele do lado de fora encostado à parede, ambos de máscara, a conversarem, lúgubres. Aquela cena tinha morbilidade, porque a paixão do namoro implica quase sempre quebrar regras pré-estabelecidas, libertar loucuras e ímpetos sexuais reprimidos, lançar-se no abismo dos riscos, contrariar a sociedade, os progenitores, as leis, ser selvagem e rebelde. Faz parte da juventude, ou pelo menos fazia.

Mas onde vai parar a paixão agora? Vai ser regulamentada? Proibida? Reduzida?

Quando visitei Berlim no Outono de 2006, os alemães tinham regras estritas de comportamento social. Na altura, em Portugal, pouco se fez, a não ser aconselhar o uso de gel-álcool ao tocar em objetos públicos nos transportes ou em edifícios. Não havia máscaras nem luvas. E por isso, eu, afastado desta realidade, achava estranho ver os berlinenses, namorados, entrarem nos transportes sem se tocarem ou beijarem, apenas se olhando nos olhos e conversando. Achei, na minha ingenuidade, que eram pessoas frias, que jamais os jovens portugueses seriam assim em público. Estava enganado. Eles apenas cumpriam regras. Só agora, em confinamento, numa retrospetiva saudosista das minhas viagens recentes, me lembro de pormenores como este e os relaciono com a nova vivência social pandémica.

Achei curiosa a notícia lançada pela CNN no decorrer desta semana, sobre a preocupação dos profissionais do sexo no Japão, que enfrentam uma crise económica sem precedentes. No famoso bairro de Kabukichó, zona especializada em entretenimento e sexo, também conhecido como o Quarteirão Vermelho, é lugar de muitos host e hostess clubs, love hotels, sex shops, restaurantes e casas noturnas animadas por geishas, menos tradicionais. Designada mundialmente como “a Cidade que não dorme”, contraria a conhecida segurança urbana japonesa. É o único local do Japão, onde algumas ocorrências criminais são frequentes, causadas na maioria por turistas internacionais embriagados com o álcool e com a oferta de sexo. Quando estive neste bairro em 2018, fiquei surpreendido por ver a super-iluminação de néons, as montras convidativas, as tradicionais geishas que contrastam com as acompanhantes mais modernas, estas nos seus vestidos de peça única, zip traseiro de alto a baixo e pochette de marca, desfilando em catwalk style. Os mais jovens ou são clientela nacional ou gigolos à porta dos estabelecimentos. Contrastam com os poucos ocidentais que por ali circulam, alguns deles turistas, outros clientes europeus e americanos de meia-idade. É forte a presença de afro-americanos embriagados, que espalham algum mal-estar e insegurança na zona e que fazem adivinhar a sua proveniência das bases militares americanas localizadas neste país.

Apesar da prostituição ser proibida no Japão, como na maioria dos países do mundo, a CNN entrevistou uma profissional do sexo, Mika, que descreveu como sente medo de visitar os seus clientes nas suas casas, três ou quatro por dia, na sua maioria homens de meia-idade e, portanto, com grande risco para ambas as partes contrairem o vírus. O Governo Japonês, sensível a esta questão social, identificou milhares de profissionais do sexo, aos quais pretende ajudar com um subsídio, até ao final da crise pandémica, para evitar a sua fácil propagação, que agora se junta a outras DST’s. Estes 300.000 profissionais elegíveis para este apoio, reclamam, no entanto, que 1.000 dólares não cobrirão as suas despesas mensais, não sendo suficientemente atrativo para os retirar das ruas. A realidade supera a regra do distanciamento neste mundo tão particular, e o dinheiro destas e destes profissionais alimenta, por vezes, uma família inteira. Algumas associações de entreajuda japonesas propõem-se colaborar no processo de motivação à mudança de atividade destes profissionais, utilizando o incentivo do Estado como forma de garantir a transição para uma profissão legal, mais dignificante e menos perigosa para os próprios, para as suas famílias e filhos e para os seus clientes. Mas a pandemia veio aumentar o desemprego e a oferta de trabalho é quase nula. E nesta “área de negócio”, no Japão, o video-sexo é uma atividade pouco lucrativa e sobrelotada. Por isso, teletrabalho não é opção.

Enquanto uns se arriscam no sexo em plena pandemia por necessidade, outros fazem-no simplesmente para colecionar likes ou notoriedade nas redes sociais, como foi o caso muito criticado em Santa Maria da Feira a 12 de Março deste ano, quando o Esplanada&Bar resolveu organizar um ajuntamento a que chamou “Corona Party” desafiando os seus clientes a enfrentarem o risco de contágio. Nas redes sociais, muitos influencers e KOL’s ou até usuários comuns estão a usar as máscaras, luvas e todo o tipo de gadgets associados à pandemia para postar imagens ou vídeos provocativos, ou simplesmente sexy’s. Alimentando os seus fãs e seguidores com polémicas e provocações, os protagonistas arriscam as suas próprias vidas, aglomerando-se em grupos para selfies, encenando poses e vestidos a rigor para o erotismo ou sexo em plena quarentena.

Como sempre, os influencers tentam inovar nas suas cobiçadas imagens que lançam estilos mais fashion de fotografar ou filmar, mas as críticas têm sido acutilantes, sobretudo nos casos mais insensíveis ou que contrariam as regras da quarentena e dos Estados de Emergência. Fotografias de grupo, acessórios de protecção em pele, em poses kinky, máscaras como prolongamento das peças de roupa interior ou exibindo logos de marcas de moda, o chic da pandemia. As vozes críticas demonstram repugna pela angariação de fundos de algumas destas personagens do mundo VIP virtual, lucrando à custa da pandemia mais mortal das últimas décadas. Muitos hate speecher’s referem os milhões de pessoas que estão a morrer em todo o mundo, mas os influencers não se demovem. O backlash alastra na mesma proporção dos seguidores.

A esta tendência também se estão a indexar estilistas ou marcas de vestuário. Brevemente, quando forem permitidos desfiles de moda, mediante novas regras, claro, muitos criadores estilizarão os seus manequins com acessórios alusivos à pandemia e à nova forma higiénica de viver em comunidade. O que acontece na sociedade é sempre motivo inspirador na arte e expressa-se, na grande maioria dos casos, pela provocação estética dos valores instituídos. Em fevereiro de 2019, a coleção Victoria’s Secret incorporou premonitoriamente uma máscara de apneia numa das suas linhas da primavera-verão (imagem inferior, à esquerda). Outros modelos, atualmente em confinamento em suas casas, têm publicado também fotografias nos seus perfis pessoais alusivos aos acessórios da pandemia, para sensibilizar, mas principalmente para sensacionalizar, aproveitando para provocar e com isso, lucrarem com mais seguidores e publicidade. Todos estão nisto, obrigados pelo confinamento, mas também pela inevitabilidade das regras de proteção pessoal.

Também fotógrafos de moda ou fotógrafos profissionais têm aproveitado a inspiração dos novos acessórios em imagens sexy, algumas de rara beleza e erotismo, que poderão influenciar os próximos anos ou décadas, já que as questões respiratórias e suas doenças associadas têm sido cada vez mais frequentes à medida que os níveis de poluição atmosférica e a população aumentam. Por razões de procura de mercado, também as marcas de vestuário e casas de haute couture terão disponíveis nos seus sites de venda e lojas , muito brevemente, múltiplos acessórios temáticos à pandemia, luvas e máscaras de estilo, que tornarão mais elegantes os seus fiéis clientes. Publicitários, cabeleireiros e maquilhadores terão de repensar igualmente nos pormenores necessários para simplificar e tornar viáveis estes novos acessórios, que moldarão a vida de biliões de pessoas em todo o planeta. É uma oportunidade de negócio à qual não podem fugir. Os burocratas de fato e gravata e as mulheres de negócios não poderão imiscuir os seus trajes milionários com uma máscara higiénica de 1 dólar, ou usar luvas de silicone em eventos da alta elite social.

Pessoalmente estou curioso por começar a ver o resultado de toda esta estética na sociedade. Não creio que a vacina vá surgir tão depressa. Não porque seja profeta da desgraça. Muito pelo contrário. Acredito que, de todas as crises ao longo da história, a humanidade tem saído vitoriosa pela positiva e que nós, humanos, já passámos por sofrimentos inquantificáveis e inqualificáveis, mas que nos permitiram chegar mais longe enquanto espécie e enquanto seres gregários. Em 2020 lançámos o patamar para iniciarmos a exploração espacial em larga escala. Elon Musk, Richard Branson e Jeff Bezos competem pela construção de frotas de naves que iniciarão um novo capítulo dos humanos pelo universo. O ano começou com uma explosão de posts e notícias sobre o transumanismo, IA e robótica nas redes sociais. Toda uma nova era que urge e desafia à mudança, já não há dúvida. Mas tudo isso veio no seguimento das notícias apocalípticas de 2019 de incêndios planetários, poluição oceânica no limite, qualidade do ar nos limites do saudável, desflorestação de florestas virgens. Este é o ano da viragem. O ano zero, para o pior e para o melhor.

Inquieta-me que a maioria das pessoas ainda não tenham percebido a real perigosidade e facilidade no contágio da doença. Claro que temos de criar anti-corpos naturalmente. Que isso será a melhor maneira de superar esta crise micro-biológica, pelo menos enquanto não existir uma vacina eficaz. Mas não nos podemos esquecer que o vírus da SIDA levou 40 anos a matar sem solução e que a medicação que foi sendo usada durante anos, permitia apenas estancar a doença, mas cujos efeitos colaterais noutros órgãos, provocavam na mesma, a morte de muitos pacientes a médio-prazo. Este vírus contagia-se mais facilmente que o vírus da SIDA. Basta estar próximo, tocar ou conviver com alguém para poder ser contagiado por fómites. Se pensarmos que numa relação sexual de apenas alguns minutos se poderiam identificar pelo menos 3 ou 4 dezenas de maneiras de ser contagiado, digamos que só por milagre, dois amantes não se contagiarão durante o ato.

Uma coisa é certa, seguindo a tendência para a quarentena obrigatória para os profissionais do sexo, também as atividades mais amadoras como o Dating Sex, poderão cair em desuso ou até ser banidas por lei. Isso ou arriscamos a que o crescimento populacional mundial seja negativo nos próximos anos ou décadas. Se esse for o caso, creio que a vida selvagem agradece. Mas o sexo pode perder o humanismo e o amor.

Texto de Pedro M. Duarte

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