O Último Cavaleiro do Apocalipse: a Fome

A visão profética do Apóstolo João, encerra o livro bíblico da Revelação num Apocalipse dantesco. Quatro cavaleiros espalham a Peste, a Guerra, a Fome e a Morte. A Peste, a Guerra e a Morte já tinham chegado. E com o confinamento obrigatório, as falências e desemprego em alta, chega agora a Fome a todas as sociedades do mundo e já não é exclusiva apenas dos países mais pobres. Na excelente reportagem de José Miguel Gaspar O vírus da fome já está entre nós, o jornalista expõe alguns casos de pobreza extrema que nos fazem recuar décadas, ao tempo em que os pobres se escondiam do Estado, com medo de serem espancados ou presos. Porque ser pobre era manchar a falsa imagem imaculada de perfeição social do Estado Novo. Mas a história é cíclica e Portugal revela as suas fragilidades em tempos de crise. Sempre que a economia abana, pouco ou muito, aí vamos nós pela falésia abaixo. O jornalista descreve como vivem algumas pessoas sem eletricidade, água canalizada ou casa de banho. Apenas quatro paredes finas que deixam entrar o frio e um tecto permeável a infiltrações da chuva, pagando 145€ de renda mesmo nestas condições, sem direito a recibo. Com um rendimento social de inserção de 189,66€ o dinheiro mal chega para comer, pois mais de metade é para medicamentos. Esta é a realidade de alguns.

Segundo Isabel Jonet a situação no Banco Alimentar Contra a Fome nunca foi tão complicada. Nos seus 27 anos de experiência nesta instituição nunca viu profissionais tão qualificados a pedirem auxílio, por não terem rendimentos sequer para comer, apenas dívidas. Até pequenos empresários que entraram na miséria já não têm outro recurso senão pedir auxílio para comer. Cerca de 420.000 pessoas são normalmente apoiadas pelo Banco Alimentar em Portugal, ou seja aproximadamente 4% da população. Cerca de 2,2 milhões de pessoas que ganham abaixo de 500€ estão também em risco de pobreza ou exclusão social, representando uma fatia muito maior: 21,6%. Por falta de pessoal em instituições de solidariedade devido à pandemia, Isabel Jonet montou uma nova Rede de Emergência Alimentar e só nas primeiras 48 horas recebeu 580 pedidos, quatro dias depois já somavam um total de 950 e um mês depois 9.992 famílias. O confinamento obrigatório levou a falências, layoff , despedimentos e cortes salariais. Os desempregados já se amontoam aos milhares nas listagens dos centros de emprego. Nos EUA, por exemplo, mais de 30.000 pessoas já pediram o subsídio de desemprego em apenas seis semanas. O desemprego, em Portugal, segundo o FMI pode atingir os 13,9% em 2020.

O relatório de 2019 da ONU sobre a fome no mundo, aponta que 820 milhões de pessoas em 2018 foram atingidas diretamente por este flagelo. A cada 4 segundos morre uma pessoa por fome no nosso planeta. São cerca de 9 milhões de mortes por ano. E nos relatórios mundiais da maioria das instituições consideradas influentes, estes números são distribuídos por outras causas de morte, de forma a que não tenham visibilidade da realidade do problema. O que faz pensar sobre a razão de ser de se esconder a verdade. Talvez porque para muitos políticos, esta é uma solução barata para o problema da sobrepopulação. Ou porque simplesmente, a maioria dos políticos não se interessa pelo tema. Afinal, são só “pobres”, não têm participação ativa nas economias nem nas decisões dos países. Parece incrível que em pleno século XXI a fome ainda seja a maior razão de falecimentos na área da saúde.

Há poucos dias fomos surpreendidos com um video de África do Sul, que mostra imagens de filas de 4 quilómetros de pessoas que não têm que comer devido à quarentena obrigatória. Obrigar sociedades já em pobreza extrema a fazerem quarentena forçada não parece lógico. Mas é necessário, por força de evitar mais contágios. A fragilidade destes mundos mais pobres, é, no entanto, comovedora. O retrocesso provocado por este vírus, sobretudo nas economias de subsistência, pode não ser reversível na próxima década. A menos que o mundo mude seriamente as suas políticas de solidariedade e cooperação, a tragédia da fome vai ceifar muito mais vidas do que a pandemia. Se anualmente já morrem cerca de 9 milhões por fome, é previsível que este número duplique ou até triplique para este ano tão trágico.

Texto de Pedro M. Duarte

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