“A mentalidade Portuguesa é afetada por um enorme complexo de inferioridade”… Entrevista Sobre a UE

Nota Editorial: Esta entrevista foi dada por mim, João Silva Jordão, à Praxis Magazine, em Novembro de 2017- a publicação foi entretanto apagada, pelo que tomo a liberdade de a publicar aqui.

1. Que análise fazes da União Europeia e da zona euro?

A União Europeia é desde o inicio, do ponto de vista económico, um projeto ultra-burguês, assumidamente, pois toda a UE é construída a partir do esqueleto formado pela união do carvão e do aço. A partir daí, começam a erigir incrementalmente todos os pilares que seriam expectáveis na construção de um só Estado nação, ou uma Federação, se preferirem. União económica, uma moeda única, uma união política e tudo o que isso necessita, como um parlamento e até um executivo (a Comissão Europeia) que no caso até tem um presidente que não é democraticamente eleito. E isso leva-nos à segunda caracterização que devemos fazer da União Europeia- é desde o inicio não somente uma construção burguesa, mas é também um projeto profundamente e assumidamente imperialista. E a obsessão quase doentia com a introdução de políticas de segurança comuns demonstra isso. Já temos uma Europol, uma agência espacial Europeia (ESA), uma força de policia de choque Europeia (Eurogendfor), e por aí fora. Agora só falta o exército. E com o clima político e geopolítico atual, penso que tem todas as condições para avançar. E entretanto, como que por coincidência, construiu-se uma nova sede da NATO em Bruxelas, e vários países falam em voltarem a introduzir o serviço militar obrigatório. Assinaram agora mesmo o“Permanent Structure Co-Operation”(PESCO), que vai entre outras coisas aumentar os gastos militares. A nova desculpa para avançar com um exército Europeu é o Brexit, mas não se deixem enganar. Já há muito que se fala, e que se está a construir, uma mega-estrutura securitária e militar na UE, somente as desculpas para o fazer vão mudando. Ao mesmo tempo que os papagaios do costume que têm um fetiche pela UE falam incessantemente de uma Europa de paz, democracia e cidadania, a UE está, como é seu costume, a usar vias pouco ou nada democráticas para construir estruturas sobre as quais os cidadãos da EU têm pouca ou nenhuma influência.

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Várias das instituições da União Europeia, as quais são a fundação de um futuro Estado Federal Europeu. A Euronews não faz, oficialmente, parte da UE, mas recebe financiamento da UE, pelo que é oficiosamente um canal de propaganda seu, daí a sua inclusão na imagem…

2. O presidente francês Emmanuel Macron e a chanceler alemã Angela Merkel querem refundar a União Europeia – e a formação de um exército europeu não tem ficado à Que análise fazes destes intentos?

Quando personagens como a Merkel, Macron, etc., falam de “refundar”, “reformar”, “repensar” a Europa, estão a usar eufemismos para mascarar as suas verdadeiras intenções- centralizar o poder nas mãos do número mínimo possível de pessoas. A formação de um exército da UE já está a ser proposto há muito tempo.

Para a esquerda que ainda é pro-União Europeia, e sobretudo relativamente a um potencial exército Europeu, proponho um exercício. Olhem para o que seria a Zona Económica Exclusiva dos eventuais Estados Unidos da Europa. É assustador. A ZEE concede 370 km de jurisdição a partir da costa de cada Estado. Quem beneficia mais com o ZEE?

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A Zona Económica Exclusiva (ZEE) da União Europeia, incluindo o Reino-Unido, segundo o programa marítimo da União Europeia, a azul escuro, a verde e a amarelo, sendo o azul claro o ZEE dos outros países- sem o Reino-Unido ficaria significativamente reduzida

Os países com costas longas, e sobretudo as ilhas e os países que as têm, porque por muito pequenas que sejam, expandem a jurisdição do Estado pelos Oceanos fora. Por isso é que vemos batalhas, até agora sobretudo diplomáticas, entre a China e o Japão, por exemplo, pelo controle de rochedos insignificantes perdidos no meio dos Mares e Oceanos. E quem é que passou séculos a conquistar ilhas pelo mundo fora, com muito sucesso? Estados Europeus, que o fizeram em grande parte para competirem uns com os outros. Mas agora com a possibilidade de se juntarem todos, vemos a possibilidade de termos uma UE que controla uma parte substancial dos mares, e isso permite-lhes ter controle sobre comércio, e ter os seus navios estacionados pelo mundo inteiro, nomeadamente submarinos com ogivas nucleares. Açores, Madeira, Guiana, Ilha da Reunião, Guam, Groenlândia, Seicheles. A lista nunca mais acaba. Temos na União Europeia quase todas as grandes potências coloniais, e se as unirmos todas, o resultado é uma mega-entidade colonial. E é por isso que fiquei em êxtase com o Brexit. O Reino-Unido ainda tem muito poder militar e financeiro, e a Rainha de Inglaterra ainda é a chefe de Estado de imensos países. E o Reino-Unido tem uma jurisdição imensa pelo mundo fora. Malvinas, Gibraltar, Bermudas. São ilhas minúsculas, mas que lhe dão uma projeção geopolítica assustadora. Relativamente ao Brexit, a esquerda, por regra geral, seguiu a esquerda do Reino-Unido e entrou em pânico. É verdade que quem liderou o processo foram forças políticas de direita. E é verdade que vai trazer muitas dificuldades a muitas pessoas. Aumentaram os ataques racistas no país, é verdade. Mas para mim, é um preço aceitável a pagar pelo enfraquecimento da União Europeia, que poderá vir a ser um dos Impérios mais poderosos da história da humanidade. Tenho família a viver no Reino-Unido, eu próprio já vivi lá. Sou muçulmano e sei bem o quanto está a sofrer a comunidade Islâmica lá, não só, mas também como resultado do Brexit. Mas temos que, como dizem os Ingleses, “take one for the team”.

Há quem me diga que estou a ser alarmista relativamente ao prospeto de um Império Europeu agressivo e perigoso. Será? Então olhemos para um dos únicos episódios que nos permitiu ter uma amostra do que será a política externa de uma União Europeia com uma política estrangeira única- a Ucrânia. Vimos um Presidente que acabou com um pacto de comércio com a UE. O que fez a UE, com o apoio dos Estados Unidos da América? Ativou os seus agentes dentro do país para basicamente começar uma guerra civil. Até contou com o apoio do Svoboda, um grupo Nazi. Conclusão- a UE não somente é agressivamente expansionista, como não tem problemas nenhuns em gerar conflito, guerra e destruição nas suas fronteiras para avançar os seus interesses geopolíticos, inclusive colaborando com Nazis. Reparem como a UE está sempre a falar contra o nacionalismo e o Nazismo, quanto este se exprime dentro das suas fronteiras. É normal, o nacionalismo Europeu à moda antiga vai contra os seus interesses. Mas se forças nacionalistas acabarem por agir no seu interesse fora de portas, aí já não tem problemas nenhuns. Reparemos nas guerras em que têm participado os países Europeus ultimamente. Afeganistão, Iraque, Síria, Mali, Líbia, Iémen. Quando não estão a bombardear países, estão a organizar revoltas que destroem esses países. Quando não estão a desestabilizar países, estão a vender as armas para que os países se destruam a si mesmos. Fora dos conflitos e intervenções de que não sabemos. Agora imaginemos dar a uma mão cheia de pessoas o poder de usar todo o poderio militar Europeu de uma forma coesa, unida. Temos que fazer o possível para evitar esse cenário.

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Nos anos de grande contestação contra a “Troika” em Portugal, fiquei algo conhecido nos meios ativistas pelas minhas ideias fogosamente anti-União Europeia- daí ter sido convidado a fazer esta entrevista para a Praxis Magazine- foto de palestra minha na sessão de debates “Conversas – CXLVI”, Bairro Alto, Lisboa, Portugal, 2017.

3. De que forma é que a adesão e permanência de Portugal à União Europeia afectou a estrutura econômica nacional e os trabalhadores?

Existem muitas pessoas que se especializam nesta questão, e que são muitos melhores do que eu para dar todos os detalhes. Mas sinceramente vou ter que ser algo cínico- não mudou grande coisa, no plano geral das coisas, somente formalizou a nossa posição como país subserviente, se segundo plano, sem grande poder de negociação. E o facto de não termos força na mesa de negociações não se deve somente à falta de poderio económico. É também parcialmente uma questão psicológica, para não dizer psiquiátrica. A mentalidade Portuguesa é afetada por um enorme complexo de inferioridade, sobretudo relativamente à Espanha, França, Grande-Bretanha e Alemanha. É patético e deprimente ver o quão naturalmente os Portugueses assumem uma posição de servilismo absoluto para com estes países, seja num plano individual ou coletivo. A todas as escalas. Num restaurante, entram Europeus louros e vemos todos a desdobrarem-se para os servir melhor, para lhes dar atenção. Nos eventos sociais são quase inevitavelmente o centro das atenções. São muitas vezes o alvo preferencial da cobiça sexual dos homens e mulheres. Eu acho bastante cómico. Mas quanto vejo que esta mesma atitude se reflete no plano económico, político, até urbanístico, acho menos piada.

Eu penso que até os Europeus do centro ficam espantados com o quão facilmente nos vergamos. E depois lá ficamos nós repetir citações sobre como o Júlio Cesar (alegadamente) falou de um povo nos confins da Europa que não se governa nem se deixa governar, para construirmos uma ilusão de como somos um povo bravo, corajoso, que sempre foi assim e sempre será. A população Portuguesa fala dos “descobrimentos” e de como éramos importantes e grandiosos. Mas se repararmos, este passado grandioso não se pode tocar, não se pode discutir, não se pode reinterpretar. Porquê? Porque sabemos muito bem que é um fóssil, é uma peça de museu- está no passado, e é tão frágil que qualquer tentativa de lhe tocar só vai fazer com que se desvaneça em pó. Seriamos então confrontados com a realidade de que somos um país derrotado. Derrotado pelo terramoto, derrotados pelo Napoleão, derrotados pelo fascismo, derrotados pela Troika.

E quando apontamos para estas derrotas, aí entram os mecanismos de defesa. Começam os insultos e a racionalização. “Olha que poderia ser pior” dizem, por exemplo, relativamente à intervenção da Troika. “Sem a Troika estaríamos na banca rota”. E assim vamos aceitando o nosso servilismo. Talvez seja este o grande paradoxo da história de Portugal. Somos um colonizador colonizado, que nem admite ter sido colonizador, nem admite que agora é colonizado. Somos o nosso próprio pior inimigo.

Vejamos o que a UE fez. Subornou-nos com subsídios para implodirmos a nossa indústria e abrirmos a nossas fronteiras a produtos do centro da Europa. A Troika só avançou este plano. Um dos truques que fez foi abrir o mercado imobiliário a investimento estrangeiro, facilitar despejos, promover o turismo. Os resultados estão à vista. Dantes era a classe trabalhadora a ser vergonhosamente expulsa para a periferia das cidades, da mesma forma que é socialmente e politicamente periférica. Agora nem a classe média escapa. O património público é vendido, sobretudo ao grande capital estrangeiro. E vendido baratinho, claro, para ajudar a pagar uma dívida sobre qual lucram sobretudo bancos estrangeiros. Quando um banco nacional vai à falência, a UE envia ordens para que seja vendido ao Santander, pois quer grandes bancos regionais, e assim acontece, com o Banif e agora com o Banco Popular. Mas já em 1989 os Champalimauds tinham vendido o Totta ao Santander. Nada de novo. Nem a burguesia nacional está a sobreviver. As duas grandes empresas nacionais, a EDP e a PT, foram vendidos ao grande capital estrangeiro. Mas será de agora? Claro que não. Sempre foi assim. É só olhar para os nomes dos burgueses e aristocratas nacionais e salta logo à vista a presença desproporcionalmente alta de nomes do centro da Europa. D’Orey, Bobone, Champalimaud, Bettencourt. E quando não são diretamente os d’Oreys e os Bettencourt desta vida, são os Vasconcelos que deitam pétalas de rosa no caminho para as grandes potencias Europeias poderem entrar por Portugal a dentro e tratar os trabalhadores abaixo de cão. Há toda uma teia montada para assegurar este controlo total. Podemos ir seção por seção, seja no mundo político como económico, e listar a quem pertencem. Portugal é um bolo que estes países vão dividindo entre si a seu belo prazer. E a adesão à União Europeia só formalizou e aprofundou esta tendência histórica.

4. Como vês as posições das várias esquerdas a nível internacional?

A esquerda está em período de transição. Foi derrotada estrondosamente logo a seguir à crise financeira, porque prometeu muito mas não conseguiu concretizar as suas promessas. Teve cerca de seis anos para demonstrar o que valia, digamos, entre 2008 e 2014. Agora as pessoas revoltadas que depositaram as suas esperanças na esquerda estão a cair nas mãos da direita, e cada vez mais, da extrema-direita. Mas da mesma forma que a esquerda não estava nem ideologicamente nem logisticamente preparada para dar resposta às expetativas, a extrema-direita também não está. Dependem demasiado do velho truque Nazi- culpar os males todos do país numa minoria étnica ou religiosa, neste caso os imigrantes em geral e os muçulmanos especificamente. É possível que esteja errado, mas parece-me que daqui a poucos anos as pessoas vão-se aperceber deste truque, e quando virem que as suas vidas estão a continuar a piorar, vão procurar alternativas. Deverá acontecer a partir de 2020-2022. Nesta altura a esquerda vai ter que estar preparada para dar respostas reais às pessoas que vão quase inevitavelmente aperceber-se que a extrema-direita lhe esteve a vender um sonho. O problema é que durante estes anos as coisas podem deteriorar-se muito. Mesmo assim prefiro uma atitude realista, em que a esquerda seja capaz de se aperceber que está a perder, e que tem que se reconstruir, do que fingir que estamos prontos a dar respostas agora. Não estamos.

É como nos Estados-Unidos. Como na maioria dos países. As pessoas oscilam entre a esquerda e a direita e a única coisa que fica, para além das promessas, das mentiras, das ilusões, é o trabalho real que fica feito e que consegue mesmo melhorar a vida das pessoas. Deve ser esse o fator principal que devemos usar para avaliar o nosso trabalho, em vez de nos deixarmos enredar em enredos eleitorais, divagações simbólicas ou ambições pessoais.

5. Qual deveria ser a estratégia da esquerda perante a União Europeia?

O Mark Twain disse que é mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que foram enganadas. A UE enganou-nos com as suas promessas de democracia, prosperidade e paz. Ainda há muitos que preferem manter as suas doces ilusões do que acordar e ver o óbvio- que a UE é um inimigo e não um aliado.

A partir daí torna-se mais fácil perceber o que devemos fazer. Temos que boicotar, sabotar, e finalmente desmantelar a UE, sobretudo o aparelho securitário, e todas as instituições anti-democráticas como o Conselho Europeu e o Banco Central Europeu. Mas não antes de, ao mesmo tempo, conseguirmos construir uma alternativa viável para a substituir. Temos que ter um mecanismo para podermos viajar livremente na Europa, obviamente. Temos que ter mecanismos para impedir que os países Europeus entrem em guerra entre si, obviamente. Somente não devemos cair na chantagem da UE e dos seus apoiantes, que nos dizem que devemos aceitar, em troca destes “privilégios”, a mega-estrutura anti-democrática, capitalista e imperialista da UE. Os edifícios da UE poderão ser úteis no futuro, e uma ou duas instituições, um ou dois documentos, um ou dois conceitos. O resto é para demolir mesmo. É o que penso que a esquerda devia fazer. Mas sinceramente penso que a UE vai ganhar.

Resta-me ter esperança noutras áreas, noutros sentidos. A esquerda tem que voltar a lembrar alguns conceitos básicos. Para mim o mais importante é isto- Toda e qualquer construção política, seja em que parte do mundo for, que tente por muito poder na mão de poucas pessoas deve ser considerada como um alvo a abater. Os seres humanos não são capazes de lidar com tanto poder sem se deixarem corromper. Daí a importância da democracia, é menos eficaz do que as ditaduras mas é preferível a ter um pequeno grupo de pessoas que nos esmaga e nos leva a todos, mesmo que normalmente com muita eficácia e com os comboios a partir a horas, na direção do abismo. Quando as pessoas capitulam e começam a aceitar a existência de ditaduras, é porque o desastre está ao virar da esquina.

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