Máfias de Espanha: uma Economia Suportada na Corrupção Generalizada

Quem já viveu em Espanha sabe bem que o modo de vida espanhola deriva de uma fusão de duas culturas essencialmente: a de Roma Antiga e a Árabe ou Mourisca. Os espanhóis tentam ainda importar todos os modelos do séc. XX dos Estados Unidos, país com o qual se identificam bastante. Quando viajamos de automóvel pelas auto-estradas deste país, sentimos o calor da estepe, o ritmo dos armazéns industriais meio decadentes espalhados ao longo das vias, as paisagens de florestas ao longe, que lembram algumas das paisagens do continente americano. A região sul chega a ter temperaturas insuportáveis e, sinceramente, não sei como se consegue viver uma vida em cidades como Sevilha, de clima tórrido, onde se pode fritar um ovo no capot do automóvel. Localizada no meio de uma estepe quase desértica, onde outrora abundavam as florestas e matas de pinheiros mansos, como em certas zonas do nosso Alentejo, esta cidade chega, a ter temperaturas médias no verão de 36º e máximas de 45º, “real feel” de 47,5º. Com climas muito variados, nas últimas décadas, muitas cidades espanholas tornaram-se multiculturais, diversas, integrando não só a sua natural alegria, mas alegrias de outras culturas pelo mundo. Cidades como Barcelona, Madrid, Málaga, Valência, Valhadolid, Santander, Santiago de Compostela, Salamanca, Palma e, claro, Ibiza revelam o gosto de viajar dos espanhóis, que trazem sempre para o seu país algo para partilhar com a sua cultura.

Dos romanos os espanhóis importaram o estilo de vida com excessos, o gosto pelo dinheiro, o vício de viajar, a elegância moderna de vestir, o hábito semanal do cabeleireiro, a arte da maquilhagem e da perfumaria, os pratos condimentados com ervas aromáticas que tão bem conhecemos de Itália. Dos Árabes ou “Mouros” como chamam às pessoas de sangue e descendência árabe, mais típicos do sul, importaram o estilo dos lenços e echarpes, o falar alto, a dança, as técnicas de agricultura, a tipologia da casa com pátio e poço, a arquitectura voltada para o interior, o gosto de vestir de negro, o gaspacho, o turrón, o comércio de rua e de mercado de levante. Não nos podemos esquecer que os Cartagineses foram um dos maiores impérios do Mediterrâneo e chegaram mesmo a instalar-se no sul de Espanha. Também a presença cigana de origem romena está fortemente presente nos hábitos espanhóis: o flamengo, o viver gregário ao ar livre, as tradições secretas, os rituais do casamento em tenra idade, a beleza dos cabelos lisos negros femininos, pelas costas, o olho circunscrito a lápis negro. Diga-se de passagem, que tenho um afeto especial por este país, onde também vivi um par de anos. Um país tão cheio de vida, onde se janta entre as 10 e as 11 da noite e o pequeno almoço é um café com leite e uma torrada com azeite e tomate. Onde, se falas bem castelhano, fazes amigos em qualquer sítio como se fossem família de longa data. E claro se falas bem a língua e percebem que és português, passam a admirar-te duplamente. É que gostam de falar connosco e trocar impressões sobre o nosso país. Nunca percebi porque duas nações irmãs que falam praticamente a mesma língua viveram tantos séculos de costas voltadas.

À medida que se vai entrando nos hábitos espanhóis, é possível perceber que estamos a anos-luz do seu modo de vida. É que “nuestros hermanos”, no que toca a saberem viver, levam anos de avanço. Enquanto nos anos 40 e 50 Portugal vivia uma economia parca, a capital de Espanha, Madrid, era já uma metrópole de comércio e de cultura muito superior. Infelizmente por causa desses tempos, muitos espanhóis ainda têm a ideia que somos os parentes pobres, embora nos tenham em boa estima. Mas enquanto os portugueses no tempo de Salazar foram habituados à missa, a andar de cabeça baixa, a serem modestos, a dedicarem-se à agricultura, a falar mais do que fazer, os espanhóis já traficavam e vendiam todo o tipo de coisas pelas suas fronteiras com Portugal, França, Marrocos e Argélia. Sempre tiveram um comércio forte e enquanto nós nos submetíamos à ditadura silenciosa de Salazar, por votação na Assembleia da República, Espanha teve uma Guerra Civil que resistiu a Franco até à derrota, que quase levou à destruição de todos os seus monumentos históricos pela aviação de Hitler. É que os defensores da República escondiam-se nos castelos espalhados por toda a Espanha e as bombas nazis fizeram desmoronar uma parte importante da história militar de “nuestros hermanos”. Enquanto Salazar recuperou todos os nossos castelos, um a um, Franco deixou os seus destruídos, como símbolo de vitória sobre o inimigo.

Os espanhóis seguem a cultura da frontalidade falada, dizem tudo o que pensam sem rodeios. Mas têm uma parte negra também em si. A mentira, o esquema e a manha fazem também parte do seu ser. Com uma cultura de rua conhecida como “callejera”, importada no Norte de África, do nomadismo e dos mercados de levante, o lado negro não se reflete, nas roupas que hoje vestem, coloridas e exuberantes. À semelhança dos italianos, por vezes parece que estão a falar de maneira mais agressiva ou insinuante, mas nada mais é do que a sua marca “forte” de ser. Mudam rapidamente de tom, de aparentemente agressivos a dóceis em segundos, se percebem que respeitas a sua cultura de rua. Exceto nalguns bairros mais perigosos, onde o perigo da agressividade é real. O espanhol é decidido, avança para a frente e raramente olha para trás. Essa qualidade, herdada provavelmente dos soldados de Roma Antiga, ficou-lhes para sempre marcada. Talvez também porque comem mais salgados que nós. O sal intensifica o caráter enquanto que o açucar o suaviza. Ainda hoje é difícil encontrar pastelarias em Espanha, sobretudo no sul. O “café con leche” ou o “cafelito” acompanha-se com uns “pinchitos” ou com umas “tapas” e toma-se a meio da manhã e a meio da tarde com os colegas de trabalho ou com os amigos. A cultura social de convivência deste país é das mais fortes na Europa e realmente só é comparável à cultura italiana, na Europa. Mas todos estes aspetos são a parte positiva da sua cultura.

O lado negro é que, desde a queda de Francisco Franco que Espanha se tornou um país ainda mais livre, mais firme nas suas convicções, mais vivo, mais dinâmico comercialmente, mas muito, muito mais corrupto. Quando se deu a morte de Franco estávamos em 1975 e em Portugal já se vivia um ambiente de liberdade. Enquanto que os portugueses estavam empobrecidos e levaram anos a recuperar de uma “reforma agrária” básica que levou à formação de cooperativas agrícolas lentamente, os espanhóis lançaram mão à obra e, usando da sua energia empreendedora renovaram e industrializaram a agricultura, criaram uma forte rede dispersa de todo o tipo de pequenas, médias e grandes indústrias que lhes permitiram crescer economicamente num plano muito superior ao nosso, com exportações para todo o Norte de África e América do Sul. Valendo-se dos seus contactos do tempo dos Descobrimentos e também por serem um país cinco vezes maior que Portugal, com uma população também cinco vezes superior, a sua economia cresceu exponencialmente. E este foi o momento em que Espanha se tornou no El Dorado europeu.

No final dos anos 70, enquanto Portugal construía algumas dezenas de prédios na Quarteira, Praia da Rocha e Armação de Pêra, em Espanha na “Costa del Sol” deu-se o maior boom de construção desde a ditadura de Franco. Centenas, talvez milhares de torres de apartamentos massificaram o uso das praias ao longo desta zona costeira. Com um clima mais quente do que o nosso, Torremolinos, Málaga, Fuengirola, Marbella foram literalmente invadidas pelo turismo de massas vindo de todos os pontos da Europa, da Ásia e das Américas. E foi aqui que tudo começou. Aos poucos, as máfias viram nos turistas sazonais uma oportunidade de ouro de ganhar dinheiro fácil para o resto do ano, trabalhando apenas durante quatro meses. Os restaurantes, o comércio, a hotelaria, os apartamentos, todos faziam dinheiro e pagavam poucos impostos. É que as finanças espanholas sempre funcionaram mal e o controlo nunca foi apertado. Ganhava-se dinheiro facilmente, bastava dedicar-se a algo, ter as portas abertas com algum negócio. Mas com o tempo, com o aparecimento de outros pontos turísticos mais interessantes por todo o mundo, nos anos 80, deu-se uma redução do lucro e as populações locais começaram a vender os seus apartamentos em time sharing para rentabilizar ao máximo as quebras de receitas. Através deste sistema, podia-se comprar uma semana de férias para o resto da vida ou por alguns anos, num resort, pagando alguns milhares de euros, muitos milhares de pesetas. A sua rede de vendas estendeu-se tanto que até no Algarve tentavam vender aos frequentadores das praias ou nas ruas mais turísticas de Albufeira, Vilamoura, Praia da Rocha ou Faro.

No entanto, à medida que o time sharing foi caindo em desuso, devido a muitas burlas ou resorts de baixa qualidade vendidos como se fossem de luxo, os espanhóis, habituados aos negócios de milhares, tiveram de diversificar. Com uma ainda considerável clientela turística, de entre ingleses, holandeses, italianos, portugueses, franceses e alemães, nos anos 80 as primeiras grandes discotecas, eram o novo ramo de negócio do turismo. O consumo de álcool e drogas, ao ritmo dos novos sons da música psicadélica remisturada pop, disco, house, techno e eletrónica, tornaram o sul de Espanha no paraíso de férias dos estudantes e jovens de toda a Europa, mas também de clientes de meia-idade à procura de aventuras de verão. Ibiza, cujo turismo se tinha iniciado lentamente a expandir nos anos 60 pela construção era agora, pela sua maior proximidade com a costa norte-africana e pelo seu isolamento insular, o paraíso na Terra: sexo, drogas e rock’n’roll. E desde meados dos anos 80 que Ibiza passou a ser o centro deste estilo de vida, que não teria grande mal, não fossem as máfias pesadas que começaram a estar envolvidas no processo. Casinos privados, discotecas, clubes de sexo, consumos desenfreados de enormes quantidades de todo o tipo de drogas, festas privadas e menos privadas que acabam na maior parte das vezes em sexo em grupo, orgias de luxo para Vip’s, nas quais participam por vezes menores masculinos e femininos, em moradias de luxo com vista para o mediterrâneo, são o menu da ilha. Personalidades como Cristiano Ronaldo, apesar da fama da ilha, vão religiosamente todos os anos nos seus jatos privados, a este “santuário da vida loca”, alugam um iate de luxo e fazem as suas parties em alto mar, com modelos-acompanhantes de luxo em festas de arromba de dias e dias.

Mas se Ibiza é um símbolo, o centro, o modelo, o paradigma do marketing deste estilo desenfreado de viver dos filhos dos ricos, da corrupção extrema do corpo pela exploração sexual e dos sentidos, todo o sul de Espanha é o seu reflexo, o seu espelho. A recente série que estreou este ano – “White Lines” – e cuja acção se passa maioritariamente em Ibiza, dá-nos uma ideia da complexidade das máfias que estão por detrás deste negócio de milhões que envolve tráfico de drogas, humano, influências, mas também assassinatos, branqueamento de dinheiro e máfias de todos os tipos. Se os filmes de Hollywood superam muitas vezes a realidade, exagerando-a, pode-se dizer que no caso de Ibiza e do sul de Espanha, é a realidade que supera a ficção. Máfias de todos os países utilizam-se deste território para lavarem os seus milhões do tráfico de droga, diamantes, ouro, tráfico humano, de órgãos, enfim, de tudo o que dê dinheiro. Desde os anos 90 que se deu um novo boom na construção em toda a Espanha, mas sobretudo, uma vez mais no sul, nas zonas próximas do mediterrâneo. Esta nova expansão já não era resultante maioritariamente do turismo “legal”, mas do “ilegal”. Por esta razão os preços das casas subiram tanto na terra de “nuestros hermanos”, tornando-se proibitivos para a classe média. A lavagem de dinheiro na construção faz-se aqui à bruta, com malas de dinheiro, com contas em paraísos fiscais, com diamantes…aceita-se qualquer modo de pagamento. O paraíso do branqueamento, onde a Guardia Civil, com os seus baixos salários acaba por entrar nas teias da corrupção, fechando os olhos às sua máfias, passando até a pertencer diretamente às suas redes. Também é comum verem-se condomínios construídos exclusivamente para chineses, alemães, holandeses ou russos. Desta forma controlam-se melhor os capitais que “entram” na roda do dinheiro vivo.

Mas outros estilos de corrupção estão já totalmente disseminados em Espanha. Casinos, tráfico de órgãos, tráfico de emigrantes, prostituição de imigrantes, pedofilia, armas, venda de bebés, na realidade tudo o que seja ilegal e que resulte em dinheiro fácil. E todos estão ligados às mesmas redes, todos fazem parte de em esquema nacional que foi sendo controlado pelas maiores famílias de Espanha, as mesmas que organizam a festa mais célebre de Espanha – La Feria, onde as famílias endinheiradas e nobres se vestem à século XIX, montam as suas “casetas”, as suas tendas ou barracas de madeira ao estilo das feiras de há 200 anos atrás, e combinam casamentos e negócios de milhões, deixando o “povo” de fora a observar como basbaques. As mesmas famílias que durante a Semana Santa desfilam atrás dos “andores” temáticos da Páscoa, numa falsa atitude cristã. E nestes negócios estão envolvidos directamente muitos políticos, partidos e até as “cofradías” ou “hermandades” religiosas. Ao som das “saetas”, as músicas fúnebres ensaiadas todo o ano e tocadas ao longo da “Carrera Oficial”, o percurso processional, dão ânimo e ritmo aos “costaleros” que carregam as toneladas dos pesados “andores”. Mas para o mundo há que manter uma fachada de seriedade e, por isso, Espanha mantém as suas instituições a funcionarem normalmente, para que não se saiba publicamente que, a sua economia das últimas três décadas está suportada numa rede de corrupção tão generalizada que já não se distingue da vida das famílias. Pode-se afirmar com toda a certeza que, em média, em todas as famílias espanholas existem elementos ativos, ligados a estas redes, que todos os dias garantem uma parte do sustento das suas famílias à custa destes esquemas de corrupção. Se a corrupção, por absurdo, fosse eliminada de Espanha, o país desmoronava-se, pura e simplesmente.

No excelente filme de 2019 “El Silencio del Pantano”, Pedro Alonso, o conhecido ator de “Casa de Papel”, revela apenas uma parte do lado negro de Valência, construída sobre pântanos, numa parábola direta com a corrupção que suporta esta cidade. Um esquema de lavagem de dinheiro generalizado pelo pequeno comércio decadente, que mantém as suas portas abertas sem lucros aparentes, num megalómano jogo de branqueamento de milhões, distribuídos por milhares de negócios. É de salientar que Espanha é dos países europeus com a maior rede de comércio de rua da Europa. Outro esquema é, por exemplo, os cabeleireiros ilegais, feitos nos próprios apartamentos privados, onde o pagamento é muitas vezes feito com dinheiro sujo. Para além deste esquema, a Costa del Sol é o ponto de entrada das maiores quantidades de droga provenientes da costa norte de África, sobretudo de Marrocos, país com o qual Espanha mantém estreitos contactos comerciais e onde estabeleceu uma rede industrial que suporta muitas matérias transformadas oriundas de África, mantendo viva a antiga tradição cartaginesa. Também o filme “El Niño” de 2014 revela como se processa o forte tráfico organizado de droga que se faz entre Marrocos e Espanha. A polícia marítima espanhola apenas consegue apreender uma pequena parte da entrada de estupefacientes que chegam às suas praias, sendo Espanha a maior porta de entrada de drogas na União Europeia, atualmente. E também um dos países onde o consumo é mais elevado per capita. O seu poderio nesta área alterou até as rotas de entrada deste material em Portugal que deixou praticamente de se fazer por via dos barcos de pescadores, fardos de palha, ou bóias para passar a entrar diretamente via terrestre pelos sete pontos fronteiriços que ligam os dois países.

Para além de todos estes “negócios”, Espanha especializou-se também em “importar” imigrantes da América do Sul, de países com os quais tem acordos comerciais, sendo que muitos tentam naturalizar-se espanhóis por via do casamento. E esta também é uma forma de negócio das redes organizadas. Cobrando valores que podem ir dos 10.000 aos 30.000 ou mais, as máfias cobram a estes desgraçados quantias de dinheiro que não podem pagar, para terem de se submeter às suas redes de prostituição e de tráfico de droga. A maior parte dos casos acaba mal, como é evidente, mas a criminalidade em Espanha, muitas vezes “enterra-se” e não entra para as estatísticas oficiais. Por isso, este país se tornou no paraíso das máfias, dos negócios de corrupção, na lavagem de dinheiro. Viver feliz e com dinheiro fácil é em Espanha. E mesmo com dinheiro fácil se alguém não encontra a felicidade, nada como tomar uns comprimidos de ecstasy para sorrir. Neste território de “exclusão” alfandegária e de corrupção da União Europeia, não parece haver forma de fugir ao êxtase do Carpe Diem.

Texto de Pedro M. Duarte

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