Aos Fuzilados, Infectados e sem PPR: os trabalhadores da CSN do Brasil

Companhia Siderúrgica Nacional, ou simplesmente “CSN”, é uma das maiores empresas do setor produtivo brasileiro, cujo principal acionista é o bilionário Benjamin Steinbruch, que foi presidente da FIESP (Federação das Industrias do Estado de São Paulo), principal entidade de classe empresarial do país.

A grandeza da empresa se mostra nos números: Há anos ela figura na lista das dez empresas que mais pagam dividendos a acionistas na Ibovespa (Bolsa de valores de São Paulo), tendo pago, por exemplo, R$412 milhões em 2019, ano cujo lucro líquido foi de R$2,245 bilhões. Um ano antes, 2018, já havia registrado o maior lucro anual de sua história, um total de R$5 bilhões líquido. Neste ano o pagamento de acionistas em forma de dividendos atingiu a cifra de dez dígitos antes da vírgula: R$1.008.744.985,10 – soletramos: um bilhão, oito milhões, setecentos e quarenta e quatro mil, novecentos e oitenta e cinco reais e dez centavos.

O PPR entre a apropriação privada da riqueza e a socialização da miséria

Estes altíssimos números contrastam-se com os pequenos valores estipulados pela patronal aos seus trabalhadores em forma de PPR. “PPR” é a sigla para “Programa de Participação nos Resultados”. Pelo nome, o programa parece ser um belo benefício, sonho cobiçado por qualquer operário, ainda mais pelo fato de que tal Programa não é obrigatório por lei. O fato de não ter implementação obrigatória não impede que o programa seja livre e espontaneamente adotado pela maioria das grandes e médias empresas. Isso se dá justamente pois tal plano, mesmo incrementando o salário dos operários, tem em contrapartida um gigantesco aumento da produtividade do trabalho, a partir da imposição de metas de produção.

Além de uns trocados a mais, o resultado prático para o trabalhador são os inúmeros problemas de saúde ocasionados por distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT). Nos últimos anos seis operários morreram nas linhas de produção da CSN: Paulo Valério, Daniel Silvério Bragança, Wanderlei dos Santos, Dênis da Silva, Alvênio Alves e Renan Martins. Uma das maiores lutas do movimento operário ainda organizado, no Brasil, é a desvinculação do PPR às metas de produção, e a pressão para que participação nos resultados e lucros seja paga corretamente, o que muitas vezes não acontece, seja na forma de atrasos ou pagamento muito abaixo do firmado em Acordo Coletivo de Trabalho.

Mesmo tendo à mesa uma cifra de lucro cada vez maior, a CSN vêm afirmando, em 2020, que nenhuma meta de produção foi estabelecida e que por isso o PPR – se for pago – será limitado a no máximo 50% do valor do salário-base de cada trabalhador da categoria.

Duas décadas atrás, organizados tanto no sindicato como em comissões de fábrica, os trabalhadores impuseram à empresa um PLR de 10% sobre os dividendos pagos aos pensionistas; isto no primeiro ano de implementação do Programa, com um lucro muito inferior ao de 2018 e 2019 e sem vinculação a metas e resultados, mas resultado de uma categoria mobilizada. Vinte e dois anos depois, com um sindicato vinculado à patronal, mas organizados em uma forte Oposição Metalúrgica, os trabalhadores da CSN em Volta Redonda, estado do Rio de Janeiro, apresentam a mesma proposta, e seguem mobilizados contra as demissões e o descaso da empresa que nega a paralisar a produção da fábrica mesmo com dezenas de casos de Coronavírus entre seus operários.

Essa matéria publica-se em homenagem aos operários da CSN mortos na linha de produção, aos fuzilados da CSN em confronto com o Exército Brasileiro durante a Greve de 1988, e à Oposição Metalúrgica – Sul Fluminense.

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