Entrevista com Carlos Narciso: “Não vejo nada de novo nisso a que chamam fake-news”

Carlos Narciso é um jornalista multi premiado e com um percurso incontornável no jornalismo televisivo dos anos 90.

Um processo de despedimento colectivo na SIC e um afastamento quase macarthista do jornalismo nacional levou-o a procurar oportunidades no estrangeiro e mais tarde a abraçar a produção independente de conteúdos jornalísticos, que distribuí pelas redes sociais e em projectos de jornalismo local online.

O jornalista aceitou fazer esta entrevista por e-mail, na qual partilhou perspectivas importantes sobre o seu percurso e projectos actuais.

Qual é para si o momento mais impactante da sua carreira de jornalismo na TV?

Tenho mais do que uma resposta para essa questão.

Se quer saber qual foi o trabalho que mais notabilidade me deu, que me pôs nas capas das revistas de televisão, onde raramente aparecem caras masculinas, e pelo qual fui bem pago, foi o programa “Casos de Polícia”, na SIC, que apresentei e coordenei durante três anos. Na verdade, o programa valia mais pelos conteúdos que tinha, reportagens, entrevistas e análises, do que pelo apresentador. Ser apresentador de programas ou “papagaio” de noticiários nunca foi a minha praia, mas é aquilo que as pessoas vêm e, portanto, é o trabalho que mais dá nas vistas.

Se falarmos do que mais gozo me deu, foi a cobertura que fiz do conflito armado na Guiné-Bissau, nos anos de 1998 e 1999, com dezenas de reportagens e o documentário “A Revolta dos Mais Velhos”. Foi uma extraordinária experiência humana e profissional. A Guiné-Bissau já era a minha “pátria do coração” e, depois disso, é o sítio onde deixei um pedaço da alma.

A forma como foi afastado da SIC, num processo de despedimento coletivo, teve impacto no tipo de conteúdos que atualmente produz?

Carlos Narciso

O despedimento de Carlos Narciso da SIC foi mediático e controverso

Só se for quando me apetece dizer mal da SIC ou de quem manda naquilo. Ter sido despedido da SIC teve consequências na minha atividade profissional posterior. Já disse isto mais do que uma vez, vou repetir: o Balsemão velho, o novo não conheço, é um tipo com instintos persecutórios e vingativos. Alguém que o enfrente tem de saber que corre sérios riscos de morrer em termos profissionais, de deixar de ter onde trabalhar. Creio que, ainda hoje, ele mantém esse tipo de influência.

Logo a seguir a ter saído da SIC tive vários convites para ir trabalhar noutras empresas que, por artes mágicas, eram depois retirados ou colocados em stand-by eternamente. Foi o caso da agência Lusa, por exemplo. O administrador-delegado da Lusa em janeiro de 2003 era o Luís Delgado, que me telefonou a convidar para ir para a Lusa, tive uma reunião com ele nas instalações da Lusa para saber pormenores da proposta, posto de trabalho, funções, salário e até combinámos horário de trabalho mas, depois, foi como se nada tivesse acontecido, a proposta foi parar ao cesto dos papéis amarrotados.

Cheguei a trabalhar na Lusa anos depois disto, a convite do diretor de Informação Luís Miguel Viana, mas apenas para dar formação multimédia aos 200 jornalistas da agência. Digo apenas entre aspas, foi uma tarefa interessantíssima e que durou 2 anos.

Tive também uma experiência surreal na Impala. Fui convidado pelo diretor-geral de Conteúdos, Carlos Ventura Martins, para um novo projeto. Assinei contrato, formei equipa redatorial, fizemos dois ou três números zero e, depois, fomos todos despedidos na véspera de Natal, antes de fazermos três meses de trabalho, sem nenhuma justificação. Apenas porque sim. O facto do dono daquilo, Jacques Rodrigues, ser vizinho na Quinta da Marinha do Balsemão velho não me sai da cabeça. Na realidade, nem precisavam de ser vizinhos. Eles conhecem-se todos e combinam jogo entre eles, isso é mais do que evidente.

Portanto, sair da SIC foi mau para a chamada carreira profissional. Tive de emigrar para voltar a trabalhar em televisão. Fui para França ajudar a por no ar um canal bilingue, uma ideia brilhante, mas pessimamente gerida e que faliu ao fim de dois anos. Estive em Timor-Leste num projeto de formação para jornalistas da rádio e televisão públicas, um projeto da cooperação portuguesa que durou dois anos. Fiquei mais tempo em Timor-Leste como correspondente da RTP, pensei que era o regresso à casa-mãe, mas acabei torpedeado por um refinadíssimo filho da puta que ainda por lá anda e vi-me obrigado a processar a empresa, coisa que não queria fazer, mas nunca abdico do pagamento justo pelo trabalho realizado.

Depois da RTP tive outras experiências, no canal angolano Banda TV onde estive um ano. Mas o que importa é dizer que a sobrevivência material de um jornalista independente é uma luta difícil de manter. Ninguém quer saber dos problemas e das lutas alheias, só param para olhar quando alguém dá um tiro na cabeça ou coisa que o valha, como se viu agora com o ator Pedro Lima. Mas dois dias depois esquecem-se dos remorsos e volta tudo ao mesmo.

Nesta fase, após a formação em Novos Media e Práticas Web, qual foi o trabalho ou reportagem publicado exclusivamente online que considerou mais importante?

O mestrado em Novos Media e Práticas Web foi um desafio autoimposto. A parte mais difícil foi aprender código de programação. Mas serviu, basicamente, para escrever uma tese sobre a transição dos Media para o digital onde eu digo, sumariamente, que um dia vamos estar a consumir conteúdos informativos num site sem sabermos que originalmente aquela “marca” foi uma rádio, um canal de televisão ou um jornal. Porque os sites são semelhantes uns aos outros. Todos têm texto, fotos, vídeos e áudios. E quando tudo estiver na net, ninguém se vai lembrar, por exemplo, que a TSF era um canal de rádio que surgiu em 1988. A tese foi escrita em 2011 e de lá para cá tudo indica que o processo mediático viaja cada vez mais rapidamente para esse universo.

Desde 2015 que só trabalho para projetos que vivem exclusivamente na net. Normalmente, são projetos de comunicação de ONG que usam as diferentes plataformas existentes para comunicar com os seus públicos. Tenho feito alguns trabalhos muito interessantes, julgo eu, e perdoem-me a vaidade. Gosto do que fiz, por exemplo, para a ACEP- Associação para a Cooperação Entre os Povos, no projeto genericamente designado “Futuros Criativos”, com uma série de pequenos documentários sobre casos de empreendedorismo na Guiné-Bissau, Angola, Moçambique e Timor-Leste.

Tendo acompanhado a transição da preponderância dos media tradicionais para os conteúdos online, qual é que acha ser o factor mais importante para o sucesso nessa transição?

Os Media tradicionais nunca quiseram sair da “zona de conforto” onde tinham o negócio montado. Estão a ser obrigados a isso porque as pessoas estão a abandonar os meios tradicionais de consumir informação e entretenimento. Hoje, o RAP tem dezenas ou centenas de milhar de visionamentos em cada vídeo que coloca no Youtube, o deputado do Chega prefere gravar um vídeo para as redes sociais (até porque não tem contraditório) do que dar uma entrevista a um canal de televisão, o exemplo do que aconteceu com o Bruno Nogueira no Instagram durante o confinamento é só a evidência mais recente para onde o povo “emigrou”. Ora, é para ir atrás das pessoas que os Media tradicionais estão igualmente a migrar para a net, até porque o modelo de negócio ainda não está bem definido e isso provoca-lhes constrangimentos de tesouraria, que é onde lhes dói mais. Ou seja, respondendo à questão, o fator mais importante são as pessoas, o público consumidor de conteúdos, se as pessoas estão na net, se deixaram de ligar a televisão porque lhes basta o telemóvel, os Media têm de se adaptar para não morrer.

Tendo em conta os fenómenos já não tão recentes das notícias falsas, qual acha ser a forma do jornalismo independente de presença online se distinguir desse mesmo fenómeno?

Eu sou daqueles que diz que sempre houve manipulação de factos. Torcer a verdade é uma artimanha velha como o Mundo. Não vejo nada de novo nisso a que chamam fake-news. A única coisa que muda é o impacto que hoje têm as fake-news em relação ao passado. Há uns anos, uma notícia falsa influenciava eventualmente o pensamento dos leitores do jornal, um universo de algumas dezenas de milhar de pessoas, na melhor das hipóteses. Hoje, uma aldrabice postada no Facebook e devidamente partilhada pode influenciar as decisões de milhões de leitores.

O antídoto para isto é manter toda a honestidade na informação que fornecemos. Por exemplo, recentemente dei início a um site que se chama Duas Linhas (https://duaslinhas.pt/) e estou a tentar fazer com que cresça, que tenha leitores. A minha linha editorial é a que está lá patente: “Respeitamos a ética jornalística, a Lei da República de Portugal e a Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas. Não somos imparciais porque distinguimos entre o bem e o mal e não aceitamos pactuar com pessoas, organizações ou ideias racistas e xenófobas.” Quem ficar a ler os conteúdos do site sabe, assim, quais são as nossas balizas orientadoras. Não há nada mais transparente.

Pelo trabalho que tem feito nos últimos anos, acha possível a existência de um jornalismo independente, que seja produzido e distribuído para além das balizas do grande capital e dos governos?

Acho possível e luto por isso, mas sei que é uma luta de loucos, somos Dom Quixote contra os moinhos de vento, somos Bartolomeu Dias a dobrar o Cabo Bojador, somos Luke Skywalker na guerra contra o Império. Que a Força esteja connosco.

O Carlos Narciso, para além do seu novo site duaslinhas.pt, também tem lançado inúmeros vídeos na sua página de Facebook que valem mesmo a pena ver…

One comment

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s