Estará a reacção de volta?

Nas últimas semanas realizaram-se uma manifestação a que eu gostava de ter ido e uma outra contra a qual me levanto aqui.

Desde há muitos anos que não se poderia chamar reaccionária a uma manifestação da direita. Não se trata de adocicar a direita que há. Trata-se de medir o novo passo que a sociedade portuguesa, a acompanhar o que se passa com toda a nossa área civilizacional, está a dar.

Tão reaccionária foi a manifestação que foi repudiada oficialmente pelo PSD e pelo CDS, partidos que já viram recentemente, e ainda vivem, os resultados eleitorais negativos que resultam de assumir os impulsos colonialistas e autoritários. A manifestação reaccionária reagiu à espontaneidade da mobilização contra o racismo espoletada pelo movimento Black Lives Matter que renasceu, mais uma vez, em torno das mesmas cenas de assassinatos na via pública por agentes dos estados norte-americanos.

O que é esperançoso nesta situação é que, por uma primeira vez que há que repetir, houve uma iniciativa popular contra o racismo em que os sobreviventes foram acompanhados por gente que lhes reconhece a opressão quotidiana que a generalidade dos que se imaginam brancos não reconhecem.

Comparados com os albinos, não há ninguém branco, no sentido da cor da pele. Branco, portanto, é um erro de auto-apreciação muito vulgar, até em pessoas de cor, que se imaginam ter nascido para serem dominantes. Dominação, claro, que também é ela mesma um erro de auto-apreciação. Os portugueses, sobretudo os europeístas, aprenderam (ou talvez não) com a campanha xenófoba criada pela senhora Merkel (parece que se arrependeu, depois, mas o mal ficou feito) para fazer da Alemanha um estado beneficiário da falência do sistema financeiro global, em 2008. “Os pobres que paguem a crise!”, poderia ter sido a sua palavra de ordem, se ela fosse reaccionária. Ela nunca foi reaccionária: ela é líder do projecto neoliberal, que não conta com oposição (talvez conte com alguma resistência) da esquerda europeia. Os comentadores financeiros traduziram a palavra de ordem como PIGS (porcos, em inglês) para designar os países do Sul da Europa. Prova da desnecessidade de haver reacção da senhora Merkel, nenhum protesto foi elaborado por nenhum estado ofendido. Se quem não se sente não é filho de boa gente, ficámos a saber, então, com o que podíamos contar. E com o que continuamos a contar. Ser tratados como porcos.

“Portugal não é racista!”, portanto, foi a palavra de ordem cobarde que os neo-nazi-fascistas (mal) disfarçados de democratas escolheram para manifestar o perdão das ofensas dos poderosos e, ao mesmo tempo, fingir negar, afirmando, o racismo nacional. Outros, como a Santa Casa e a Câmara de Lisboa, preferiram, em 2017, erigir uma estátua a explorar a infância (o que seria proibido em publicidade) e o prestígio intelectual do Padre António Vieira para cativar o racismo nacional para dentro da democracia. Outros ainda, comentadores que nunca deram pela existência democrática de racismo em Portugal, elevaram ao estatuto histórico aquela merda de que nunca ninguém antes ouvira falar. Elevaram a acto inter-institucional menor de aliança entre a desacreditada direita do Santana Lopes e a esquerda gestionária do seu legado a uma interpretação histórica legítima do que se passou no século XVII.

João Batista de Lacerda foi o médico brasileiro que em 1911, ainda Gilberto Freire era menino, esteve no Congresso das Raças, em Londres, para apresentar a sua teoria/projecto de branqueamento da raça brasileira. A ideia era levar machos europeus para cobrir as mulheres não brancas, pois, dada a dominância dos traços masculinos e brancos, por esta altura já não haveria mais ninguém que fosse não branco no Brasil.

A mera observação das realidades de hoje, no Brasil e em Portugal, permite-nos concluir, sem testes de ADN, que a supremacia branca não é nem genética nem social: as fomes, as guerras, os genocídios, as misérias, as imoralidades, as discriminações, as conspirações, as mentiras, continuam a ser propagadas a partir da sede do império e das suas sucursais. Sejam os presidentes e ministros brancos ou pretos. Para saber onde estão as sucursais, basta saber onde está o dinheiro. O racismo, como todas as outras discriminações, desvalorizam a dignidade, a vida, o património, a existência, a humanidade, para enriquecer uns poucos. A manifestação a que aqui me quero juntar é um passo para um dia nos podermos reunir mais e melhor, para darmos um fim nas discriminações.

PS: chamo racismo ao uso político da xenofobia para dividir e reinar. O racismo não é só contra os negros. É também, por exemplo, contra os ciganos e contra os povos primeiros americanos, que se reinventam há 400 anos em culturas de liberdade próprias das resistências aos genocídios persistentes que enfrentam.

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