Porque Portugal é Tão Corrupto?

Falar de corrupção no nosso país é quase como falar transversalmente de todos os setores da economia e do Estado em simultâneo, de tal maneira está já generalizada e até aceite pela sociedade portuguesa. Porque somos um povo de brandos costumes e simultaneamente um povo que ainda luta por condições básicas de sobrevivência económica, a corrupção coexiste, muitas vezes, lado a lado connosco, ou até promiscuída com as nossas vidas quotidianas. No entanto, temos tendência para a desconsiderarmos por ser algo aparentemente exterior a nós, às nossas vidas simples, mas na realidade, com frequência, a corrupção pode estar até instalada no seio das mais pequenas empresas, perpetrada, por exemplo, pelos nossos próprios superiores hierárquicos diretos.

A corrupção progride exponencialmente em Portugal, essencialmente pela mão da corrupção política local, nacional, europeia e internacional. E os políticos criaram um sistema de proteção da corrupção muito eficaz, baseado na mentira, na dissimulação e no posicionamento estratégico de elementos e redes ligadas maioritariamente à Maçonaria e à Opus Dei em todos os setores da sociedade e em posições político-financeiras-chave. Deste maneira, mesmo quando um elemento ou uma rede é apanhada, por se encontrar já tão generalizada, imediatamente o “buraco” é tapado por substitutos, que minimizarão o impacto negativo das perdas. Depois, os mesmos infiltrados garantem que a Justiça seja lenta, tão lenta e burocrática que por vezes, processos de corrupção gravíssimos prescrevem administrativamente, “estagnados” estrategicamente algures na mesa de algum magistrado ou de algum oficial de justiça. A título de curiosidade, o célebre ditado português (imortalizado na boca do ator António Silva no filme “O Leão da Estrela”)“o segredo é a alma do negócio” – revela e sacraliza o secretismo luso da corrupção das poderosas sociedades secretas da política e da economia.

Depois cabe aos noticiários bombardearem as audiências com tantos e tão graves casos de corrupção, que na sua grande maioria ficam sem penas aplicadas na justa medida da gravidade da corrupção, para que os portugueses se sintam como meros observadores passivos de um sistema podre, cancerígeno, tóxico, onde as mentiras políticas bastam para desviar as atenções da verdade por detrás da teia. E assim se vão habituando as audiências, como carneiros, a aceitarem que a corrupção em Portugal é algo real, mas tão disseminada e complexa que as nossas ações jamais poderão exterminá-la. E esta passividade é própria de países pobres, onde a corrupção se dissimula facilmente por detrás de homens impecavelmente vestidos, homens que usam gravatas, botões de punho e sapatos de couro impecavelmente engraxados, pois tudo já é corrupção.

E por isso a cidadania funciona mal no nosso país, porque somos limitados economicamente e porque os políticos sabem que enquanto mantiverem a maioria da população na pobreza, não terão pessoas instruídas a lutarem civicamente contra os seus esquemas económicos. Dos casos mais graves como o suborno ou extorsão, às simples luvas ou troca de favores, o cidadão português vai sendo posto à prova ao seu grau de tolerância ao crime político-económico. Mas com a expansão das redes sociais, temos assistido a um debate futilmente dialético sobre a ideia de corrupção, uma bipolarização clara entre esquerda e direita, entre defensores de políticas seculares sociais de igualdade e valores ambientais contra um liberalismo de génese capitalista, individualista e indiferente ao verdadeiro conhecimento científico e à tão esperada sociedade evoluída e futurista. E por a opinião pública estar ainda tão fortemente bipolarizada, o estigma português não nos deixa evoluir para uma sociedade onde seja realmente aplicada justiça sobre os corruptos. Porque afinal, também esta falsa estratégia dialética mais não é do que uma das muitas ferramentas utilizadas pelas mesmas redes políticas corruptas.

Esta é uma das principais razões pelas quais em Portugal quase não existem leis contra a corrupção política. Porque isso seria matar o próprio país, mataria digamos o “negócio” em si. Seria como querer matar um organismo impregnado de cancro. Matar o cancro implicaria matar o organismo, ou seja, seria a morte de Portugal. Por isso, desenganem-se os que pensam que algum dia a União Europeia obrigará países como o nosso a implementarem leis severas contra a corrupção de Estado. Um claro exemplo disso mesmo, foi a saída do Reino Unido da UE. Os decisores ingleses e os homens de negócios, preferiram de longe, deixar os seus negócios “sujos” da City de Londres intocáveis, afastados dos tribunais europeus, porque sem a lavagem de dinheiro em paraísos fiscais, coordenada desde Londres, a sua economia, pura e simplesmente, colapsaria.

Por isso mesmo a China, resolveu tomar de assalto Hong Kong, o maior interposto de lavagem de dinheiro internacional instalado no Oriente, por ingleses, desde o tempo das Guerras do Ópio. Mas ao contrário dos ingleses, que movem quantidades astronómicas de dinheiro, a corrupção portuguesa vai, muitas vezes, da contratação da empresa criada por um familiar só para fornecer papel higiénico a determinada empresa multinacional ou a determinada instituição pública, até aos contratos de alguns milhões para fornecimento de frotas de viaturas de luxo para os vários Ministérios. Ou, naquele caso que bem conhecemos, no fornecimento de submarinos que não têm qualquer utilidade prática na nossa política nacional.

Podemos, portanto, concluir que de uma forma consensual os portugueses são aversos à corrupção, mas que este sentimento é, na maioria dos casos, meramente valorativo, simbólico ou conceptual. Por si só, não altera a inércia da Justiça face a casos graves conhecidos. Quando vemos as notícias nas televisões, achamos escandalosos certos tipos de corrupção, ficamos boquiabertos, paralisados momentaneamente, levamos as mãos à cabeça, mas cinco minutos depois estamos mais preocupados com a nossa refeição ou com os resultados do jogo de futebol do dia anterior. E na maior parte dos casos, nem sequer voltamos a falar no assunto, depois de decorridas 48 horas sobre a notícia. Na Islândia os cidadãos saíram à rua em protesto em pleno inverno e não arredaram pé enquanto os políticos não encarceraram todos os banksters envolvidos nos ativos tóxicos que levaram o país à bancarrota.

Em Portugal o BES mentiu e vendeu ativos tóxicos a portugueses que ali tinham investidas as suas poupanças de uma vida e nada acontece. A mensagem que se pode tirar deste grave exemplo é que os políticos portugueses não incluem na equação das suas ações diárias na Assembleia da República, a defesa dos interesses do povo. Um político português hoje, é um burocrata que fomenta meramente a criação e aplicação de leis que permitam aos grandes grupos económicos, poderem operar em território nacional para que eles, os políticos, possam receber a sua parte do lucro, em taxas ou impostos. Onde melhor se vê este tipo de política causa-efeito é no Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde as contrapartidas de negócios de biliões internacionais, são muitas vezes negociados em reuniões institucionais, onde são muito bem definidos os negócios e as respetivas contrapartidas, em segredo, longe da participação do povo.

Mas a máquina oleada da corrupção foi criada durante o Salazarismo e foi uma ferramenta essencial durante o Estado Novo para manter afastado o povo, das decisões dos políticos. A PIDE assegurava o medo dos que ousassem colocar em questão as decisões dos políticos, que por sua vez, obedeciam cegamente a Salazar e este aos conselhos de ouvido que os seus conselheiros recolhiam junto das famílias mais abastadas de Portugal, as quais, literalmente, eram donas dos principais negócios da altura não só em Portugal mas no Ultramar, proprietários também das propriedades mais bem localizadas junto à costa litoral, de que é exemplo a pequena localidade salazarista São Pedro de Moel, em Leiria, Colares ou Praia das Maçãs em Sintra, onde se localizavam muitas casas de veraneio de figuras ilustres da época. O português habituou-se a obedecer, a calar, a observar em silêncio e a quase não julgar, durante este período de opressão da história nacional.

Mas agora, em pleno período liberalista, os políticos servem-se do capitalismo selvagem e do caos social para fazerem passar os seus negócios milionários. E o povo agora, já não amordaçado pela polícia política, encontra-se igualmente impotente entre a sua luta diária pela sobrevivência económica e a corrupção super-generalizada que o esmaga, e para a qual, ele reconhece, nem a Justiça consegue controlar. Por isso, entre um sistema de silêncio e um sistema de ruído, os políticos portugueses souberam sempre encontrar um caminho por entre as gotas da chuva. E tal como as gotas da chuva são minoritárias para o ar, os cidadãos e as cidadanias várias, não conseguem impedir o “ar”, de fluir entre as insignificantes gotas da chuva. Aproveitando-se da baixa literacia do povo, do baixo nível de associativismo cívico e da débil economia familiar da maioria da população, o político português goza de um estatuto privilegiado de “barão”, de burocrata, de homem semi-divino. Se a isto juntarmos a complexa linguagem jurídica dos tribunais e dos advogados, o resultado é o de um total desinteresse no seguimento dos inúmeros casos de corrupção do nosso país. Ao povo apenas interessa a parte do populismo, da intriga, do ódio, ainda que daí não resulte qualquer ato de justiça social.

E por isso os políticos riem-se do sistema criado por eles próprios, um sistema democrático-corrupto, no qual eles sempre estiveram, estão e estarão no centro da teia do dinheiro. E o povo, na periferia, sentado, observando passivamente da plateia. Porque é no palco, na política, onde tudo se passa. E muito do espetáculo é preparado meticulosamente nos bastidores e nos camarins destes personagens barrocos, que vivem rodeados de pequenos e grandes privilégios desta sociedade fechada que elegeu o dinheiro como sua força divina. E estes agentes da corrupção minam os valores primordiais da democracia e de transparência, legalidade, justiça, igualdade, imparcialidade, livre concorrência e integridade. Uma sociedade corrupta é pobre de valores e de justiça social, tende a sucumbir e a auto-destruir-se ou ser destruída por grupos económicos internacionais que vêem nas mentalidades mesquinhas e pequeno-burguesas uma oportunidade para continuarem a sua cruzada de destruição social em direção ao abismo económico global. E é aí mesmo onde estamos neste momento histórico da humanidade: num mundo à beira de uma hecatombe de problemas originados pela ganância dos negócios da corrupção político-económica.

Para os que gostam deste tema, deixo aqui uma sugestão de leitura para as férias de uma pequena obra que de pequena nada tem, por se tratar de uma excelente síntese. É o livro “Corrupção” de Luís de Sousa da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Texto de Pedro M. Duarte

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