A Problemática da Fraca Qualidade dos Lares em Portugal

Perante a polémica instalada no gabinete do Primeiro-ministro, esta semana, no seguimento da inspeção do Ministério Público ao lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva onde faleceram até ao momento 18 idosos urge fazer alguma análise sobre a qualidade dos lares em Portugal. A verdade que é bem conhecida, pelos casos graves que têm vindo a público nos últimos anos, mostram um país atrasado, sem respeito pela condição humana em tão frágil momento da vida dos que têm de recorrer a este tipo de serviço social nos seus últimos anos de vida em que se encontram sozinhos ou impossibilitados de ter uma vida auto-suficiente.

As situações mais recorrentes e degradantes que se encontram na maioria dos lares em Portugal e que por si só, são desde logo responsáveis por inúmeras situações humanamente e medicamente graves são a de utilização de muita mão-de-obra não especializada, mais barata portanto, mas sem preparação ou formação minimamente suficientes para fazer face às exigências do tratamento adequado dos idosos, que requerem inúmeros cuidados médicos, de higiene, lúdicos, pedagógicos, psicológicos, ortopédicos e fisioterápicos, de entre outros mais específicos. Esta mão-de-obra tem sido apontada como a principal fonte de contaminação por Covid-19 dos seus utentes. São na maioria pessoas que se deslocam em vários transportes suburbanos, as piores fontes de contaminação viral, sendo que algumas delas não revelam grandes preocupações no distanciamento ou na rigorosa aplicação da máscara ou de regras de higiene no contexto da pandemia.

Relativamente à prestação dos serviços nos lares, as refeições, por exemplo, são entregues muitas vezes ao critério de cozinheiras que, na maior parte dos casos, não têm as mais elementares noções de dietética sénior, alimentando os utentes com sopas com excesso de sal, batatas fritas, carnes inadequadas e gordurosas, poucos legumes, e sobremesas artificiais compradas nos supermercados mais baratos da zona, em doses que dariam para alimentar duas ou três pessoas de idade. Nalguns casos passa-se o oposto e as refeições são reduzidas a mínimos a tal ponto que os idosos nessas instalações apresentam muitas vezes sinais de emagrecimento exagerado e subnutrição. E estes casos são muito mais do que se imagina, sobretudo para aqueles utentes que não têm familiares ou que não recebem visitas. Na realidade, os lares em Portugal são, muitas vezes, “casas da morte”, a última paragem antes do cemitério, onde se amontoam pessoas em quartos exíguos e salas com cadeiras e cadeirões tão juntos, que mais parecem unidades industriais.

Muitos administradores esfregam as mãos cada vez que conseguem mais uma “vítima” na sua “linha de montagem” e a indiferença pelas mortes semanais de utentes não alteram em nada o funcionamento desta verdadeira “indústria” de fazer dinheiro. Pessoalmente tenho-me deslocado a alguns lares, sempre que vou fazer visitas a familiares ou amigos e a experiência raramente é minimamente agradável ou até aceitavelmente satisfatória. O tradicional cheiro a urina revela desde logo a falta de higiene diária apropriada na maioria destas instituições e logo de seguida o contacto com algum pessoal permite perceber a genérica falta de preparação profissional, sobretudo do pessoal auxiliar bem como a frieza de alguns administradores. As salas onde ficam amontoados durante a maior parte do dia a olhar passivamente para a televisão ou a dormitar deixam transparecer, quase sempre, um ambiente depressivo, um silêncio “de morte”. E as atividades, quando existem, obrigam a maioria das pessoas a não poderem optar, sendo obrigados a executá-las como se estivessem sob um regime militar.

Quanto mais para a província pior, dado que nas zonas mais rurais as pensões são tendencialmente menores por os idosos terem descontado menos para a segurança social, normalmente fruto de baixos salários. Claro que existem exceções e por vezes, algumas destas instituições podem surpreender pela qualidade e profissionalismo do seu pessoal. Mas pode-se afirmar sem quaisquer receios de falhar, que são casos muito raros no panorama nacional. No final do dia o que interessa aos políticos é terem relatórios de números e estatísticas que tenham um balanço positivo que se possa apresentar nas comissões europeias, por representantes de Portugal devidamente engravatados e perfumados, e tudo fica bem, perante a UE. Mas para estes idosos a qualidade do serviço que recebem está a milhas dos cuidados reais que, por exemplo, os países nórdicos prestam aos seus cidadãos. Claro que falamos de países mais ricos, mas na maior parte dos casos, a problemática da falta de qualidade dos lares em Portugal prende-se apenas com uma má gestão ou uma gestão fria, desumana, que apenas vê no negócio a perspetiva economicista da maximização do lucro e da minimização da despesa. A juntar a isto, a falta de fiscalização regular com maior periodicidade leva a que muitas destas instituições se tornem em verdadeiras “antecâmaras da morte”. Pior ainda, uma morte acelerada, face à pandemia, em que os mais idosos são vitimas mortais potenciais.

O que a mim me parece lamentável é que a politiquice da situação dos lares tenha desviado a verdadeira atenção da falta de qualidade generalizada destes serviços tão essenciais numa sociedade tão envelhecida como a portuguesa e se tenha centrado num argumento mesquinho de um off the record de António Costa a chamar “cobardes” aos médicos que se recusaram fazer a inspeção no lar de Reguengos de Monsaraz ao abrigo das obrigações da Ordem dos Médicos. O que aliás deverá ter sido intencional, ou seja, procurar desviar a atenção das questões de fundo que estão a originar a morte de tantos idosos nos lares de Portugal, mais do que em qualquer país europeu.

Texto de Pedro M. Duarte

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