La Línea, a Cidade que Enfrentou o Tráfico de Droga de Marrocos

A pequena cidade La Línea de la Concepción, que liga Espanha a Gibraltar foi durante as últimas duas décadas o maior ponto de entrada de haxixe, tabaco de contrabando e, mais recentemente cocaína, em Espanha e para o resto da Europa. Durante anos o Governo espanhol e a Junta Regional de Andaluzia pouco ou nada fizeram para controlar o tráfico de estupefacientes originários do Norte de África, mais propriamente de Marrocos, atualmente o segundo maior produtor de haxixe do mundo, apenas superado pelo Afeganistão e o primeiro fornecedor de cannabis. Segundo um estudo realizado em 2003, 70% do haxixe consumido nesse ano na UE tinha proveniência marroquina, país onde a sua produção é oficialmente proibida, mas tolerada. Cultivado nas zonas altas, aí é embalado e conduzido em pequenos transportes, geralmente utilizando animais de carga até às praias, onde a polícia corrompida pelo dinheiro faz vista grossa aos carregamentos de centenas de quilos em lanchas rápidas de borracha, equipadas com super-motores, GPS e radar.

O volume de tráfico é tanto em toda a Costa Sul de Espanha que o tema já é abordado em filmes de sucesso como El Niño (2014), El Silencio del Pantano (2020) ou na série sobre “la vida loca” de Ibiza White Lines (2020). Acabada de chegar da Netflix é também a série-documentário, filmada em colaboração com a polícia, entidades judiciais e policiais locais La Línea la sombra del Narco, quatro episódios onde se revela como a vontade dos habitantes e do Presidente da Câmara Juan Franco conseguiram reunir uma força policial numa operação de dois anos que deu um golpe severo ao maior clã de traficantes daquela cidade. Em 2019, cerca de 600 agentes em terra, no mar e no ar, conseguiram desmantelar os cabecilhas do que restava do “Clãn de los Castaña”. Originalmente tinham sido liderados por António Tejón, “el Castaña” e depois pelos seu irmão Francisco Tejón, “el Isco” mas após a prisão sucessiva dos dois barões do clã e de Samuel Crespo encarregue da “lavagem” de capitais, a Polícia e a Guardia Civil Espanhola viram a sua tarefa mais facilitada, face à desorientação depois da organização criminosa perder os seus dois líderes mais emblemáticos.

Sendo Gibraltar a zona mais próxima da costa marroquina, foi eleita como o ponto preferencial de desembarque do tráfico, cuja entrega é feita por via marítima em lanchas rápidas. Com o passar dos anos, a organização expandiu a sua rede de um lado e de outro do Mediterrâneo e o Clã dos irmãos Tejón acabou por dominar outros grupos menores. Residentes maioritariamente no bairro de La Atunara, os recetores dos fardos de haxixe, tabaco e cocaína organizam-se normalmente em grupos de 15 a 20 homens para cada lancha. Um ou dois veículos todo-o-terreno recebem a mercadoria e pôem-se em fuga rápida para pontos determinados dentro da cidade através da Calle Canarias, espalhando e escondendo rapidamente o produto por bairros nas proximidades.

Sem mandatos de busca específicos, durante anos, a polícia nada podia fazer para apreender a droga escondida nas habitações. A sua ação passava por patrulhar o mar por helicóptero, já que não estão autorizados a abater as lanchas de borracha e tentar coordenar com as equipas de terra a prisão dos tripulantes dos barcos e dos recetores nas praias onde efetuavam as entregas. Mas este método exige demasiado esforço face aos resultados obtidos. Em muitos casos a polícia mediante certezas efetivas, chegou a ver mandados de busca domiciliários não emitidos por juízes, talvez, também eles corrompidos pelo gigantesco polvo do mundo da droga em Espanha, que movimenta muita da economia do sul daquele país.

Cansados de assistir passivamente, os cidadãos de La Línea, reelegeram novamente o seu Presidente de Câmara Juan Franco e o seu programa “La Línea 100×100”, nas eleições autárquicas de maio de 2019, como forma de reconhecimento pelo seu esforço em combater estas perigosas redes criminosas, que cresceram exponencialmente nos últimos anos. A reinstalação de um sentido de Estado de Direito face à anterior impunidade criminal do Clã de Los Castaña deixou os habitantes da zona um pouco mais tranquilos. A rede estava perfeitamente instalada e organizada desde os chamados “puntos”, ou vigias que se localizavam nas açoteias das casas para controlarem em tempo real todos, absolutamente todos os veículos da polícia na cidade, passando pelos pilotos de embarcação, recetores de praia, armazenistas, logística, distribuidores, branqueadores de capitais, chefe de terra, até ao último cargo, o de líder da organização. Depois da prisão de António Tejón, o primeiro grande êxito das polícias espanholas, o seu irmão Francisco entrou no videoclip de reggaeton cubano “Candela” desafiando as autoridades e publicitando o seu poder. Foi cercado pouco depois tendo-se entregado às autoridades, embora negando todas as acusações.

Nos últimos anos a rede de cocaína proveniente de países do Norte da América do Sul é introduzida em África através do Senegal via marítima seguindo por terra até Marrocos onde utiliza os meios sofisticados entretanto montados pelas redes marroquinas e espanholas de tráfico de haxixe e tabaco. Estas redes e meio sofisticados estão também a ser utilizados para tráfico humano servindo como mais uma variante de fazer dinheiro fácil utilizando recursos já existentes e que estão a tornar-se num verdadeiro quebra-cabeças para os líderes políticos europeus. O tráfico de refugiados é a nova droga destas redes. Tudo serve para fazer dinheiro através das lanchas rápidas de borracha. Mas a criação recente de um grupo especial de investigação e intervenção de polícias espanholas designada como OCON-Sur mobilizou um dispositivo estratégico que integrou mais 346 agentes e 112 veículos num investimento total de 7 milhões de euros.

A Playa de la Atunara, considerada o epicentro de entrada de droga europeu, sofreu assim um duro golpe enquanto principal ponto de desembarque. De tal forma que os traficantes, terminada a operação tiveram de encontrar outras zonas de desembarque na Província de Huelva. Durante a operação a polícia apreendeu centenas de armamento pesado, metralhadoras AK47 (a famosa Kalachnikov) e milhares de munições de 7mm, utilizadas em cenários de guerra. Segundo relatos de alguns polícias envolvidos nesta força policial, o que viram deixava claro que, se a Europa não intervier rapidamente nestas redes, vai perder o controlo sobre as suas sociedades civis e criar um mundo de impunidade muito semelhante ao que já se vive em quase toda a América do Sul. Venezuela, Colômbia, Panamá, México, Nicarágua, Brasil ou Argentina são alguns exemplos de sociedades totalmente indissociáveis deste tipo de criminalidade super-organizada.

Além do caos social que podem instalar pelo ambiente de impunidade e insegurança que geram, estas redes minam também os valores essenciais positivos do ocidente, lançando gerações de jovens numa dependência de drogas que corrompe o já tão frágil equilíbrio democrático e social europeus. Todo o sul de Espanha depende já desta economia criminosa e da lavagem de dinheiro. E Gibraltar não está inocente neste processo. Muito do dinheiro resultante deste tráfico de estupefacientes é ali lavado e transferido para empresas e para bancos sediados em paraísos fiscais e em Londres. Não é por isso de espantar que nos últimos 15 anos, o sul de Espanha tenha visto um progresso tão grande na construção, sobretudo hotéis e empreendimentos de luxo junto à costa ou até pela construção de peças de arquitectura dispendiosas de arquitectos mundialmente conhecidos, como é o caso de Sevilha, capital da Andaluzia, onde se centra todo o poder económico da região e um dos maiores centros de distribuição de droga para toda a Europa.

A operação centrada no bairro La Bajadilla (Algeciras) e em La Línea acabou por desmantelar não apenas o Clã de los Castaña com um grupo que com eles colaborava, a Máfia italiana Ndrangheta, esta também com ligações ao Tráfico oriundo da Tunísia, via Malta e Sicília (a cidade italiana de Gela, por exemplo, é um dos maiores pontos de desembarque pela proximidade com o Norte de África). Curiosa é a degradação com que vivem no interior das suas casas estes traficantes, onde guardam molhos de notas até de 500€, investindo todo esse dinheiro apenas em veículos de luxo e em casas abarracadas ou de mau gosto, sem qualquer conforto no seu interior. E à sua volta, apenas deixam um rasto de decadência, medo e anarquia. Enquanto isso, as famílias poderosas de Espanha, Inglaterra e por toda a Europa vão enriquecendo à custa da lavagem deste dinheiro sujo. Toda uma economia hipócrita baseada numa rede internacional de traficantes que nem sequer sabem usar com estilo o dinheiro que possuem. Evidentemente não existe vontade política, a não ser pontualmente como em La Línea, para acabar com esta máquina que gera dinheiro tão fácil, tão facilmente injetado nas economias e nas sociedades europeias.

Texto de Pedro M. Duarte

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