A serpente científica

texto inspirado na entrevista a Donna Haraway

Foucault argumenta: não há saber sem ser financiado e comprometido com alguma forma de poder. Então, tudo quanto seja saber que não serve o poder é impossível: é inimaginável; é reprimido e impedido. Logo, o saber é sempre um auxílio ao poder e, como tal, há que suspeitar e condenar: descobrir os logros e dissimulações que validam uma verdade ficcionada ao serviço dos poderes reais.

Este pessimismo estrutural não se justifica. A presença de vida, ainda que seja muito exigente do ponto de vista das condições ambientais, existe mesmo: nós somos prova disso. Mutatis mutandis, a sabedoria (incluindo a ciência) tem melhorado, apesar da condição de independência ser fundamental para que se desenvolva. Paradoxalmente, é o império, a organização diferenciada do poder das elites, o instrumento da evolução cognitiva em disciplinas, ao mesmo tempo reclusas das respectivas especializações e abertas ao mundo e à vida. Qual Fénix, o conhecimento emerge da merda (que melhor pode ser pensada como húmus) como a vida emergiu dos oceanos, dos vulcões, dos meteoritos, no cosmos.

Para ser mais concreto: as sociedades modernas resultaram (diz o Foucault, e eu acho que diz bem) de um grande encarceramento (primeiro das elites em Versailles, no século XVI, e depois, sucessivamente, incluindo mais gente e grupos sociais, à medida que se foram integrando e submetendo aos estados e à lógica imperial que os legitima). A ciência viveu o grande encarceramento organizado pela Inquisição e pelas Universidades. Isso não impediu que a cultura de salão (das aristocracias) apoiasse a ciência recreativa (ou de guerra, como no caso da medicina) abrindo espaços de liberdade renascentista, apesar das disciplinas se começarem a impor para melhor se desenvolverem.

Depois da II Grande Guerra, as políticas científicas belicistas (o maior financiador de ciência é a NATO e os militares norte-americanos) impuseram a ciência centrípeta (tecnociência ultraespecializada, desconsiderando as discussões conceituais) focada em fazer modelos matemáticos competitivos, isto é, performativos, úteis para algum efeito prático que possa recompensar as elites e os cientistas (direitos de autor e de patentes). A ciência centrípeta é uma política de repressão da imaginação conceptual dos cientistas, acompanhando o grande encarceramento da imaginação dos trabalhadores, das massas, através da universalização do ensino e a democratização do ensino superior. A ciência nas escolas e universidades é ensinada como se fosse um receituário de soluções para problemas práticos, realizadas pela conjugação de materiais e técnicas profissionais manipuladas por gestores, como numa empresa, escondendo a arte de fazer perguntas encadeadas umas nas outras que é, de facto, o que a ciência acrescenta aos dogmas e aos ofícios.  

Porém, a ciência centrífuga (a que desconsidera as fronteiras disciplinares e a que cuida de juntar aos modelos matemáticos e às experiências práticas os estudos conceptuais) continua a vingar. Não fosse esse o caso, porque haveria necessidade de reprimir cientistas, isolando-os e sujeitando-os às avaliações, e sansões profissionais e pecuniárias que estão em vigor nas respectivas carreiras?

Então, o que há a fazer, mesmo nas condições actuais de degradação da situação política contra a ciência? Sobretudo nas actuais condições de degradação da humanidade pela hegemonia política do ódio contra a humanidade e de falta continuada de respeito pela vida e pela morte do que não é recuperável, como parece ser o caso do ambiente que foi mais favorável à presença de humanos na Terra, uma das coisas que se pode fazer é chamar a atenção de que existe dentro da ciência quem reclama contra a ciência que se faz. Não são apenas os que optaram por privilegiar a irracionalidade e a violência quem se opõe à violência e à irracionalidade da ciência centrípeta. Tal como há judeus contra a política belicista e genocida de Israel, também há cientistas contra a ciência hegemónica, dentro e fora das instituições científicas. Chamar a atenção para a necessidade urgente de recuperar o prestígio da ciência em nome da ciência centrífuga reprimida pelas políticas científicas e pelos cientistas centrípetos que as concretizam dentro das instituições científicas pode permitir que mais cientistas adoptem práticas centrífugas e se reconhecem mutuamente como opositores da ciência centrípeta em nome de uma ciência mais completa, aberta e humilde perante outras formas de conhecimento.

O propósito da ciência centrífuga e dos conhecimentos mais sábios de que a humanidade deve aprender a cuidar é a liberdade de produzir e testar conhecimentos, sem subordinação às elites, ainda que as instituições científicas sejam financiadas e defendidas por elas.  

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