O Aberrante Casino-Hotel Chinês em Cabo Verde

O projeto do Casino-Hotel (já em construção) no ilhéu de Santa Maria, na capital de Cabo Verde, Praia

Cabo Verde é um arquipélago de dez ilhas vulcânicas localizado a cerca de 570 quilómetros da costa ocidental africana com uma área de aproximadamente 4.000 km2 e uma população que por pouco ultrapassa o meio milhão. As suas calmas praias paradisíacas contrastam com a arquitetura pobre e urbanismo mais ou menos desregrado. Contendo alguns locais de paisagens vulcânicas e costeiras únicas, Cabo Verde tem, no entanto, sofrido de um desenvolvimento “possível”, em condições económicas difíceis embora num contexto cultural complexo e rico por um lado, historicamente empobrecido por outro, devido a experiências passadas da exploração do seu povo e pela descolonização portuguesa não planeada, desde 5 de julho de 1975. Nos últimos anos, o país tem-se desenvolvido, com base essencialmente numa economia virada para o turismo da natureza, da exploração das suas praias e de investimento estrangeiro.

Pela sua localização geoestratégica, este arquipélago foi ocupado por inúmeros povos ao longo da história. No século XV os exploradores portugueses colonizaram as dez ilhas e aí estabeleceram o primeiro entreposto europeu nos trópicos. Comercializavam essencialmente escravos, um “negócio” extremamente fácil e lucrativo. Por isso mesmo a ilha chegou a ser atacada por corsários e piratas, inclusivamente pelo famoso Sir Francis Drake, por volta do ano 1580. Também por ali passou Charles Darwin, na sua expedição de 1832. Com a independência, muitos cabo-verdianos emigraram para países como Portugal, mas também para outros países na Europa, América e África Continental. Atualmente a população residente no exterior estima-se em aproximadamente meio milhão, ou seja semelhante aos atuais residentes no seu próprio território. O seu clima quente todo o ano e as suas paisagens ainda “virgens” na sua maioria como as da Ilha do Sal, tem atraído cada vez mais investidores sobretudo na área do turismo. Mas também o seu gosto pela música, uma herança cultural que tem sido fortemente explorada com êxito e que tem fortalecido em muito a alma deste povo privilegiado e abençoado com um território de rara beleza e diversidade.

Na comemoração dos 45 anos de independência, neste ano de 2020, o Presidente Jorge Carlos Fonseca discursou sobre os ganhos e conquistas de Cabo Verde desde a independência, realçando que o país podia estar mais desenvolvido e avançado, mas que nas duas últimas décadas se deram passos importantes na estruturação política, social, educacional, tecnológica, cultural, económica e nos transportes, que serão determinantes para um futuro simultaneamente mais desenvolvido e sustentável. A sua conferência de imprensa foi realizada simbolicamente na ilha de Santiago, aquela que se encontra mais desenvolvida turisticamente e onde se localiza a capital do arquipélago – Praia. O Presidente aspira a que o seu povo venha a estar no grupo dos que têm um rendimento médio aceitável, mas não à custa da perda da liberdade, da democracia, da justiça, da igualdade e da inclusão. Neste sentido, a política cabo-verdiana é moderna e progressista e encontra-se em crescimento. Mas socialmente enfrenta-se a combater a violência doméstica contra mulheres e crianças e a imparidade, ou seja, a ainda reduzida participação de mulheres na política, tudo problemas que se prendem com preconceitos culturais ancestrais. Também os contrastes da vida de trabalho em resorts de luxo de milhares de habitantes locais que, no final do seu turno, regressam à cidade do lixo, o bairro da Boa Esperança, tem sido criticado por muitas vozes. Mas mesmo esta pobreza acaba por ser um produto turístico, infelizmente. A autenticidade e simplicidade da vida destas pessoas, de parcos rendimentos, a sua alegria de viver e cantar, as cores garridas da sua arquitetura pobre, a diversidade de estilos de construção, a patine histórico-cultural presente nas diferentes ilhas, dá ao turista um universo criativo ideal para o Instagram. E este tipo de turismo é criticado por muitos locais, que ascendem a uma vida melhor.

A recente crise viral não veio, no entanto, facilitar a economia deste país de crescimento moderado. Pelo contrário, muitos empreendimentos pararam ou ficaram suspensos, atrasando investimentos de alguns milhões, que viriam melhorar a vida de alguns habitantes. Vivendo essencialmente do turismo e das minas de sal, as regras apertadas provocadas pela Covid-19 vieram restringir bastante a entrada de turistas, preocupados com questões de higiene, mais difíceis de garantir em países mais pobres.

E é neste contexto que surge o problemático investimento do grupo chinês Macau Legend no ilhéu de Santa Maria, na ilha de Santiago, bem no coração da capital de Cabo Verde. Um ilhéu que poderia valorizar bastante as praias históricas da capital (Praia), numa zona onde predominam alguns hotéis, mas que necessita de uma revalorização e requalificação. O empreendimento designado por Cape Verde Integrated Resort & Casino, ocupará todo o ilhéu, e ainda uma parte da Praia da Gamboa, numa massiva ocupação do solo a 100%, com uma arquitetura de fraca qualidade, muito ao estilo das arquiteturas do novo-riquismo de Macau e que nada tem a ver com as referências culturais arquitetónicas deste país. Num claro desrespeito pela natureza e pela paisagem, o projeto chinês inclui um casino e hotel de luxo e o acesso será realizado por um viaduto monstruoso, de forte impacto ambiental, desproporcional a toda a lógica construtiva de referência de Cabo Verde. Num total de 250 milhões este é já considerado o maior investimento alguma vez realizado no arquipélago, o que deixa, naturalmente, os políticos muito contentes. Mas o empreendimento fará refém também a zona marítima entre o ilhéu e a costa, zona destinada maioritariamente a uma marina e a praias privativas. Paisagem, fauna e flora arrasadas num ato único, em nome do desenvolvimento e do progresso. E o argumento para a destruição é sempre o mesmo: criação de mais postos de trabalho na construção civil, turismo e restauração.

A pandemia atrasou toda a execução da obra, pelo que apenas para finais de 2021 se preveja a inauguração do hotel-casino boutique, com 250 quartos, piscina de grandes dimensões, restaurantes, bares e comércio. O contrato assinado em 2015 levou ao lançamento da primeira pedra em fevereiro de 2016 e David Chow o gestor responsável, conseguiu assim inaugurar a indústria do jogo neste tranquilo país. O projeto ocupará 152.700 metros quadrados de paisagem e representa cerca de 15% do PIB cabo-verdiano, sendo o único investimento chinês na ilha, até à data. Em troca pelo investimento, Chow recebeu uma licença de exploração de 25 anos, 15 dos quais em regime de exclusividade na Ilha de Santiago, ou seja, sem concorrentes. Recebeu ainda a exclusividade de explorar jogo online em todo o país, e o mercado de apostas desportivas durante dez anos. O grupo Macau Legend opera diversos casinos em através da SJM (Sociedade de Jogos de Macau), empresa original de Stanley Ho. No entanto o grupo revelou recentemente estar com perdas avultadas, cerca de 22,3 milhões em 2019, o que fez com que David Chow perdesse o seu posto de CEO, ficando, no entanto como diretor executivo e copresidente do conselho de administração, um cargo essencialmente estratégico-político.

A obra trará claramente mais benefícios para o investidor chinês que para Cabo Verde. Enquanto o governo virá a receber muitos milhões por via direta em taxas e concessões e via indireta pelo investimento em vários setores, nomeadamente no jogo, turismo e restauração, o grupo investidor garante exclusividades várias num período total de 25 anos, que lhe dá margem de manobra para vários negócios lucrativos. Em nenhum momento, no entanto, o investidor se preocupou com o gigantesco impacto ambiental, muito menos com a destruição a 100% da paisagem, fauna e flora de toda a zona ocupada. A ponte de ligação ao ilhéu é só o primeiro exemplo desta intervenção urbanística e arquitetónica lamentável. Uma ponte num estilo neoclássico, ao estilo Disney, que nada tem a ver com as referências culturais cabo-verdianas. Um monstro caído de paraquedas numa ilha paradisíaca, que precisava de projetos que a requalificassem, com respeito pela sua herança cultural e paisagística. Não de projetos de estilo novo-rico, importados diretamente de Macau, uma cidade já sem referências culturais justamente pela ganância do progresso e de uma economia vazia virada apenas para o lucro. Nada disto corresponde aos ricos valores da cultura cabo-verdiana. Um povo que não merecia ser marcado desta forma, agora não na pele como no tempo da escravatura, mas na paisagem, pela invasão cultural e económica chinesa, que se tem revelado imperialista e destrutiva dos valores culturais de outros povos, de quem se quer aproveitar económica e comercialmente.

Um casino, o primeiro de Cabo Verde, certamente atrairá clientes ricos que deixarão muitos milhões no arquipélago. Mas em troca desses milhões, muitos habitantes locais perderão as suas parcas economias, as quais entregarão quase involuntariamente ao gigante chinês, em jogos de sorte e azar, quer no casino, quer nas apostas online. Em todos os casinos, os únicos vencedores são sempre, em última análise, os investidores, mesmo que pelo caminho tenham de distribuir alguns prémios a alguns felizardos ganhadores. Mas o mundo do jogo encobre muitas vezes um submundo secreto, de bastidores, onde a lavagem e branqueamento de dinheiro se faz de quantidades avultadas a outras mais sub-reptícias e distribuídas por várias áreas de jogo. E assim se vão atraindo muitas máfias e, com ela, o mundo da prostituição de luxo e das drogas.

Considerando que em Cabo Verde já existe um esquema de prostituição velada, que explora o boom turístico dos últimos anos, desde a mais sofisticada de acompanhantes de luxo, à mais precariamente exercida por profissionais do sexo com menos recursos que operam nas praias ou fora dos circuitos organizados, este tipo de investimento apenas vem fazer aumentar a decadência de um povo que aspira verdadeiramente a uma melhor qualidade de vida e a melhores condições sociais. Pela proximidade deste país com a Costa do Marfim, Nigéria, Serra Leoa, Senegal, Guiné, Burkina Faso e Congo, é fácil de prever para que serve um casino de luxo, o primeiro, instalado numa ilha no meio do atlântico, tão próximo destes países onde se faz tráfico duro de ouro, diamantes, armas, cocaína (oriunda da América do Sul com destino à Europa), e também tráfico humano (crianças incluídas) para redes de prostituição de magnatas.

O produto final é vendido como atrativo e com vantagens para a região. É, no entanto, apenas a ponta do iceberg. Mas o que vem escondido no pack total, pode ser um mundo de corrupção, motor de degradação social e instaurador de corrupção de larga escala a nível internacional. Esse é o lado submerso do iceberg, que é sempre muito superior ao que é visível. E é essa parte escondida, a responsável por afundar muitos navios. O tempo o dirá. Mas os prenúncios não parecem ser assim tão positivos para este projeto. Para já, contamos com a destruição da paisagem e da vida selvagem a 100%, de um ilhéu único e estrategicamente localizado no coração da capital de Cabo Verde.

Com o tempo, veremos essa destruição de valores alastrar à comunidade humana cabo-verdiana?

Texto de Pedro M. Duarte

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