Mudar para Moeda Digital Implicará o Fim das Fortunas Individuais?

A alteração para um sistema global de moeda digital definitivo e universal parece estar a preocupar as famílias poderosas do Ocidente. Uma criptomoeda já foi aliás, lançada recentemente pela China, designada como “Digital Renminbi”, em tudo semelhante ao Bitcoin. Na realidade muitos serviços de pagamento eletrónico na China chegaram a usar o Bitcoin, sobretudo para pagamentos efetuados por telemóvel. Esta rápida transformação digital da moeda poderá, no entanto, trazer consigo uma profunda transformação social. Inicialmente utilizada nos mercados negros, o Bitcoin foi lançado oficialmente através de software em 2009 por um enigmático nome – Satoshi Nakamoto – um pseudónimo utilizado pela pessoa ou pessoas que criaram esta moeda virtual e cuja origem é bastante incerta. Mas ao que parece é a moeda do futuro, nascida da necessidade de transacionar bens ou serviços não permitidos em certos países. Rapidamente foi adotada pela Dark Web para transações ilegais de armas, todos os tipos de drogas, artigos proibidos e até tráfico humano. Uma moeda criada e alimentada por um mundo negro de corrupção que até pedofilia envolve. É esta a moeda que vai servir de troca a bens e serviços, no futuro próximo, a moeda das piores máfias do mundo?

 

Certo é que a tradicional moeda, nasceu da necessidade de atribuir um valor a bens comerciais para permitir trocas indiretas, por oposição às trocas diretas de bens. Assim surgiu a noção de custo ou valor de troca. Conchas, sal, ouro, prata e cobre foram alguns dos materiais utilizados como moeda. Mas só no século VII a.C. o rei Aliates, fundador do reino da Lídia (atual Turquia), mandou fundir um pedaço de eletro (liga natural metálica de ouro e prata) e fundi-lo com a forma circular que conhecemos hoje e que identificamos como moeda. Tinha nascido oficialmente a primeira moeda da Eurásia, com uma cabeça de leão como efígie, símbolo da família real da Lídia.

A moeda metálica mais antiga que se conhece, séc. VII a.C.

Que alterações sociais podemos então esperar da implementação global da criptomoeda?

Bom, o tema não é fácil e envolve, claro, todas as máfias do dinheiro, desde as privadas às públicas. As grandes famílias capitalistas que lideram o mundo não pretendem mudar exclusivamente para criptomoeda, pois dessa forma muitos negócios ilegais seriam facilmente monitorizados e até bloqueados. Hoje é aceite mundialmente que as fortunas não se fazem por trabalho sério, mas sim graças a uma complexa teia de engenharias financeiras e corrupções que envolvem muitas vezes crimes horrendos e exploração de mão-de-obra barata, geralmente oriunda de países pobres. Este é aliás o principal motivo pelo qual existe um real interesse económico em que existam sempre países pobres, que forneçam as suas matérias-primas e mão-de-obra a valores tão baixos que permitam aos países mais ricos lucrar exponencialmente com a sua transformação e comercialização, atirando as migalhas do lucro aos que têm todo o trabalho e que dão tudo o que têm de mais sagrado, as suas matérias-primas.

Este jogo da economia infinita está, no entanto, a chegar a um limite. O planeta está a começar a dar fortes sinais de esgotamento e poluição. A cada ano que passa centenas de espécies entram na lista de espécies extintas. Mas a máquina económica não para. Os empresários tornaram os seus produtos e serviços globais e enriquecem agora mais rapidamente. Mas a natureza, é destruída ao mesmo ritmo da sua ganância. Quase oito biliões de consumidores de todo o mundo esperam ter quotidianos onde nenhum produto e serviço lhes falte. Mas será que o que cada um de nós faz no dia a dia é assim tão importante que justifique a destruição de toda a natureza, que, em última instância, também levará à nossa própria destruição?

Mesmo depois de conhecermos todas as consequências negativas da destruição das florestas, continuamos a comprometer o futuro.

Será que o novo coronavírus não veio precisamente destas florestas destruídas? Não será um mecanismo da natureza para desacelerar a sua própria destruição? Muitos animais e insetos tornaram-se geneticamente venenosos como forma de defesa ou sobrevivência. Será que estes novos vírus são a resposta do universo à alteração acelerada que a nossa espécie está a introduzir no sistema equilibrado da natureza? A verdade é que gostamos de acreditar mais em teorias da conspiração. Eu pessoalmente acredito nalgumas. Mas será que às vezes a verdade científica não está diante dos nossos olhos? Estamos a destruir tudo à nossa volta a troco de querermos multiplicar indefinidamente um sistema de vida que já não faz muito sentido no século XXI. A humanidade tem de abrir os olhos e perceber que é preciso parar tudo e “redesenhar” da estaca zero, toda a sociedade, com todo o conhecimento que temos da história e com toda a tecnologia e sabedoria que acumulámos pela nossa longa caminhada desde o primeiro hominídeo.

A criptomoeda vai ser uma realidade. Mas essa realidade vai implicar que os Governos ou as alianças económicas regionais como a UE, passem a controlar todo o dinheiro, o que originará uma maior corrupção política. Todo o dinheiro passará a ser controlado por políticos. No entanto, as máfias continuarão a usar a sua própria moeda e provavelmente nalguns casos até poderão voltar à troca indireta, ou troca de serviços ilegais por produtos ilegais. O crime está na natureza humana. O que está garantido, neste processo de transformação, é que a criptomoeda vai dar mais poder aos políticos. E pelo que vimos nas últimas décadas, a degradação da qualidade dos políticos e o seu nível de corrupção atingiram proporções tais que, esta mudança, poderá acarretar uma transformação social, mais negativa para os mais pobres do que para os mais ricos, que continuarão nos seus esquemas fora da lei. Mas será que os políticos vão querer realmente controlar todo o dinheiro e portanto, serem eles a liderarem exclusivamente todas as máfias e grupos económicos?

O futuro da agricultura não passa pelo plantio na terra.

Assim parece. Apesar de se entender como lógico que a impressão de moeda ou papel-moeda já não tenha lógica num mundo moderno, mais digital. Não só devido aos custos físicos inerentes à sua produção, como por se tratar, na realidade de uma invenção com mais de 2.700 anos, uma “tecnologia” que já não é compatível com a coexistência de oito biliões de consumidores. Quantas toneladas de metais e papel-moeda são emitidos todos os anos? E, relativamente aos circuitos do dinheiro, as fortunas pessoais e das empresas virão mesmo a ser totalmente controladas pelos políticos? Mas será que as famílias vão abdicar do seu dinheiro? Claro que não.

O ano de 2020 lançou o debate pelo World Economic Forum da necessidade de mudar de paradigma socioeconómico. O Grande Reset inclui o fim do dinheiro físico, para garantir o fim de transações ilegais. Maior transparência portanto. Propõe também o fim dos salários desiguais, numa perspetiva de igualdade. Todos os cidadãos do mundo têm direito ao mesmo. Um princípio com lógica, mas difícil de concretizar, se utilizarmos os mesmos modelos do passado. Por isso o Great Reset implicaria o fim das fortunas pessoais, cada vez mais sobrecarregadas de impostos, a criação de um rendimento básico universal para garantir dignidade a todos e até, quem sabe, a abolição do dinheiro.

As novas gerações serão necessariamente mais “verdes”.

Sim, a abolição total do dinheiro. Isso mesmo já foi proposto aliás por diversos movimentos evolucionistas. Estaremos preparados para esta transformação social? Poderá esta transformação criar um novo patamar de evolução humano? Para que precisamos do dinheiro? Se as sociedades fossem geridas localmente em articulação com grandes regiões planetárias, auxiliadas por sistemas robotizados, aplicados também à agricultura hidropónica industrial, poderíamos criar sociedades livres do estigma de classes. O verdadeiro destino da humanidade não seria lidar com o básico instinto de sobrevivência, mas sim, a construção de uma rede de sociedades mais dedicadas a desfrutar da vida, à investigação, à tecnologia e à exploração espacial. Um futuro onde cada um pudesse optar pelo seu papel no universo, escolhendo o seu ritmo de evolução, mas sempre suportado por um sistema social sem preconceitos, com soluções inteligentes para cada indivíduo ou grupo.

Tal futuro é possível. Demasiado idealista para alguns. Mas real para os que querem realmente fazer parte da mudança. Com bom planeamento e vontade, a mudança está ao virar da esquina. E este futuro só é possível com a abolição do verdadeiro gerador da escravatura social: o dinheiro, seja na forma física ou digital.

A evolução humana tem de ser no sentido universal, que contraria o princípio egoísta da moeda e da economia.

 

Texto de Pedro M. Duarte

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