Boa Páscoa, com bons pensamentos

Não vamos lá com tweets e circulação de emails. É indispensável perdermos algum tempo a compreender o que nos está a acontecer. Antes da pandemia, escrevi estes livros abaixo que acabo de publicar (ainda que não haja livrarias abertas). Parecem-me cada vez mais actuais.

Escrevi-os a pensar ser importante tomar consciência de que o estado social não é um objectivo, final ou intermediário, para qualquer política que nos queira libertar do colete de forças em que estamos cada vez mais enredados.

Historicamente, o estado social é fundamentalmente o mesmo do que o neoliberalismo. O neoliberalismo é um estado social que deixou de funcionar de forma útil para os povos.

Uma Páscoa Feliz para todos, já agora…

O estado social foi implantado no tempo dos nossos pais e temos dele uma ideia romântica. Isso acontece porque a geração de sessenta renegou os ideais revolucionários da juventude e os empacotou no sótão de envergonhado esquecimento. Todas as gerações a seguir tomaram a geração criativa como modelo, enquanto os yuppies faziam rios de dinheiro com isso.

O estado social real é uma prisão: há os presos, os que estão em medidas alternativas às penas de prisão, as crianças e os jovens nas escolas e nos asilos, os velhos nos asilos e nos hospitais, para morrerem longe. Mas há também o espírito profissional adorado por todos: servir a quem nos der dinheiro para sobreviver e algum estatuto social com que nos possamos identificar, como soldados a viver do soldo depois da despersonalização na recruta.

“Se quiserem uma imagem do futuro, imaginem uma bota a pisar na cara de um humano- para sempre” – George Orwell

O estado é uma merda. Não está uma merda: o estado é uma merda, como bem sabia o Lenine do “o Estado e a Revolução”, antes de entrar no gabinete da função de imperador da Rússia. Mudar o nome do império para soviético, muitos o notaram logo nos anos 20, não resolveu nenhum problema. O neoliberalismo também sabe disso: dizer que vai acabar com o estado não é o mesmo que acabar de facto com ele. Veja-se o sucesso das iniciativas público-privadas. O estado nunca parou de crescer. Cresceu ainda mais, de um modo inacreditável, para resgatar os bancos e pagar as despesas da pandemia. Alguém viu o neoliberalismo queixar-se?

“A Ciência de Ficar Rico” – Wallace D. Wattles

O estado privatizou-se e continua a privatizar-se. A economia estatizou-se e continua a estatizar-se. Como alguém disse, estamos a viver o pior do capitalismo mais o pior do comunismo. Isso não volta atrás. Nunca houve o mirifico estado social benigno que se tornou o modelo de sociedade para os comunistas desorientados. E se o estado social voltasse, não resolveria o problema da nossa libertação, nem o problema ecológico, nem combateria o neo-nazi-fascismo da sociedade punitiva. O comunismo que resta também não o fará.

Além de um estado que não pode, não é capaz e não quer resolver qualquer dos problemas que enfrentamos – ele tem os seus próprios problemas, como gerir milhões de recursos humanos instáveis e famintos – há também por aí a ideia peregrina de as escolas e a ciência serem tábuas de salvação. Não o são! São parte, e uma parte de gigante, do problema que enfrentamos. O crédito que damos a escolas e a ciências maradas é um dos maiores problemas da pandemia.

A ideia de que a medicina é uma ciência, como a física ou a química ou a geologia ou a biologia, é um equívoco perigosíssimo. A medicina é, porventura, o saber mais útil que a modernidade produziu. Isso não faz dela ciência. É um misto de práticas, algumas apoiadas na ciência, outras inspiradas na ciência, outras corporativamente defensivas alegando estarem a defender a ciência, mas não é ciência. Isso não significa um desprestígio para a medicina. Significa uma clarificação: a ciência não se confunde (não se deve confundir) com as tecnologias nem as suas aplicações. A filosofia, o direito, a história, as ciências sociais (assim hipocritamente chamadas) não são ciências. São outras formas de saber, sensíveis ao enorme sucesso das ciências, mas são outra coisa.

Quando os jornalistas nos dizem que as estatísticas são ciência e que os cientistas avençados são a ciência, só o podem fazer por estarem ao serviço de quem lhes paga os subsídios que não paga aos profissionais da cultura ou do turismo. A propaganda médica das vacinas e as práticas digitais monopolistas de gerir excesso de informação uniram-se, na pandemia, para desarmar os médicos e os seus pacientes de práticas médicas eficazes e baratas.

“A Alegria de Obedecer à Vontade de Deus” – Ponte para a Liberdade

Décadas de escolaridade e universidade maradas ensinaram às crianças que ciência é aquilo que o professor quiser que seja, mais aquilo que os marões percebem e mais ninguém entende. Os médicos também acreditam nisso e em tudo o mais que venha de cima, como todos os profissionais fazem e não podem deixar de fazer. Tal como os mecânicos de automóveis, também os médicos estão encaixados em linhas de montagem que não sabem como funcionam nem para que servem. São as condições desenhadas pela engenharia social que permitem que assim seja que fazem o sucesso do espírito profissional: faz o que tens a fazer, entrega as responsabilidades acima e vai para casa descansar em frente à televisão.

O silêncio comprometido das universidades e das instituições científicas perante a manipulação obscurantista da informação e o uso político do prestígio da ciência para aguentar mais um pouco a decadência institucional em que vivemos é mais um sintoma da mesma impotência que permitiu o encobrimento dos avisos sobre a iminência do aquecimento global, cientificamente clara nos anos 60, o que continua a ocorrer. Hoje sabe-se que as zoonoses se tornaram penta anuais, quando há poucas décadas apenas ocorriam de 15 em 15 anos. Isso estará directamente ligado às práticas de desmatamento e de exploração intensiva de territórios anteriormente animados de biodiversidade, o que evitava algum do stress dos seres vivos e também dos vírus, que fazem tudo para sobreviver. O que é de esperar é que novas epidemias e ainda mais perigosas se tornem banais, daqui para a frente.

Vamos precisar de sabedoria em vez de histeria, de cuidar das pessoas em vez de as usar, cuidar da biodiversidade em vez de acabar com ela, e temos escolas e universidades a ensinarem-nos a fazer o inverso: ensinam-nos a “amar” a natureza, o estado, os professores e qualquer coisa que os jornalistas achem que é ciência.

Primeiro há que reconhecer o inimigo: a adoração dos impérios que há em nós, a religião da obediência colaborativa com os nossos exploradores, tornando-nos seus cúmplices na exploração da Terra. Depois, há que recuperar uma dinâmica democrática, sem a qual nem a ciência nem outra fonte de sabedoria nos conseguirá guiar por novos caminhos.  

“Estado Social Real” e “Reeducar o Século XXI: Libertar o Espírito Científico” da autoria de António Pedro Dores

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