Einstein e Landau: Génios cientistas, mas também … anticapitalistas anti-estalinistas!

Por Yorgos Mitralias (traduzido por APD para português a partir da versão em francês)

Praticamente toda a gente conhece o nome de Einstein (1), mas o nome de Lev Landau (2) só é familiar a alguns adeptos das ciências exatas. No entanto, partilham vários traços de identidade comuns: ocupam posições de exceção entre maiores génios do século passado. Distinguiram-se pela sua liberdade de pensamento e pelo anticonformismo das suas vidas. E sobretudo, partilharam posições políticas habitualmente tratadas, sem dúvida a justo título, como « extremistas », revolucionárias e subversivas de toda a ordem estabelecida ! E das quais, « naturalmente », ninguém vos falou …

Landau: “Camaradas, a grande causa da Revolução de Outubro foi ignobilmente traída»

Eis, portanto, a razão por que vamos falar hoje de Einstein e de Landau não na sua condição de sábios excecionais que marcaram a era moderna, mas naquela – desconhecida por estar sabiamente dissimulada – de socialistas anti-burocráticos e de comunistas anti estalinistas. Einstein, como se verá em detalhe de seguida, propôs em plena Guerra Fria como única solução para os problemas existenciais da humanidade a socialização dos meios de produção e a planificação da economia, advertindo que «uma economia planificada poderia ser acompanhada por uma completa submissão de indivíduo” se se não chegasse «a impedir a burocracia de se tornar toda poderosa e presunçosa» ! Landau, onze anos antes, em 1938, em pleno Grande Terror estalinista, ousou o impensável: (coredigiu o manifesto/folheto seguinte, que apela aos trabalhadores para derrubar Estaline « e a sua clique » em nome da Revolução de Outubro « ignobilmente traída » por eles! E isso com a intenção de o distribuir no 1º de Maio de 1938 na Praça Vermelha de Moscovo (!) em frente a Estaline e à nata do seu regime:

 

Proletário de todos os países, uni-vos.

Camaradas !

A grande causa da Revolução de Outubro foi ignobilmente traída. O país está inundado de ondas de sangue e lama. Milhões de inocentes estão a ser mandados para as prisões e ninguém pode saber quando será a sua vez. A economia desagrega-se. A fome espalha-se. É claro, camaradas, que a clique estaliniana fez um golpe de estado fascista. O socialismo só existe nas páginas dos jornais cobertos de mentiras. O ódio furioso contra o verdadeiro socialismo de Estaline é igual ao de Hitler e Mussolini. Destruindo o país para preservar o seu poder, Estaline tornou-se uma presa fácil para o fascismo bestial alemão. A única saída para a classe operária do nosso país é lutar com determinação contra o fascismo de Estaline e Hitler, lutar pelo socialismo.

Camaradas, organizem-se! Não tenham medo dos carrascos da NKVD. A única coisa que podem fazer é bater em prisioneiros sem defesa, prender inocentes, roubar as riquezas do país e inventar processos ridículos contra conspirações inexistentes.

Camaradas, adiram ao Partido Antifascista dos Trabalhadores. Entrem em contacto com o seu Comité de Moscovo. Organizem células do PAT nas empresas. Utilizem técnicas de clandestinidade. Preparem o movimento de massas pelo socialismo através da agitação e da propaganda.

O fascismo estaliniano existe por que estamos desorganizados. O proletariado do nosso país, que derrubou o poder do Kzar e dos capitalistas, saberá derrubar a ditadura fascista e a sua clique.

Viva o 1º de maio – o dia da luta pelo socialismo !

Comité de Moscovo do Partido Antifascista dos Trabalhadores

Este folheto nunca foi distribuído. Dois dias antes do 1º de maio, dia 28 de abril de 1938, a NKVD fez uma rusga no Instituto de Landau e prendeu-o, como prendeu também o seu amigo e colaborador muito próximo Moisei Korets (que só será libertado 20 anos mais tarde, em 1958), com o qual havia redigido e mimeografado o folheto. O seguimento foi sem surpresas: interrogatórios e torturas na prisão moscovita de Butyrka, e finalmente a condenação a 10 anos de prisão sob a inenarrável acusação de…«espionagem a favor da Alemanha nazi ». Entretanto, Landau era conhecido mundialmente e a comunidade científica internacional mobilizou-se para o libertar. O célebre físico dinamarquês Niels Bohr e o presidente do Instituto de Física da Academia das Ciências da URSS Piotr Kapitsa escreveram mesmo a Estaline e Molotov a exigir a libertação de Landau. E, milagre dos milagres, depois de um ano de prisão, Landau foi libertado !

Fotografia de Landau para a NKVD (arquivos da NKVD)

Como se compreende, não há milagres para os amigos e colaboradores de Landau no – já então mundialmente célebre – Instituto Físico-Técnico de Kharkov, do qual ele próprio era ao mesmo tempo o inspirador, o dirigente e a força motriz. Investigadores soviéticos e também estrangeiros (Alemães, Austríacos, Polacos, Romenos, Holandeses,…), na sua maior parte marcantes para o progresso da física no século passado, também foram presos em 1937-1938, e foram executados ou « desapareceram » sem que se conheça ao menos a data e o local onde foram mortos. Em resumo, tiveram o mesmo destino de milhões de cidadãos soviéticos …

Como aconteceu a Landau, descrito como « ardente comunista” pelos seus colegas de Oxford que ela visitara no início dos anos ‘30, os cientistas estrangeiros do Instituto de Kharkov eram também todos comunistas e membros dos partidos comunistas dos seus países. Vinham a Kharkov, na Ucrânia, não apenas para escapar aos nazis – eram quase todos comunistas e judeus – mas também para «contribuir para a construção do socialismo » na URSS. Foi assim que o Instituto Físico-Técnico de Kharkov, mais conhecido por Fiztech, chegou a acolher a fina flor dos jovens cientistas europeus, provocando o interesse sustentado da comunidade científica internacional, enquanto as celebridades científicas o visitavam frequentemente, até que o regime estalinista proibiu todo o contacto com o mundo exterior.

Encontrar não o cientista, mas o Landau revolucionário, não é de todo fácil. A esquerda internacional ignora-o completamente e não existe nenhum texto de nenhum autor de nenhuma corrente de esquerda que o refira! Os únicos trabalhos – por sinal politicamente perspicazes e honestos – sobre o “outro” Landau, o Landau político, devem-se a dois americanos e a um russo que não são historiadores, mas físicos e matemáticos, que “descobriram” muito recentemente o comunista anti estalinista Lev Landau na preparação de estudos sobre a sua obra científica! Tiraram proveito do período muito curto dos anos ´90 em que timidamente se abriram os arquivos da NKVD (como os da GPU e KGB que lhe sucederam). Esses historiadores amadores descobriram, surpresos, o folheto/manifesto dos Landau/Korets até então completamente desconhecidos, mas também o dossier pessoal de Landau com relatos detalhados dos seus interrogatórios sucessivos nas caves da NKVD!

Foi como se ele surgisse das trevas e a face escondida da história mundial visse o dia, revelando a maior das tragédias. Inevitavelmente, a “descoberta” do revolucionário Landau lançava luz nas tragédias igualmente desconhecidas e habilmente escondidas dos seus amigos e colaboradores do Instituto de Kharkov. Assim, como a simples menção dos seus nomes constitui um ato de justiça elementar e de restabelecimento da verdade histórica, eis alguns: Lev Shubnikov (1901-1937), Lev Rozenkevich (1905-1937), Vadim Gorsky (1905-1937), Valentin Fomin (1909-1937), Konrad Weisselberg (1905-1937), e ainda Matvei Bronstein (1906-1938), considerado como talvez o maior génio científico soviético de entre guerras. Esperemos que cada um deles encontre o seu historiador nalgum jovem cientista politicamente sensível ….

E os outros colaboradores de Lev Landau? Para melhor ilustrar o seu destino, escolhemos dois cujas histórias pessoais são emblemáticas da tragédia dessa época terrível que a humanidade continua a pagar duramente até hoje. O alemão Fritz Houtermans e o polaco-austríaco Alexander Weissberg, ambos membros dos partidos comunistas dos respetivos países, depois de presos e torturados, foram finalmente entregues à Gestapo em 1940, polícia de cujo regime tinham fugido para procurar asilo na URSS! Este ato odioso foi perpetrado no quadro da colaboração estreita entre a NKVD e a Gestapo, anterior ao pacto Molotov-Ribbentrop que foi assinado em 1939. Foi assim que 80 antifascistas e comunistas alemães foram repatriados através da Gestapo antes de 1939 e mais de 200 depois de 1939…

Os cientistas do Instituto de Kharkov.

Ao centro vestido de branco Lev Landau, à sua esquerda Niels Bohr

Aproveitando a ocasião, contamos em poucas palavras uma das histórias pessoais incríveis de cientistas comunistas do Instituto de Kharkov, neste caso a odisseia de Alexander Weissberg que se seguiu à sua entrega aos seus carrascos nazis. Depois de estar preso em várias prisões alemãs e na Polónia ocupada, Weissberg chegou ao gueto de Cracóvia. Quando soube que ia ser executado no dia seguinte, fugiu e refugiou-se noutros guetos judeus da Polónia, de onde se evade pouco antes de começarem as operações de extermínio das suas populações. Consegue passar para a “parte ariana” de Varsóvia onde, porém, é preso pela Gestapo e enviado sucessivamente para várias prisões e campos de concentração da Polónia. Evade-se de novo e toma parte, com armas na mão, na heroica insurreição de Varsóvia. É preso e enviado para um campo de concentração de onde se evade de novo ajudado por um antifascista alemão. Entra na clandestinidade até ao fim da guerra e temendo ser preso outra vez pela NKVD, ativa na Polónia no pós-guerra, passa finalmente em 1946 para a Suécia e depois para a França…

 

Einstein, o anti-capitalista anti-burocrata!

Bem mais conhecido do que o – totalmente desconhecido – comunista anti-estalinista Lev Landau, o anti-capitalista anti-burocrata Albert Einstein continua mesmo assim, até hoje, ignorado pelas esquerdas de qualquer sensibilidade, que se recusam a invocá-lo, sendo o seu “socialismo” tratado como uma ideologia arcaica de alguns retardados que ficaram aprisionados no século XIX. Evidentemente, a dissimulação sistemática das posições marxistas e socialistas de Einstein e de Landau não constituem uma surpresa quando vinham da burguesia e dos media que são seus fiéis servidores. Para mais, a falsificação da história sempre foi um passatempo favorito da direita e das suas excrescências pelo mundo fora …

Mas que dizer da esquerda que faz quase o mesmo, ainda que – logicamente – deveria ter todo o interesse em invocar o testemunho anti-capitalista de dois dos “maiores génios” da era moderna, para responder à propaganda anti-comunista e anti-socialista quotidiana dos seus adversários de direita e extrema direita? A resposta não é difícil:

À social-democracia, que abandonou o marxismo faz muito tempo e que decidiu cogerir o sistema capitalista, repugna – se não odeia – as posições radicalmente anti-capitalistas tanto de Landau quanto de Einstein. Então, é praticamente “normal” e previsível que colabore de fato com a direita para “enterrar” para sempre os … elementos subversivos que são Einstein e Landau!

Há ainda a outra, a esquerda não social-democrata, que continua a brandir a bandeira do socialismo. Esta deveria – logicamente – ter todo o interesse em responder à propaganda da direita e também da social-democracia, invocando sistematicamente os testemunhos dos dois grandes cientistas dos tempos modernos. Todavia, ela nunca o fez. Porquê? Porque esta esquerda estalinista e meta estalinista não pode tolerar – em vez disso, odeia de morte – o anti-estalinismo claro e direto de Landau e também Einstein. E é assim que se chega à triste conclusão que, pelo menos depois dos anos 70, existe uma conspiração de silêncio heterogéneo, mas muito eficaz, com o único objetivo de fazer desaparecer a palavra subversiva de Einstein e de Landau!

Bem entendido, há quem – pouco numerosos – sem pertencer a nenhuma das categorias acima mencionadas, e que poderiam ter todo o interesse em invocar tanto o anti-capitalismo como o anti-estalinismo de Einstein – as posições e atividades políticas de Landau eram desconhecidas até há cerca de 20 anos. O que surpreende não é o facto de nunca referirem o socialismo e o anti-burocratismo de Einstein. É sobretudo que, quando publicam – muito raramente – o seu texto histórico “Porquê o socialismo?”, não fazem qualquer comentário ou análise que possa trair uma compreensão elementar do enorme valor e significado desse texto. Não por que foi escrito pelo “grande Einstein”, mas porque esse texto regenera o discurso marxista, indo diretamente à raiz dos problemas do capitalismo, como se manifestam e são vividos como formas de destruição tanto da humanidade como de cada ser humano. E não apenas os problemas de 1949, mas também os de 2021! Para mais, sem meias palavras e frases confusas de um certo discurso marxizante, mas em palavras simples, claras, bem compreensíveis.

É certo que Landau sabia que arriscava a cabeça ao redigir o folheto/manifesto do 1º de Maio, e a sua consciência plena do perigo mortal que correu torna o seu ato ainda mais heroico e admirável. Mas, ainda que Einstein fosse já celebérrimo, também precisou de muita coragem para escrever e publicar um texto como o “Porquê o socialismo?” em 1949, enquanto a Guerra Fria enraivecia e no momento em que já despontava a caça às bruxas (contra a esquerda) que se generalizaria em torno do tristemente célebre senador McCarthy. Todavia, Einstein escolheu ir contra a corrente e atingir o sistema na sua raiz, propondo como única solução para os problemas da humanidade e, portanto, dos Estados Unidos onde vivia e trabalhava, o socialismo, a socialização dos meios de produção e a planificação da economia! Sem dúvida, era preciso muita coragem para publicar um tal texto nesse momento preciso da história e na capital do sistema capitalista mundial…

Contudo, foi preciso muita coragem para ir contra corrente, na época, e fazer a crítica impiedosa da burocracia estalinista e do seu regime que está no penúltimo parágrafo do seu texto. Com efeito, não é apenas o culto da personalidade de Estaline que atingiu em 1949 o seu zénite, e o facto de seja quem for que ousasse contestá-lo revelando a horrível realidade soviética seria tratado como “vendido” e “agente” do inimigo, que deveriam desaparecer. É que Einstein, nesse penúltimo parágrafo, foi bem para lá da simples crítica dura ao regime estalinista, tirando lições mais gerais que o levaram a apontar a degenerescência burocrática como um perigo mortal que ameaçou toda a tentativa de derrube do sistema capitalista. E tudo isso fazendo constatações totalmente heréticas para a “esquerda” oficial da época, como por exemplo que “a economia planificada ainda não é o socialismo” ou que “uma tal economia poderia ser acompanhada por uma completa servidão do indivíduo”, antes de concluir pondo à esquerda 2-3 questões de importância capital para a sua própria credibilidade tão maltratada, que ainda não tiveram resposta: “Como é possível, perante a centralização extrema do poder político e económico, impedir a burocracia de se tornar toda poderosa e presunçosa? Como poderemos proteger os direitos do indivíduo e assegurar um contrapeso democrático ao poder da burocracia?”

Apresentando um longo excerto do “Porquê o socialismo?”, escrevemos em 2015 estas palavras à laia de introdução: “Nada melhor para conhecer o outro Einstein que escutá-lo falar-nos por suas próprias palavras da questão mais atual que nunca … “Porquê o socialismo?”. E como escrevemos precisamente há 10 anos, quando publicámos esses longos extratos, “Entretanto, atenção: será um erro tratar este texto como se fosse uma ´curiosidade´, uma prova das múltiplas facetas do génio de Einstein, dum sábio que ousou ir mais longe daquilo que sabe fazer. Na realidade, trata-se de um texto que, destinado ao primeiro número da revista de esquerda Monthly Review, revela um Einstein como não só um profundo e terrivelmente atual pensador dos problemas da humanidade, mas também um anti-burocrático combatente, isto é, um comunista anti-estalinista. Que o leitor atento tire as suas conclusões …”

 

Porquê o socialismo?

Por Albert Einstein

(…) Vozes inumeráveis afirmaram, há muito tempo, que a sociedade humana atravessa uma crise, que a sua estabilidade está gravemente perturbada. É característica de uma tal situação que os indivíduos manifestem indiferença ou, até, assumam uma atitude hostil em relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar a minha opinião quero evocar aqui uma experiência pessoal. Discuti recentemente com um homem inteligente e de uma bondade espontânea sobre a ameaça de outra guerra que, a meu ver, colocará em sério risco a existência da humanidade, fazendo-lhe notar que apenas uma organização supranacional ofereceria uma proteção contra tal perigo. Sobre isso, o meu visitante disse-me tranquila e friamente: “Porque é que está tão seriamente preocupado com o desaparecimento da raça humana?”

Estou convencido que, um século atrás, ninguém faria uma afirmação deste género com tanta ligeireza. É a afirmação de um homem que se esforçou em vão por estabelecer um equilíbrio no seu interior e que, de uma forma ou de outra, perdeu a esperança de o conseguir. É a expressão duma solidão e de um isolamento penosos de que tanta gente sofre nos nossos dias. Qual é a causa? Há algum modo de sair dessa situação?

É fácil levantar questões semelhantes, mas é difícil de lhes responder com um mínimo de certeza. Mesmo assim, vou tentar fazê-lo na medida das minhas forças, ainda que esteja consciente de que os nossos sentimentos e as nossas tendências são frequentemente contraditórios e obscuros e que não podem ser expressos em fórmulas ligeiras e simples.

O homem é, ao mesmo tempo, um ser solitário e um ser social. Como ser solitário esforça-se para proteger a sua própria existência e a dos seres que lhe são próximos, para satisfazer os seus desejos pessoais e para desenvolver a suas faculdades inatas. Como ser social procura ter a aprovação e o afeto dos seus semelhantes, partilhar os seus prazeres, consolá-los nas suas tristezas e melhorar as suas condições de vida. Somente a existência destas tendências variadas, frequentemente contraditórias, explica o caráter particular de um homem, e a sua combinação específica determina em que medida um indivíduo pode estabelecer o seu equilíbrio interior e contribuir para o bem-estar da sociedade. É bem possível que a força relativa destas duas tendências seja, no fundo, fixada pela hereditariedade. Mas a personalidade que finalmente emergirá será largamente formada pelo meio onde por acaso se encontra durante o seu desenvolvimento, a estrutura social em que cresce, a tradição dessa sociedade e a avaliação que faz dos com portamentos. O conceito abstrato de « sociedade » significa para o indivíduo humano a soma total das suas relações, diretas e indiretas, com os seus contemporâneos e com as gerações passadas. É capaz de pensar, de sentir, de lutar e de trabalhar para si mesmo, mas depende de tal modo da sociedade — para a sua existência física, intelectual e emocional — que é impossível pensá-lo ou compreendê-lo fora do quadro da sociedade. É a « sociedade » que lhe fornece a alimentação, o que vestir, a habitação, os instrumentos de trabalho, a linguagem, as formas de pensar e grande parte dos conteúdos do pensamento; a sua vida tornou-se possível pelo labor e pelos talentos de milhões de indivíduos do passado e do presente, que se presumem debaixo do nome « sociedade ».

(…) Se nos perguntarmos como a estrutura da sociedades e a atitude cultural do homem deveriam ser transformadas para tornar a vida humana tão satisfatória quanto possível, devemos constantemente ter em conta o facto de que há certas condições que não somos capazes de modificar. Como já mencionámos acima, a natureza biológica do homem não pode, em termos práticos, ser mudada. Mais, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos destes últimos séculos criaram condições que devem continuar. No caso de populações relativamente densas, que tenham os bens indispensáveis à sua existência, uma extrema divisão de trabalho e uma organização da produção muito centralizada são absolutamente necessárias. O tempo, que, visto de longe, parece tão edílico, desapareceu para sempre onde os indivíduos ou os grupos relativamente pequenos poderiam autossustentar-se completamente. Não se exagera muito quando se diz que a humanidade constitui presentemente uma comunidade planetária de produção e consumo.

Cheguei a um ponto em que posso indicar sucintamente aquilo que constitui para mim a essência da crise do nosso tempo. Trata-se da relação entre o indivíduo e a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência da sociedade. Mas não experiencia essa dependência como positiva, como uma ligação orgânica, como uma força protetora, mas antes como uma ameaça contra os seus direitos naturais, ou até contra a sua subsistência económica. Dito de outro modo, a sua posição social é tal que as tendências egoístas do seu ser são constantemente prioritárias, enquanto as tendências sociais que, por natureza, são mais fracas, se degradam progressivamente. Todos os seres humanos, de qualquer posição social, sofrem esse processo de degradação. São prisioneiros sem o saber do seu próprio egoísmo, sentem-se inseguros, isolados e privados da vida ingénua e simples que proporciona a alegria de viver. O homem não pode encontrar sentido para a vida, que é breve e perigosa, senão dedicando-se à sociedade.

A anarquia económica da sociedade capitalista, tal como ela existe hoje, é, em minha opinião, a real fonte do mal. Temos na nossa frente uma imensa sociedade de produtores de que os seus membros procuram incessantemente privar-se mutuamente do fruto do trabalho coletivo – não pela força, mas, no conjunto, de acordo com as regras legalmente estabelecidas. Por debaixo dessa relação, há que tomar atenção de que os meios de produção – isto é, toda a capacidade produtiva necessária para produzir bens de consumo assim como, por cima, os bens de capital – poderiam ser legalmente, e são-no de facto na sua maior parte, propriedade privada de certos indivíduos.

Por razões de simplicidade, quero, na discussão que se segue, chamar “operários” a todos os que não tem nenhuma parte na posse dos meios de produção, ainda que isso não corresponda completamente ao uso normal da expressão. Quem possuiu meios de produção está em condições de comprar força de trabalho do operário. Servindo-se dos meios de produção, o operário produz os novos bens que se tornam propriedade do capitalista. O essencial neste processo é a relação entre aquilo que o operário produz e aquilo que recebe como salário, ambas as coisas avaliadas em valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é “livre”, aquilo que o operário recebe é determinado não pelo valor real dos bens que produz, mas pelo mínimo das suas necessidades e pela relação entre o número de operários de que o capitalista precisa e o número de operários que estão à procura de emprego. É preciso compreender que, mesmo em teoria, o salário do operário não é determinado pelo valor do que produz.

O capital privado tende a concentrar em poucas mãos, em parte por causa da competição entre capitalistas, em parte por causa do desenvolvimento tecnológico e da divisão crescente do trabalho, encoraja a formação de unidades de produção maiores em detrimento das mais pequenas. O resultado desses desenvolvimentos é uma oligarquia de capitalistas cujo formidável poder não pode efetivamente ser parado, nem mesmo por uma sociedade que tenha uma organização política democrática. É verdade, já que os membros do corpo legislativo são escolhidos por partidos políticos largamente financiados ou, de outro modo, influenciados por capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o corpo eleitoral da legislatura. A consequência disso é que, de facto, os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses dos menos privilegiados. Para mais, nas condições atuais, os capitalistas controlam inevitavelmente, de forma direta ou indireta, as principais fontes de informação (jornais, rádios, educação). Fica assim muito difícil para o cidadão, na maioria das vezes completamente impossível, chegar a conclusões objetivas de fazer um uso inteligente dos seus direitos políticos

A situação dominante na economia baseada na propriedade privada do capital é, então, caracterizada por dois princípios importantes: primeiramente, os meios de produção (o capital) são uma possessão privada e os possuidores fazem uso deles como melhor entendem conveniente; em segundo lugar, o contrato de trabalho é livre. Bem entendido, uma sociedade capitalista pura neste sentido não existe. Convém sobretudo notar que os operários, depois longas e ásperas lutas políticas, conseguiram obter, para certas categorias de entre eles, melhores formas de “contratos de trabalho livre”. Mas, no seu conjunto, a economia de hoje não difere muito do capitalismo “puro”.

A produção é feita tendo em vista o lucro e não a utilidade. Não há como prever que todos que estão em condições e com vontade de trabalhar poderão sempre encontrar um emprego; um “exército” de desempregados está aí. O operário vive permanentemente o medo de perder o seu emprego. E porque os desempregados e os operários mal pagos são fracos consumidores, a produção de bens de consumo fica restrita e gera, em consequência, graves inconvenientes. O progresso técnico tem muitas vezes como resultado um aumento do número de desempregados em vez de um aligeirar da penosidade do trabalho para todos. O aguilhão do lucro conjugado com a competição entre os capitalistas é responsável pela instabilidade na acumulação e utilização do capital, que conduz a depressões económicas mais ou menos graves. A competição sem limites conduz a um desperdício considerável de trabalho e à mutilação da consciência social dos indivíduos a que fiz menção acima.

Considero essa mutilação dos indivíduos como o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre desse mal. Uma atitude de competição exagerada é inculcada no estudante, que é treinado a idolatrar o sucesso aquisitivo como uma preparação para a sua carreira futura.

Estou convencido que há apenas uma maneira de eliminar estes males graves, a saber, o estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada de um sistema de educação orientado para finalidades sociais. Numa tal economia, os meios de produção pertenceriam à sociedade ela mesma e seriam utilizados de forma planificada. Uma economia planificada que adapte a produção às necessidades da sociedade, distribuiria o trabalho a realizar por todos que estão capazes de trabalhar e garantiria os meios de subsistência a cada homem, a cada mulher, a cada criança. A educação do indivíduo deveria favorecer o desenvolvimento das suas faculdades inatas e inculcar-lhe o sentido da responsabilidade perante os semelhantes, em vez da glorificação do poder e do sucesso, como é feito na sociedade atual.

Entretanto, é necessário recordar que uma economia planificada não é ainda o socialismo. Uma tal economia poderia ser acompanhada de um servilismo completo do indivíduo. A realização do socialismo exige a superação de alguns problemas sociais e políticos extremamente difíceis: como será possível, perante uma centralização extrema do poder político e económico, impedir a burocracia de se tornar toda poderosa e presunçosa? Como se poderia proteger os direitos do individuo e assegurar um contrapeso democrático ao poder da burocracia?

A clareza a respeito dos fins e dos problemas do socialismo é da maior importância na nossa época de transição. Porque, nas circunstâncias atuais, a discussão livre e sem entraves destes problemas está sujeita a um poderoso tabu, considero a fundação desta revista um importante serviço prestado ao público.

Notas

  1. Albert Einstein nasceu em 4 de março de 1879 em Ulm, em Wurtemberg (Império alemão), e morreu em 18 de abril de 1955 em Princeton, New Jersey (Estados-Unidos), foi um físico teórico. Publico a sua teoria da relatividade restrita em 1905 e a sua teoria da gravitação, dita relatividade geral, em 1915. Contribuíu largamente para o desenvolvimento da mecânica quântica e da cosmologia, e recebeu o prémio Nobel de Física de 1921 pelo sua explicação do efeito fotoelétricoN 2. O seu trabalho é sobretudo conhecido do grande público pela equação E=mc2, que estabelece uma equivalência entre a massa e a energia de um sistema. É hoje considerado um dos maiores cientistas da história e a sua nomeada extravasa largamente o mundo científico. Foi a personalidade do século XX, de acordo com o semanário Time. Na cultura popular, o seu nome e a sua pessoa estão diretamente ligados a noções de inteligência, de sabedoria e de génio (fonte: Wikipedia)
  2. Lev Davidovitch Landau (em russo: Лев Давидович Ландау, [lʲɛv dɐˈvidəvʲitɕ lɐnˈda.u] Écouter), nasceu a 22 de janeiro de 1908 em Bakou (Império russo) e morreu no abril de 1968 em Moscovo (União soviética), foi um físico teórico soviético. Foi laureado com o prémio Nobel da Física de 1962 « pelas suas teorias pioneiras a respeito do estado condensado da matéria, particularmente o hélio líquido1», mas as suas contribuições para a física vão muito além disso e cobrem numerosos ramos para que contribui com formalizações teóricas de fenómenos da mecânica dos fluídos até à teoria quântica dos campos. Elaborou assim um formalismo teórico das transições de fase de segunda ordem, da supraconductividade (teoria de Ginzburg-Landau), do diamagnetismo, dos líquidos de Fermi, etc. També foi creditado por ter antecipado a existência das estrelas de neutrões (ou, pelo menos, de estrelas densas de partículas subatómicas sem carga elétrica) antes mesmo da descoberta dos neutrões em 1932 (fonte: Wikipedia)

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