Uma Análise Fria neste Outono Autárquico

Há muitos anos que não víamos umas eleições autárquicas tão disputadas. E no burburinho dos holofotes, Carlos Moedas foi o grande vencedor da noite.

Partindo de uma posição claramente desfavorável, Moedas até esteve para desistir da sua candidatura, o que, na altura reforçou ainda mais a sua fragilidade enquanto candidato à capital do país. Medina foi, por isso, o grande derrotado da noite eleitoral. Alvo de uma chuva de críticas por parte dos opositores, que se intensificou mais nos últimos meses, o então Presidente da Câmara acabou por ver a sua imagem descredibilizada perante os seus concidadãos de Lisboa. Depois do escândalo do Russiagate, também o escabroso convite de inúmeros artistas para a sua lista, a quem a Câmara Municipal de Lisboa tinha pago recentemente avultadas quantias para espetáculos. Não saiu bem na fotografia e teve de assumir a derrota. Excesso de confiança foram o seu calcanhar de Aquiles. A ideia que o suporte do Governo PS e de António Costa enquanto líder do partido seriam a sua tábua de salvação caiu por terra.

Mas a vitória de Carlos Moedas não foi só partidária. Foi acima de tudo pessoal. A superação dos seus medos e a transmutação da sua frágil figura inicial num animal político combativo no terreno. O herói que nasceu, por um lado da queda do seu opositor, por outro, da sua perseverança na persecução do seu objetivo: a vitória. E esta vitória converteu-se também no escudo de Rui Rio, que assim salvou a sua cabeça no seio do partido, porque cumpriu e até superou as suas promessas de conquistar inúmeras câmaras municipais, algumas delas bastiões socialistas há vários mandatos consecutivos. O novo presidente da Câmara Municipal de Lisboa ganhou com 35,77% contra os 31,68% do presidente cessante. No final de abril deste ano, uma sondagem da Intercampus dava a Moedas apenas 25,7% e a Medina 46,6%. Na altura, este cenário não podia ser mais desanimador para o candidato do PSD. Mas em apenas 5 meses, materializou-se a inversão de posições, quase por milagre. Um milagre anunciado profeticamente na sua campanha “Novos Tempos”.

 

 

Mas a noite condecorou ainda outra estrela – Pedro Santana Lopes – que demonstrou que o seu charme ainda leva votantes às urnas. E apesar do PSD ter perdido 5 câmaras municipais, a coligação PSD-CDS/PP garantiu a conquista de mais 15 municípios, num total agora de 31, comparativamente às apenas 16 câmaras municipais de 2017. Quanto ao CDS/PP, sozinho, manteve as 6 câmaras que elegeu em 2017, tendo o líder do partido cantado também vitória, pela eleição de outros candidatos a cargos autárquicos nas coligações estratégicas que fez com o PSD. Por este motivo, PSD e CDS/PP celebraram ainda que em voz baixa e alimentam assim o seu sonho secreto de vencer as legislativas de 2023, talvez até sem a ajuda da extrema-direita populista, a qual parece estar já a perder o seu vigor e élan iniciais.

Por isso, o Chega teve de engolir uns magros 4,16% que o colocaram não na terceira maior força política como anunciara, mas na sexta, embora à frente do BE. Sem ter ganho nenhum cargo de presidência de câmara conseguiu, no entanto, 19 mandatos e o próprio André Ventura foi eleito para a Assembleia Municipal de Moura, de onde é natural. No entanto, o Chega promete ser uma dor de cabeça para muitas assembleias municipais, já que elegeu no total 169 mandatos nesses órgãos, sendo as suas vitórias de vereação maioritariamente na Grande Lisboa. Pelo caminho, em apenas um ano o Chega perdeu entre as presidenciais e as autárquicas 300.000 votantes, tendo ficado apenas com pouco mais de 200.000, uma quebra significativa, talvez motivado pelo desgaste das sucessivas “broncas” e polémicas do candidato. Dificilmente o Chega terá margem para crescer mais do que 10% nas legislativas de 2023. Somos um país pequeno e desinteressado da política, devido a anos de desgaste pela corrupção. O Chega não tem grande hipótese de enfrentar os partidos já estabelecidos. Matemática e estatisticamente não será possível esticar mais a corda do lado extremo da direita.

A CDU sofreu uma derrota por ter perdido 5 das 24 câmaras que elegeu em 2017. João Ferreira, no entanto, fez uma boa campanha e conseguiu uma melhoria ligeira do partido em Lisboa. O BE foi o grande derrotado à esquerda. Não elegeu nenhum mandato para a Câmara de Lisboa, tendo perdido a nível nacional mais de 30.000 votos o que lhe garantiram uma descida da 6.ª força política para 7.ª, ficando assim atrás do Chega. Relativamente a Lisboa, ainda que a custo o BE conseguiu eleger um vereador. Uma derrota pessoal de Catarina Martins, que provavelmente assumirá no rescaldo da análise dos resultados e que poderá levar a uma renovação de caras no partido.

Quanto ao PS, apesar dos malabarismos propagandísticos pouco éticos de António Costa que usou armas do seu governo (PRR e Bazuca Europeia) na sua saga eleitoral pelo país, o partido perdeu 17 municípios, de entre os quais dois bastiões simbólicos: Lisboa e Coimbra. Fernando Medina e Manuel Machado foram dois trunfos queimados. Nem a triste figura do ex-presidente Ramalho Eanes conseguiu salvar o bastião socialista da cidade de Coimbra. Machado perdeu esmagadoramente com 32,65% contra os 43,92% da coligação PSD-CDS/PP-PPM. Mas apesar das perdas socialistas, o líder do Partido Socialista cantou vitória como a força política mais votada. A sua margem de folga para com o PSD está, no entanto, em mínimos.

Ganhar com 34% sabe a pouco e é praticamente atingido pela soma do PSD isolado com as coligações à direita que perfazem um total de cerca de 32%. António Costa perde assim terreno e caminha aceleradamente para uma possível derrota enquanto líder em 2023. A sua imagem começa, aliás, a dar já fortes sinais de desgaste junto da opinião pública e até de uma parte do seu eleitorado. Caberá ao PS começar a pensar nas opções da sua substituição. Os maçons do GOL, muito conotados com a tradição partidária socialista, já anunciaram que vão abrir caminho às mulheres na política, o que poderá significar uma forte candidata à liderança do partido socialista, talvez Ana Gomes. Poderia ser uma lufada de ar fresco no PS, uma viragem francamente positiva no partido e na política nacional. Mulheres ao poder…

Preocupante foi o real vencedor da noite: a Abstenção de 46,32%.

Para consulta de dados eleitorais autárquicos destas eleições, sugiro o site da RTP, cuja consulta por concelho e freguesia é bastante fácil.

 

 

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Uma resposta

  1. Parece-me que a abstenção é a campanha malévola contra André Ventura foram as grandes vencedoras destas eleições. No entanto, tal como escreve a imagem do “encantador de burros” me parece já um bocado esbatida. Espero que este Povo acorde e deixe de ficar em casa e vá votar.
    Para isso também é necessário mudar a lei eleitoral e deixar o povo escolher de facto os candidatos e não os partidos. Que só partem de facto a sociedade.
    Uma primeira sugestão é: que as eleições deixem de ser obrigatoriamente aos domingos e feriados.
    Se as empresas podem pagar os dias de folga dados a mais de 150.000 candidatos também podem dar 4 horas para os trabalhadores irem votar a um dia de trabalho. Estes, depois apresentam declaração da mesa de voto em como lá estiveram a votar. É simples, assim os partidos o queiram (O que eu duvido).
    Quer o PS quer o PSD não o querem.
    Se reparar, tirando os grandes centros urbanos a diferença do segundo partido mais votado para o terceiro é abismal.

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