Seres humanos, servos do sistema financeiro

1 – A expansão descontrolada do sistema financeiro

2 – O poder e a dimensão do sector financeiro

3 – Os passivos do sector financeiro e a sua evolução

4 – Passivos financeiros e salários mínimos

 

1 – A expansão descontrolada do sistema financeiro

Desde a Idade Média que se vem montando um sistema financeiro mais e mais invasivo da vida dos povos. Logo no século XVI os banqueiros financiaram as monarquias envolvidas em guerras e sem um sistema fiscal digno dessa designação; como financiaram o comércio longínquo e o domínio global da Europa. A introdução da moeda-papel e do papel-moeda, com o desenvolvimento das instituições bancárias, generalizaram e agilizaram as trocas, no âmbito da consolidação do capitalismo até que se chegou ao momento de desmaterialização do dinheiro, sob a forma de circuitos eletrónicos. A ausência física do dinheiro tornará a Humanidade num objeto totalmente dependente do sistema financeiro e completamente separado da vida real dos seres humanos.

Os passivos dos bancos e das sociedades financeiras correspondem às responsabilidades que têm para com terceiros. Entre estes estão os titulares – pessoas ou empresas – de depósitos, títulos de dívida e empréstimos; de ações e participações em fundos de investimento, direitos e provisões técnicas de seguros; de fundos de pensões e reservas normalizadas de garantia; derivados financeiros e outros créditos de terceiros; produtos de empréstimos emitidos pelas próprias entidades financeiras; e ainda, obrigações fiscais ou contributivas em dívida. Os passivos bancários correspondem a valores confiados por pessoas individuais, famílias, empresas, especuladores, Estados, etc; e, renovam-se a todo o momento, mesmo que essas alterações não produzam efeitos significativos no valor global do passivo. Neste último, consideram-se dados não consolidados, isto é, os elementos a débito e a crédito entre duas entidades, sem se compensarem, para o apuramento de um montante líquido.

A aplicação desses fundos, disponibilizados aos bancos e às sociedades financeiras é devolvida a empresas e famílias sob a forma de empréstimos concedidos, bem como a entes públicos, mormente ao Estado. A concessão desses empréstimos pelos bancos é acompanhada de hipotecas sobre imóveis (habitações e instalações comerciais ou fabris) que visam acautelar os mutuantes perante dificuldades dos mutuados em devolver os montantes emprestados e ainda os juros vencidos ou ainda por vencer.

E, por seu turno, o Estado, pelo seu poder político e coercivo sobre a população em geral, constitui um devedor seguro, ainda que com prerrogativas próprias que fazem com que tenha um poder negocial único para com os bancos nacionais mas, naturalmente, muito menor perante os grandes bancos globais; e estes, por seu turno, sabem cooptar para os seus quadros mandarins de alto quilate ou especialistas no tráfego de influências, bem como exercer toda a pressão sobre a governação de países pequenos e médios, sobretudo quando pobres, desestruturados e minados pela corrupção.

Na dívida global o sector financeiro representa 18.8%; e, os seus credores são particularmente as famílias e as empresas não financeiras que disponibilizam as suas poupanças junto do sistema financeiro que se aproveita sabiamente da atomização dos seus depositantes, pagando a estes, juros que se mostram um parco custo quando comparado com reprodução teoricamente infinita em que o sistema financeiro se insere, tirando partido de cascatas de operações no âmbito das pirâmides de Ponzi, com o complacente apoio dos bancos centrais à especulação bolsista, através de um jogo entre a colocação de títulos de dívida pública e a sua imediata inclusão na insana criação de dinheiro, a nível global, devidamente patrocinada pelos Estados e seus governos. Claro que no seio destes pululam elementos provenientes do sistema financeiro ou, coniventes com as suas instituições.

Tendo em conta a enorme mobilidade dos mercados financeiros e das bolsas, a velocidade a que se processam transações, na procura instantânea de uma margem de lucro, mesmo que muito curta, conduziu ao surgimento dos designados produtos derivados cuja nebulosa avaliação, há dois anos, se pautava por $ 558 triliões a $ 1 quadrilião, na nomenclatura europeia; e cuja existência é virtual, sob a forma de simples registos contidos nos servidores das grandes instituições financeiras. Sobre este tema, veja-se aqui[1].

2 – O poder e a dimensão do sector financeiro

O Eurostat divulga, a partir de 1995, elementos sobre os passivos do sector financeiro medidos em termos de percentagem do PIB, para os países que atualmente fazem parte da UE. As variações observadas para o período 1995/2020 evidenciam uma tendência genérica para o aumento do parâmetro utilizado.

As irregularidades detetáveis, em geral, prendem-se com períodos de turbulência financeira como o de 2000/2002; isto é, com crise dos dotcom a que se acrescentaram as sequelas do 11 de setembro em New York e a segunda invasão ocidental do Îraque em 2003, embora dali não tenham saído grandes abalos na relação entre os passivos financeiros e a evolução da economia, medida pelo PIB.

As falências bancárias subsequentes aos subprimes americanos, declararam-se em finais de 2007 e vieram a afetar o sistema financeiro europeu e a promover as intervenções da Troika (ou fórmulas semelhantes) em países como a Irlanda e outros, na orla Sul da UE. Nesse âmbito, essas intervenções foram mais duras e impositivas para com a Grécia e Portugal; menos invasivas nos casos de Espanha e Itália, países com maior grandeza demográfica, económica e política no seio da UE; e conduzidas sem sobressaltos de maior na rica Irlanda.

A partir de 2008 abre-se um período de doze anos em que os passivos financeiros medidos em percentagem do PIB apresentam anos de subida e outros de quebra, com uma frequência muito superior ao verificado nos anos anteriores. Sinteticamente, registam-se 20 casos de quebra em 1996/99; 43 em 2000/2007; e 155 de 2008 a 2020. Isto representa uma irregularidade; e, que se vem acentuando. O sistema é frágil, instável, imprevisível e daí que as suas sequelas tenham de ser nocivas.

O aumento do peso das responsabilidades do sistema financeiro (isto é, do volume de capitais depositados por famílias e empresas) comparativamente ao PIB é um elemento de fragilidade do sistema financeiro, crescentemente dependente da posse de fundos alheios. Porém, os bancos centrais têm a facilidade de gerar fundos a partir do nada, como acontece no conhecido quantitative easing, essa criação de Mário Draghi para almofadar até ao infinito a volúpia dos especuladores financeiros. E, sabendo-se das distâncias que o sistema financeiro e as classes políticas mantêm relativamente aos povos, para estes últimos sobram as más sequelas e faltam os devidos apoios para uma vida boa. A próxima disseminação da moeda digital por parte dos bancos centrais, com a desaparição do dinheiro físico irá introduzir um novo elemento de controlo das populações, cujos fundos poderão a qualquer momento ser bloqueados ou interditos, no âmbito de um estrutura política, social e económica de verdadeira escravização; isso porém, fica para um próximo texto.

Em todo o período há um destaque absoluto no peso dos passivos bancários face ao PIB do Luxemburgo; e, esse destaque vai-se acentuando através do tempo – 6889% em 1995, 10015% em 2000, 14689% em 2007 e 23878% em 2020. Trata-se de um caso típico do efeito especulação, introduzido por Keynes, como um “desenvolvimento” dos efeitos clássicos, como o de entesouramento. O Luxemburgo, como praça-forte financeira que é, abarca um volume de capitais sem qualquer relação com a sua normal economia – a que contempla a satisfação das necessidades das pessoas. O indicador mais próximo daquele apresentado pelo Luxemburgo em 1995 cabe aos Países Baixos (630.2%) e, que chega a 1463% em 2020; neste último ano, os países que se apresentam logo a seguir ao Luxemburgo, são Chipre (2535%) e Malta (2468%), relegando os Países Baixos para a quarta posição.

Inversamente, os países onde a relação entre os passivos e o PIB se mostra mais baixa -inferior ao valor do PIB – são, em 1995 – Croácia, Estónia, Letónia, Lituânia, Polónia, Eslovénia, países que, à época, tinham um modelo económico próprio. Os países que mantiveram essa situação até mais tarde foram, a Roménia (até 2008), a Lituânia (até 2005), bem como a Bulgária e a Polónia até 2003, momentos aproximados das respetivas datas de inclusão na UE.

De modo mais abrangente, recorde-se o que escrevemos sobre a riqueza financeira e a sua parcela nos países mais ricos;

No ano 2000 e 2008 os maiores indicadores de riqueza financeira revelam-se nos EUA (80.1 e 85.2% do total respetivo) e na Suíça (76.8% e 72.2%). Em 2019, os EUA mantêm o maior coeficiente mundial de riqueza financeira (84.4% do total), seguidos pela Dinamarca (82.6%) e pela Holanda (79.9%).

Os mercados financeiros são constituídos por cascatas de créditos, nas quais só no âmbito do titular inicial se encontra uma realidade; daí em diante, trata-se de um encadeado, teoricamente, sem fim; e em que entre a maioria dos intervenientes, ninguém sabe quem é o devedor inicial. A fé, domina; não se trata de fé em santos e milagres mas a fé em que se eternizem as referidas cascatas… sem roturas ou crises de pânico indutoras de enormes perdas.

3 – Os passivos do sector financeiro e a sua evolução

A variação anual média dos passivos das sociedades financeiras, em percentagem do PIB pode ser repartida pelos três períodos atrás considerados – 1995/1999, 2000/2007 e 2008/2020. O primeiro finda, sensivelmente com a crise dos dotcom nos EUA; o segundo abarca o abanão proveniente do episódio das Torres Gêmeas e termina no dealbar das crises das dívidas públicas e das reestruturações bancárias; e no terceiro inscreve-se o longo período de relativa estagnação económica, com o surgimento de enormes dívidas públicas e a insana criação de dinheiro virtual para a manutenção dos chamados mercados financeiros, em modo de crescimento infinito, no vácuo.

Variação anual média dos passivos do setor financeiro (%)

É evidente no gráfico, a tendência para a redução das médias globais das variações dos passivos do sector financeiro, conducentes a uma maior homogeneidade – 31.7% em 1995/99, 26.2% em 2000/07 e 10.9% no período mais recente, 2008/20.

Em cada um dos períodos considerados, anotam-se os países com maiores e menores indicadores, respetivamente;

  • 1995/99 – Estónia (46.9%), Malta (43.9%) e Chipre (43.5%); Roménia (10.7%) e Bulgária (13.8%).

No período designado nenhum daqueles países era membro da UE. Entre os então membros, a evolução dos passivos era relativamente homogénea, cifrando-se entre os 30/37 % do PIB.

  • 2000/07 – Malta (87.9%) e Chipre (56.5%); Eslováquia (12.2%) e Rep. Checa (14.3%).

Na passagem para o âmbito da UE (2003/04) os passivos bancários em Chipre aumentaram 3.6 vezes. Quanto a Malta registou-se um aumento de 4.3 vezes, num período mais alargado (2003/07).

  • 2008/20 – Finlândia (15.3%, Luxemburgo (15.2%) e Rep. Checa (14.4%); Áustria (7%), Malta e Portugal (7.8%) e Bélgica (7.9%).

Para além do caso excepcional do Luxemburgo, onde os passivos bancários correspondem a milhares de vezes o valor do PIB, como atrás se referiu, há outras situações em que, comparando os índices, se observa o endividamento do sistema financeiro a crescer bastante mais que o normal crescimento do PIB. Assim, podem-se classificar os países em função do crescimento dos passivos financeiros, em 2020, relativamente ao PIB, tendo como base os indicadores relativos a 1995:

Crescimento [0 a 2 vezes] – Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Irlanda (2001/2020), Portugal, Roménia, Eslováquia, Rep. Checa;

Crescimento [2 a 3 vezes] – Dinamarca, Espanha, França, Grécia, Hungria, Itália, Países Baixos, Eslovénia, Suécia;

Crescimento [3 a 5 vezes] – Croácia, Estónia, Finlândia, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Polónia;

Crescimento [> 9 vezes] – Chipre e Malta.

4 – Passivos financeiros e salários mínimos

É interessante uma comparação entre a multiplicação dos passivos do sistema financeiro, atrás referidos (ver ponto 3) e os acréscimos anuais médios, para os períodos 1999/2007 e 2007/2021, dos salários mínimos médios para vários países da UE. Isto é, a comparação entre a evolução dos capitais confiados aos bancos e a variação do rendimento de pessoas reais, essencial para satisfação das suas necessidades básicas.

Sublinham-se as taxas de crescimento dos salários mínimos mensais e as grandes diferenças entre os valores efetivos, dos países com uma integração na UE mais antiga e aqueles que naquela se incorporaram, no seguimento do desmembramento do Comecon; essas dissemelhanças são mais evidentes no período 1999/2007 do que no período seguinte, numa tendência de menores dissemelhanças.

Em suma, os passivos que se acumulam nos balanços dos componentes do sistema financeiro crescem, claramente mais do que o poder de compra dos povos europeus; dos países mais ricos, como dos mais pobres.

Este e outros textos em:

​http://grazia-tanta.blogspot.com/

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents

https://pt.scribd.com/uploads

 

[1]  O volátil domínio da riqueza financeira

http://grazia-tanta.blogspot.com/2020/08/o-volatil-dominio-da-riqueza-financeira.html

https://grazia-tanta.blogspot.com/2020/08/the-volatile-domain-of-financial-wealth.html (english)

evolução da riqueza na Europa (2000/19)

https://grazia-tanta.blogspot.com/2020/08/a-evolucao-da-riqueza-na-europa-200019.html

https://grazia-tanta.blogspot.com/2020/08/the-evolution-of-wealth-in-europe-200019_6.html?m=1 (english)

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