Racismo, belicismo e machismo, três tristes irmãos culturais

Ontem, quando ouvi Inês Pedrosa afirmar que a Europa há muito devia ter constituído o seu próprio exército [1], apercebi-me de repente de uma coisa que até hoje me tinha passado despercebida: o belicismo, tal como o racismo e o machismo, é um tique culturalmente adquirido do qual dificilmente nos tornamos conscientes e nos vemos livres.

Imensa gente em Portugal jura a pés juntos que «não, eu não sou racista», mas dois minutos depois apanhamo-la a produzir atitudes ou comentários racistas com a maior das inocências – isto é, sem disso ter consciência. É compreensível, ainda que não seja aceitável.

O mesmo sucede com o belicismo. Imensa gente se diz pacifista, para dois minutos depois opinar que a UE deveria ter um exército operacional e interveniente ou algo que o valha. Ora, se advogar a necessidade de constituir exércitos não significa ser intimamente belicista, bolas para a lógica. Ter um exército não é o mesmo que ter soldadinhos de chumbo na estante, ao lado dos carrinhos em miniatura e outros motivos decorativos. Um exército de verdade só pode servir para uma coisa: fazer a guerra.

1991, manifestação contra a Guerra do Golfo, Lyon, França. [2]

O problema é que, na sociedade ocidental, o belicismo, tal como o racismo e o machismo, são vectores culturais entranhados há séculos. Neles medrámos, com eles crescemos, e às vezes, por eles morremos. O mais que podemos fazer é adoptar uma atitude de constante autovigilância, porque eles estão lá, embebidos no fundo do nosso cérebro. A qualquer instante podem emergir sem pedir licença.

Outra coisa que podemos fazer (esta talvez mais discutível e até perigosa) é a vigilância mútua. Uma vez que o belicismo existe entranhado no nosso cérebro sem que disso tenhamos necessariamente consciência, é útil que nos chamemos mutuamente a atenção para atitudes e comentários belicistas. E quando assim acontecer, convém que não nos melindremos ou abespinhemos, porque outra forma pode não haver de nos chamarem à razão e à paz.

 


[1] Inês Pedrosa, RTP3, O Último Apaga a Luz, 4/03/2022.

[2] Imagem colhida em Histoire en images des libertaires lyonnais.

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