A corrupção nas universidades

Por altura do anúncio da formação do governo de maioria absoluta do Partido Socialista, a reitoria do ISCTE deu nota, orgulhosamente, da existência de dois ministros que trabalhavam nesta universidade e uma ministra que foi formada nela, antes de se dedicar à política. Poucos dias depois uma notícia a esse respeito destaca-se na comunicação social de referência: fumos de corrupção envolveriam portas giratórias entre o governo e a reitoria do ISCTE. O ministro das finanças cessante tomara o lugar de vice-reitor, eventualmente como compensação por ter autorizado financiamento público para expandir a actividade dessa universidade.

A delicadeza do assunto decorre do facto de ser conhecido o rumor de o ISCTE ser a universidade do PS, a situação política de haver uma maioria absoluta deste partido, da existência de um escrutínio mais atento a processos de corrupção que possam, à semelhança do passado, conduzir as verbas europeias extraordinárias para ajuda ao desenvolvimento para fins privados.

Tendo vivido toda a minha vida profissional como professor daquela universidade, desde os anos 80, posso testemunhar a existência de corrupção. Não sei se ao nível financeiro, mas sei ao nível científico, que é isso que mais me interesse e preocupa.

Financeiramente, o ISCTE sempre se queixou de ser subfinanciado em relação às outras universidades públicas – é conhecido como a universidade dos professores auxiliares (primeira categoria da carreira profissional), de tal modo o corpo docente paga com a carreira esse subfinanciamento. Todas as tentativas de integração do Instituto numa das universidades de Lisboa falharam. Constatada essa impossibilidade, a administração do ISCTE pediu, e acabou por obter, o estatuto de Reitoria que durante grande parte da sua história não teve: foi então admitida a igualdade de tratamento institucional e concorrencial perante as outras universidades, mas partindo de uma situação inicial incomparável.

A existência de um programa de reequilíbrio financeiro de modo a colocar o ISCTE no mesmo patamar das outras universidades poderia justificar-se. Porém, no governo anterior, o ministro das universidades não terá gostado de ser o ministro das finanças a tomar essa decisão, em prejuízo das restantes universidades e sem acordo destas nem do ministério do ensino superior.

As universidades vivem, desde que as conheço melhor, num mundo de intrigas palacianas e corporativas repugnantes. O ISCTE que me ensinou em sala de aula que as ciências são diferentes e devem estar apartadas da política, ao menos da política partidária, foi o mesmo que admitiu estrategicamente transformar-se na universidade do PS, como forma de protecção contra a hostilidade dos reitores. A organização intencional e ideológica da competição por orçamentos pressionados pelas políticas de estruturais de redução orçamental para actividades educativas e pela trajectória de empobrecimento relativo do país, foi decisiva. Em troca de admitir preferencialmente docentes ligados ao partido, tornando-se assim uma casa de recuo de políticos ou aspirantes a políticos, o ISCTE foi paulatinamente ganhando poder de influência.

Do ponto de vista jurídico, este caso parece não configurar nenhum caso de corrupção. Do ponto de vista político, ele marca o início das hostilidades entre os partidos de oposição e a maioria absoluta recém-conquistada. Em termos científicos sinaliza a tranquilidade com que a sociedade, a comunicação social, os universitários, admitem subjugar-se a interesses partidários e os governos silenciam golpes entre ministros, usando-os posteriormente para se vingarem de terem sido despromovidos.

A corrupção é um tema cavalgado pela extrema-direita ascendente em toda a Europa e no mundo. A fragilidade das instituições perante a corrupção é evidente. A incapacidade da sociedade em combater a corrupção, apesar da organização assertiva da sociedade civil para definir estratégias e políticas públicas anti-corrupção que possam ser adoptadas pelo estado, é notória. Não vão faltar argumentos à cavalgada dos chamados populismos, que significa na linguagem de pau dos políticos dominantes os apelos à turba malta para que se escandalize com os privilégios das oligarquias.

Pode isso ser reduzido, como o fazem os politólogos, a uma disfunção eleitoral que faz com que haja muita abstenção? Ou, como faz a comunicação social de referência, a intrigas entre personalidades? Ou, como fazem os comentadores das relações internacionais, a uma diferença de perspectivas entre nacionalistas e globalistas?

Escrevi este texto para dizer que o problema mais preocupante é o modo como, neste contexto de partidarização desta universidade e do conhecimento, o ensino-aprendizagem se torna conformista e incapaz de reagir aos desafios morais, civilizacionais, que estamos a viver. O facto de o prestígio científico do ISCTE não ter sido afectado, e os meus estudos e conhecimentos, levam-me a pensar que o problema não se resume a esta universidade. Como mostro em Reeducar o século XXI, a subjugação da produção científica aos interesses políticos dominantes, não apenas no campo das ciências sociais, é um dos cancros desta sociedade que apodrece a olhos vistos, sem que as gerações mais educadas de sempre, em Portugal, na Europa e no mundo ocidental, estejam a conseguir reagir nem ao aquecimento global nem à guerra, como bem notaram Greta Thunberg e seus infantis seguidores.

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Uma resposta

  1. O excelente texto do António exemplifica muito bem como as elites entrincheiradas nos vários poderes usam a academia para projectar os seus interesses mais mesquinhos e oportunistas. Mas tais factos sugerem-me ir um pouco mais longe. Claro que muita gente bem e mal intencionada agita o espantalho da corrupção, geralmente não para a combater de facto (Desventuras), mas apenas para criticar inoquamente o status quo. O problema tem a ver, creio, com a corrupção LEGALIZADA e dessa pouco se fala e menos ainda se combate. Mas é essa que mais me preocupa por continuar a alastrar impunemente. E depois, as virgens ofendidas ainda se queixam da abstenção massiva. Queriam o quê????

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