Ucrânia: fazer da grande confusão uma luz anti-imperial

« Refuser de donner, négliger d’inviter, comme refuser de prendre, équivaut à déclarer la guerre ; c’est refuser l’alliance et la communion. Ensuite, on donne parce qu’on y est forcé, parce que le donataire a une sorte de droit de propriété sur tout ce qui appartient au donateur. Cette propriété s’exprime et se conçoit comme un lien spirituel (…) les individus et les groupes (…) se traitent à quelque degré comme des choses ».  Marcel Mauss in Essai sur le don, 1923.

“Recusar dar, negligenciar convidar, assim como recusar receber prendas, equivale a declarar a guerra: é recusar a aliança e a comunhão. As pessoas dão porque são forçadas a isso, porque o donatário fica com uma espécie de direito de propriedade sobre tudo o que pertence a quem recebe. Essa propriedade exprime-se e concebe-se como uma ligação espiritual (…) [em que] os indivíduos e os grupos (…) se tratam de algum modo como coisas” (tradução minha do trecho acima citado).

 

A crise ambiental bate-nos à porta insistentemente, todos os dias, com fogos, secas, inundações, fenómenos atmosféricos extremos, esgotamento das fontes de energia barata. A prioridade às políticas de adaptação ao novo clima que se está a transformar num ritmo mais rápido do que o previsto nos cenários mais pessimistas desenhados pelos cientistas foi declarada pela ONU – incluindo os principais países ocidentais – na COP26, em Novembro 2021. Foi substituída pela guerra em Fevereiro de 2022.

A diferença entre as declarações e as práticas políticas exasperam os cidadãos, faz muitos anos. Os ambientalistas e os povos que sofrem mais intensamente as alterações climáticas não sabem o que fazer: esperar que haja bom-senso ou denunciar o desastre anunciado? Com a guerra, tais vozes tornam-se ainda mais irrelevantes.

Na pandemia COVID 19, os povos a viver sob estados descapitalizados não beneficiaram das vacinas. Felizmente não constituíram, como se chegou a temer, foco de continuação da pandemia. Também a respeito do ambiente não se sabe se há que ter esperança de tudo se vir a resolver sem grande intervenção humana ou se é preciso, de facto, mudar comportamentos. Em qualquer cenário, estão a ser e serão os grupos sociais mais desfavorecidos, os que menos meios têm para se protegerem, os primeiros a serem atingidos e com mais dureza pelas alterações climáticas. Com a guerra, a discussão passa a ser como organizar a sobrevivência às mãos do inimigo, o império.

Diz-se campismo à escolha de campo que nos foi colocada: qual das forças imperiais parece menos má? O aumento das desigualdades, dos abusos de poder, das limitações às liberdades, da destruição do meio ambiente, de práticas industriais danosas do ambiente e das sociedades, as lutas de classe, são preocupações forçadamente suspensas, em nome da guerra e da obrigação moral de fidelidade aos seus, ao seu campo.

Deixar a guerra aos que dela beneficiam, aos que entendem a guerra como uma oportunidade de progresso tecnológico e social, é suicidário. Porém, não há nenhum mecanismo democrático que permita uma discussão racional sobre a condução das guerras, muito menos sobre as declarações de guerra. São os generais e almirantes os técnicos que podem sugerir, no quadro das respectivas hierarquias, aquilo que se pode ou deve fazer, a coberto do segredo de estado e das campanhas de manipulação da opinião pública, incluindo censura, lideradas por políticos, eles próprios nacional e internacionalmente organizados hierarquicamente entre si. Os cientistas que trabalham em armamento, sujeitos ao segredo, vêm as suas funções especialmente valorizadas nestas circunstâncias.

Na primeira Guerra Mundial, um pequeno partido revolucionário usou a desmobilização auto-organizada dos militares russos para fazer um golpe de estado, em 1917. Isso começou uma guerra civil, em nome dos trabalhadores, a revolução soviética. Não impediu nem a segunda Grande Guerra nem as histerias nacionalistas e racistas na Alemanha e por todo o lado. A derrota definitiva da revolução soviética, setenta anos depois de ter começado, foi recebida pela maioria como uma oportunidade de paz global. Infelizmente, como tinha explicado Marx e o tornou a grande referência teórica do século XX, o capitalismo vive das crises, gera as guerras, faz disso lucros. O neoliberalismo globalizado não democratizou ninguém e foi sempre acompanhado pela guerra, contra os Palestinianos, o socialismo no Chile, as drogas, o terrorismo islâmico, os imigrantes, as dívidas dos outros, a pandemia. A perspectiva da criação de uma aldeia global transformou-se, como a avozinha do Capuchinho Vermelho se transformou em lobo, na vertigem que parece conduzir-nos a um vórtice nuclear, antes mesmo de o vórtice ambiental ter tempo de ocorrer – o que foi antevisto por Freitas do Amaral, em 2003, em Do 11 de Setembro à Crise do Iraque.

Como fazer da esperança o resultado prático do desfecho desta guerra, como aconteceu com a União Soviética e a América no pós-guerra? O melhor que ficou dessas esperanças, entretanto falidas, foi a) a solidariedade e auto-controlo internacional através da ONU, cuja reformulação democrática urge há muitos anos, b) as críticas ao papel opressivo dos estados, democráticos e totalitários, fundados no patriarcalismo, no paternalismo, na filantropia, na meritocracia, na corrupção, no gangsterismo, na exploração da Terra, e c) a crítica às ciências burguesa e proletária, i.e., às limitações ideologicamente impostas pelos estados promotores das guerras e dos campos imperiais à produção científica.

O estado permanente de guerra imposto pelas grandes potências é pretexto para abusar emocional e fisicamente das pessoas, para melhor as explorar a elas e à Terra no seu todo. Há que combater contra a guerra, em vez de irrealisticamente esperar para a ruptura das ofertas de consumo voltem ao normal. De nada servem as discussões sobre quem é a favor de Putin e quem é a favor dos valores da democracia. O que é preciso pensar é sobre que estado poderá oferecer o direito às pessoas de regular as guerras, de lutar pela paz, contra os nacionalismos e outras formas de discriminação? Como se poderá libertar a ciência de modo que o pensamento em vez de nos tolher, como acontece hoje, nos possa oferecer esperança de libertação e inteligência?

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