Será possível que a pandemia tenha sido inventada para nos incomodar? (2)

A primeira parte deste artigo está disponível aqui.

Desde 2008, com a falência do sistema financeiro global e o seu resgate cobrado aos contribuintes de todo o mundo, há quem pense na necessidade de se fazer uma revolução. Uma revolução que acabe com as mentiras na política, com a corrupção sobretudo nas organizações que (não) cuidam de proteger as pessoas dos desastres naturais, como fogos ou tremores de terra, de preferência que acabe com as guerras e a miséria. Infelizmente, a essa necessidade, em termos de organização, tem correspondido o reforço meteórico de partidos neo-nazi-fascistas, representados por políticos que imaginam a revolução como mais guerra e mais miséria, como negacionismo dos problemas ecológicos, dos problemas de saúde, negação da realidade de uma forma geral.

Nos EUA aconteceu uma réplica de revolução, sob a forma de farsa. A tomada do Capitólio simulou, a dois séculos e um terço de diferença, a tomada da Bastilha e, a um século de distância, a tomada do Kremlin que colocou comunistas no comando do império russo. Antes disso, durante todo o ano 2020, de má memória, os estados que não se entendem para resolver a crise financeira, as crises migratórias e de refugiados, a crise ambiental, que não conseguem manter os acordos militares que reduzem as hipóteses de guerra, num ápice, sem aviso, sem discussão, adoptaram em toda a parte um discurso único: se a Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que há uma pandemia, é por que há uma pandemia e, para prevenção da saúde, embora pouco ou nada se saiba como fazer – pois se descobriu que a esse respeito sabemos tanto como os nossos avós que enfrentaram a Peste Negra – vale tudo o que os políticos decidam fazer.

Tal como na Idade Média, os políticos, queiram ou não, acreditem ou não, para não serem acusados de negacionismo ou indiferença (como estão a ser acusados os líderes políticos dos movimentos neo-nazi-fascistas), são obrigados a desenvolver políticas sacrificiais, oferendas aos deuses, para que fique claro que não serão os políticos quem descura a saúde das populações.

Se hesitam em tomar medidas “duras” contra as populações, logo a comunicação social monta uma campanha usando a lógica sacrificial. Se nos sacrificarmos todos (dizem cinicamente, sabendo haver grupos sociais de risco bem definidos e muita gente sem condições de cumprir as regras ideais) seguramente seremos recompensados pela redução da doença, com o recuo do inimigo, como se diz também. Se não cumprirmos as regras recomendadas/impostas, se não aceitarmos as vacinas facultativas/sob registo, seremos castigados com mais doença e, para aprendermos, ficamos sem autorização para ter acesso a certos meios ou recursos. Para começar, as fronteiras vão fechar-se para quem não tenha um passaporte sanitário.   

A par da (farsa de) revolução política organizada à moda nazi-fascista, como contrafogo aos desejos revolucionários platónicos de cada vez mais gente, 2020 despoletou uma revolução organizada a partir do campo da saúde. Campo que expurgou da memória social o Dr. Mengele e os seus miseráveis colaboradores anónimos, gente que continua a existir à escala dos campos de concentração que existem hoje, à sombra da negligência generalizada na prevenção da tortura que não para de aumentar.

A primeira resistência cognitiva a enfrentar para entender como e se a pandemia em que estamos mergulhados pode ser fabricada é equivalente à resistência cognitiva que apaga as evidências da existência de cumplicidades de pessoal de saúde na organização da tortura, em Abu Ghraib, Guatanamo, nas prisões secretas da CIA, nos campos de reeducação da China, na prisão de Monsanto ou nas instalações do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras no aeroporto de Lisboa. As dificuldades dos estados em abolir a tortura e condenar os torturadores, em vez de os usar, está bem à vista no caso Assange, vítima de um complot judicial denunciado pela ONU entre os poderes judiciais norte-americano, sueco e britânico, às ordens da presidência dos EUA. A Assange, sem julgamento, estão-lhe a ser recusados os direitos de defesa e, segundo os seus advogados, o objectivo é matá-lo por falta de condições de saúde na prisão de alta segurança em que está isolado.

Desde a preparação dos envenenamentos até ao acompanhamento das execuções, das práticas de tortura que mantém as pessoas vivas, há pessoal de saúde capaz de fazer ou assistir a actos radicalmente imorais, geralmente discretamente, sob protecção de estados e alheamento do escrutínio público.

Evidentemente, todo o mérito do pessoal de saúde, confrontado com as consequências da pandemia, mantendo-se heroicamente na frente de cura dos doentes que chegam aos hospitais, não fica beliscado pela dura realidade da tortura. As classes dos médicos e dos enfermeiros, como as de todos os outros profissionais, são usados de maneiras muito distintas pelas organizações, pelos estados. Com a pandemia, a medicina e alguns médicos substituíram as finanças e a economia nas explicações e nos escrutínios das políticas públicas.  

No século XVIII, no tempo de Pombal, os novos conceitos de saúde pública, como a higiene, tornaram a medicina e alguns médicos indispensáveis para organizar as novas cidades e as novas habitações, arejadas e capazes de permitirem distanciamento físico aos peões, impossível nas velhas cidades medievais. Cidades preparadas para cumprir funções sociais modernas, cujos princípios de organização foram sintetizados por Bentham no seu panóptico, um modelo arquitectónico simbolizando o individualismo vigiado e auto-regulado a que a modernidade aspira para controlar os seres humanos que não sejam cúmplices do projecto revolucionário da burguesia. Cidades à volta das quais se agregaram bairros populares em condições de higiene bem distintas das recomendadas.

Muita água passou por debaixo das pontes. Os médicos deixaram de fazer parte dos quartéis generais que planeiam as cidades. As exigências de higiene pública passaram a estar entregues às indústrias e serviços de saneamento básico, águas e energia. As pessoas aprenderam a cuidar da sua saúde. As vacinas foram e são excelentes complementos para conseguir lidar com doenças endémicas que não são evitadas pela socialização da higiene. As vacinas são úteis para manter activa a população trabalhadora, mas de pouco servem como negócio: os trabalhadores ganham pouco e foram habituados a recorrer aos serviços de saúde apenas quando se sentem incapacitados. Produzir vacinas eficazes e seguras demora muitos anos e, portanto, exige largos investimentos de muito longo prazo: é como plantar árvores de crescimento lento. As necessidades de lucros imediatos tornam as vacinas desinteressante e mesmo contraproducentes: se houver menos doentes, as farmácias terão menos clientes.

Um mural altamente controverso a particularmente suspeito e perturbador, no aeroporto de Denver, nos Estados Unidos da América

De planeadores da sociedade moderna, os médicos tornaram-se em último e caro recurso para pessoas que deixaram de poder mexer-se, digamos assim. A medicina ocidental, ao invés, por exemplo, da medicina chinesa, é uma medicina curativa, excelente a evitar que as crises de saúde resultem em morte ou incapacidades para trabalhar. A medicina preventiva também existe. É o parente pobre, esquecido, dos serviços de saúde. Dá pouco rendimento e, uma vez aprendida, como a higiene, dispensa os serviços profissionais e empresariais. Ainda que a prevenção da saúde seja mais barata do que a medicina curativa, tal como acontece noutros sectores da vida social, como as prisões, a educação, a organização urbana, a corrupção da vida económica, as acções preventivas são sistematicamente negligenciadas, ignoradas ou mesmo boicotadas.

A disciplina empresarial, profissional, pessoal, moderna caracteriza-se, precisamente, pelo correr de riscos, pelo atrevimento, pela concretização de modelos de negócio, por formas expeditas de ganhara vida mesmo se à custa da saúde do empresário, profissional, trabalhador aventureiro. Mesmo à custa de terceiros ou de todo o mundo, como o meio ambiente. Todos estamos conscientes dos desastres ecológicos provocados pela acção humana. Porém, em resposta a apelos interiores para corresponder à modernidade, apoiados em estímulos externos omnipresentes na publicidade, na propaganda, nas escolas, todos os que podem continuam a fazer aquilo cujo resultado prático é insustentável. Quando isso não é possível, como durante os longos confinamentos para combater a pandemia, desejamos arduamente voltar ao normal, isto é, ter acesso a rendimentos suficientes para sobreviver às exigências irrealistas da vida moderna.

Não se pode exagerar a revolução que seria, ou será, se a prevenção da pandemia COVID-19 se tornar um novo e revolucionário paradigma cultural e civilizacional. Em vez da produção, incluindo a contaminação do meio ambiente, a prioridade da humanidade passaria a ser cuidar de si, evitar os sofrimentos próprios de uma doença endémica e, presumivelmente, de todas as doenças. Uma vacina que iniba a COVID-19 vale bem um investimento público global, caso seja uma medida preventiva, isto é, caso seja o despoletar de uma revolução. Claro, uma revolução incomoda muita gente… Mas sem rendimentos, como poderão viver os milhões de pessoas privadas das suas actividades normais?

(continua)

A terceira parte deste artigo está disponível aqui.

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5 respostas

  1. Ainda a invasão do Capitólio!
    Um exame atento aos videos, fotos e informações deste acto apelidado por alguns de golpe, mostra bem que não se tratou de nada disso, nem perto.
    A total complacência e brandura das autoridades presentes para com os manifestantes que já se sabia ao que iam, comprova a “política das forças da ordem” do deixa arder, já antes usada no âmbito dos ataques brancos a manifestantes negros.
    O total à vontade e arrogância dos manifestantes e a sua deambulação sem objectivo pelas salas e corredores também mostra que ninguém sabia bem o que andava ali a fazer. Ou seja, foi uma passeata apenas pela passeata, como aquelas manifs da CGTP que sempre se esgotam em si próprias, sem nenhum objectivo a não ser fingir que a coisa anda, mas não anda.
    Depois, a presença de diversos elementos de forças policiais e militares entre os manifestantes e arruaceiros, inclusive entre os que dirigiram a farsa, é um claro sinal de quanto essas forças estão infiltradas e dominadas por perigosos elementos conspiracionistas e extremistas.
    Se eu fosse mauzinho, poderia pensar que isto foi apenas um ensaio, um apalpar do terreno para acções futuras que entretanto têm sido anunciadas em todo o país.
    Ou seja, é o american way of life no seu melhor.

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