Será possível que a pandemia tenha sido inventada para nos incomodar? (3)

A primeira parte deste artigo está disponível aqui, e a segunda pode ser acedida aqui.

O ano de 2020 transformou a normalidade tão apreciada pelos políticos do centrão. Centrão que foi posto em causa com a crise financeira de 2008. Para lidar com a falência do sistema financeiro global foram tomadas medidas conservadoras drásticas e radicais: dinheiro de helicóptero pelos ares, para os bancos e os investidores, e desrespeito pelos direitos humanos, em terra, de populações protegidas que foram violadas nas fronteiras dos estados mais ricos do mundo. Em 2020, num ápice, sem aviso, quando corriam rumores de que os novos níveis sempre mais elevados de dívida estariam a produzir os mesmos efeitos financeiros globais de 2008, apesar do sucesso económico nos EUA liderado por Trump, todo o mundo declarou o alarme de pandemia e fechou a economia. Isso foi uma revolução: nunca os humanos tinham decidido confinar os saudáveis para proteger os doentes. A civilização moderna agressiva, orgulhosa por assumir riscos à custa do salve-se quem poder, revelou-se (a sério?) cuidadora dos idosos vulneráveis e dos doentes. Tudo isso se impôs à vontade arrogante e desapiedadamente moderna do presidente Trump, que acabou por perder as eleições norte-americanas com mais votos do que alguma vez conseguira qualquer outro candidato, excepto Biden, eleito em 2020.

Em pano de fundo da política global há a contradição entre a China comunista-capitalista e multilateralista, motor do crescimento económico do mundo, e os EUA capitalistas, incapazes de cuidar da saúde das suas populações e, em desespero, unilateralistas.

O confinamento geral foi a receita seguida pela China, sob a tutela autoritária do PC Chinês, quando o sistema de saúde em Wuhan se revelou incapaz de cuidar dos doentes que chegavam aos hospitais. Pequim recriminou os dirigentes provinciais pelo sucedido e substituiu-os, ao invés do que fez em Hong-Kong. Mandou construir um hospital de raiz em 15 dias. Mobilizou todos os seus recursos, incluindo os doentes e os saudáveis da cidade.

O cuidado das populações, na sequência da política de introdução do capitalismo no país, foi a razão alegada pela política comunista para ceder ao inimigo ideológico e estratégico, o capitalismo. Foi legitimado pela entrada de milhões de chineses para as classes médias, saídas directamente da miséria, durante as últimas décadas. A falha de Wuhan, cuja origem a Organização Mundial da Saúde (OMS) começa agora a investigar, um ano depois – certamente depois de todas as pistas terem sido revistas e reapresentadas pelas autoridades chinesas – foi considerada politicamente insustentável. O PC Chinês utilizou a OMS. Surpreendeu-a com um apoio incondicional à sua velha estratégia de alarme pandémico, também apoiada e desenvolvida por Bill Gates, e a que nunca ninguém tinha dado grande atenção. Trump, arqui-inimigo da China, armado em seu desleal concorrente comercial, tinha fechado a pequena iniciativa de Obama de criar um gabinete de crise atento à questão tão cara a Gates.

Sem perceber a revolução que aí vinha, Trump agradeceu displicentemente à China a informação sobre o novo vírus e a forma decidida como tratou do assunto. Trump gostaria de lhe ser possível resolver também à bruta qualquer problema que lhe aparecesse pela frente, como fazem Kim Jong Un e o presidente Xi, líderes vitalícios da Coreia do Norte e da China. Com base nas informações científicas interpretadas como habitualmente, os conselheiros do presidente norte-americano explicaram-lhe que havia na declaração de pandemia um truque de dramatização para consumo interno. Todo o ocidente encarou o caso como algo parecido com a SIDA ou a ébola e outras pandemias. Os políticos remeteram-na para segundo ou terceiro plano das suas preocupações. Porém, na zona de Milão os hospitais entraram em colapso com o excesso de presença de doentes que não podiam ser estigmatizados, pois eram utilizadores de viagens de negócios com a China, motor da economia mundial. O vírus tomara os aviões.

Na Europa de Erdongan, de Orbán, de Salvini, em que a Sra. Merkel que tinha liderado a política de estigmatização xenófoba dos países do Sul da Europa para os culpabilizar pela falência do sistema financeiro global se tornara a frente de resistência contra o avanço do racismo na política, grande parte da comunicação social, em estado de pré-falência devido à concorrência das redes sociais e ao descrédito pelo facto de ter apoiado o centrão em recuo, contra os factos quando foi preciso, entendeu a oportunidade como um motivo justificado para se passar de armas e bagagens para o lado dos novos vencedores. Passaram a apoiar os políticos que, como a comunicação social, vivem de excitar as emoções populares adormecidas pela grande anestesia política aplicada pelo centrão, pelo neoliberalismo, desde os anos 80 do século XX. Na verdade, antes mesmo do vírus ter chegado a Portugal, sem que o governo ordenasse seja o que for, a população auto-confinou-se. Maravilha das tecnologias modernas, da auto-flagelação, do medo da ignorância, do medo das elites. Esgotaram os stocks de papel higiénico, numa reacção popular que ainda carece de explicação.

Nos EUA, como no Brasil, os neo-nazi-fascistas novatos na política internacional não viram o que se estava a passar. A União Europeia, sobretudo a Alemanha e a França, procuravam manter-se multilateralistas (para o exterior). Procuravam também pretextos para alinharem com a China (e a Rússia, nomeadamente por causa do gás natural concorrente com o gás natural norte-americano), apesar da organização imperial não o permitir facilmente. Os países da União Europeia receberam ordens superiores para acompanhar a tese do desastre natural. O que se passa a seguir não foi a descredibilização dos EUA, mas defesa da saúde dos cidadãos. Como Pequim, Bruxelas também não quereria ser acusada de descapitalização dos sistemas de saúde para satisfazer as necessidades financeiras dos investidores falidos, amigos das elites. Quanto maior a histeria mediática, do género daquela que inverteu o sentido de voto dos gregos em referendo, melhor. Dos sectores que imediatamente foram apoiados por medidas extraordinárias estatais contra a falência do confinamento, sem surpresa, foram os órgãos de comunicação social tradicionais, com os quais os governos podem falar e combinar estratégias de comunicação. O que aconteceu continua, um ano depois, a ocupar a comunicação social e os nossos sistemas nervosos. A economia, essa, digitalizou-se de uma forma acelerada, como propunham Bill Gates e todos as famílias dominantes, beneficiárias e inspiradoras das políticas de globalização. Os mercados estão muito animados com a pandemia e os lucros dos mais ricos não param de crescer.   

Nos EUA, país da liberdade de iniciativa e do governo mínimo, decidiram manter-se fiéis à lógica do costume: manter as melhores condições para o crescimento da economia, que é o que dá votos. A saúde – que tinha sido um dos elementos principais da disputa eleitoral, mas que o Partido Democrático arredou com o afastamento do “perigoso” Bernie Sanders -, aos olhos dos políticos e jornalistas norte-americanos dominantes, só era um problema para os comunistas. Quando percebeu o engano, Trump passou a atacar a China, os comunistas, a conspiração global que o pretendia atingir a ele. Os elogios iniciais dirigidos à China tornaram-se chistes racistas. O que mobilizou os eleitores de Biden para a maior votação de sempre, acima dos números de Trump, não foi o anti-fascismo ou o anti-racismo, mas o medo do vírus que, entretanto, matava que se farta em todo o mundo.

Ganharam, para já, os multilateralistas. A China tomou o lugar dos EUA no acordo de comércio “livre” na Ásia-Pacífico.

Afirmar que a pandemia foi uma conspiração chinesa, di-lo Trump que jamais reconhece o estúpido que é. Porém, não basta dizer que a pandemia é um fenómeno natural. Trump também é um fenómeno natural. É preciso compreender os modos como a circulação do vírus, que já estava connosco antes de 2019, se tornou vedeta em 2020. Porque é que todos os países de mundo, apesar da resistência dos movimentos neo-nazi-fascistas e de muitos outros menos organizados e com objectivos diferentes, declararam uma guerra ao vírus destruidora das alegadamente sacrossantas economia e finanças globais.

Tal como as inundações ou os tsunamis ou os tremores se terra são desastres naturais, ou não, consoante as construções humanas que lhes resistem, ou não, também uma virose se torna, ou não, numa pandemia em função do tecido social que encontra e através do qual se multiplica. Por outro lado, a economia global que é o motivo de convergência dos multilateralistas pode estar em falência e, por isso, uma paragem técnica pode dar tempo para uma reorganização estratégica: não é a essa necessidade que se dirige o Fórum Económico Mundial, quando propõe o Great Reset?

(continua) 

A quarta parte deste artigo está disponível aqui.

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