Jornalista que Investigou Camarate, Atirou-se da Ponte e Foi Literalmente “Apagado” da Internet

Quando a 4 de Dezembro de 2000, foi anunciado nos telejornais que o jornalista Miguel Ganhão Pereira da TVI se tinha atirado da ponte 25 de abril, pelas 22h15, depois de calmamente estacionar o seu veículo na ponte, no sentido Norte-Sul, ninguém podia acreditar. Sem nenhuma aparente explicação para o suicídio, o filho do jornalista da RTP Rui Ganhão Pereira, era casado com a Ana Freitas, repórter da SIC (hoje casada com Daniel Cruzeiro, diretor executivo da SIC), e tinha uma filha de meses, nascida no Verão. Porque se quereria suicidar um jornalista bem sucedido, com uma filha acabada de nascer? Até amigos próximos demonstraram total perplexidade pelo facto do jornalista desejar morrer nesta altura da sua vida, sobretudo através de um suicídio tão dramático e desesperante. Encontramos, por exemplo, um relato emotivo de uma amiga de família na página “Mulher Portuguesa” que fala da sua infância e deixa uma palavra de saudade à criança feliz que outrora ela conhecera.

No blogue “Pau para Toda a Obra”, um testemunho de colegas da TVI refere que a sua morte trágica marcou profundamente a redação daquela estação de televisão: “há quem chegue mesmo a lembrar o suicídio de Miguel Ganhão Pereira, alegando que o jornalista não terá aguentado a forma como era tratado e, por isso, pôs termo à vida”. Também o jornalista José Carlos Soares refere que Miguel teria sido enxovalhado várias vezes na redação por alguns dos seus superiores hierárquicos ao compararem o seu trabalho sério e profundo de investigação sobre o Caso Camarate com a reportagem de cinco minutos do seu colega sénior Henrique Garcia que filmara o acidente da avioneta em Camarate em 1980. Segundo José Carlos o desprezo pelo seu trabalho profissional terá sido a gota de água, porque levava a sua profissão muito a sério e com paixão. A sua voz única, o seu ar sempre moreno e “arrumado”, o seu espírito descontraído mas confiante faziam também parte da sua marca pessoal, no jornal da “Última Edição” da TVI.

Naquela noite de 4 de dezembro de 2000, o corpo do jornalista de 29 anos, recolhido pela Polícia Marítima, foi imediatamente reconhecido segundo relato oficial, e passada uma hora a notícia era dada nos noticiários como notícia de última hora. O impacto trágico no público televisivo foi comparável ao da morte de Sá Carneiro, na fatídica noite de 4 de Dezembro de 1980, atentado ocorrido também no início da noite. No site da TVI, em sua memória, nessa noite, foi colocada quase instantaneamente uma nota em sua honra: “O pior receio de Miguel Ganhão Pereira é perder o privilégio de fazer aquilo que gosta. Não perdoa um erro cometido por si e deixa que sejam os outros a avaliar as suas qualidades. É desta forma que o site oficial da TVI descreve o jornalista, que esta noite pôs fim à vida”. Talvez esta nota se destinasse essencialmente a aliviar algumas consciências da TVI, pela forma como desrespeitavam o seu trabalho sério e dedicado.

Mas o que não foi escrito sobre esta estranha morte, é que o jornalista se suicidou exatamente 20 anos depois da morte do assassinato coletivo de inúmeras personalidades políticas em Camarate, atirando-se de uma ponte que é um símbolo literal muito forte associado à Revolução e por consequência ao caso de Camarate. Exatamente no mesmo dia 4 de Dezembro? E na altura o símbolo da TVI era um “4” inspirado na Cruz de Cristo das caravelas portuguesas dos Descobrimentos, símbolo que se encontrava em concurso para ser alterado, nesse preciso momento? Quem vai acreditar neste rol de coincidências? E porquê Miguel Ganhão?

A investigação completa e reveladora que ele realizava desde 1995 sobre Camarate e que resultou numa mini-série de reportagens extremamente analíticas da TVI sobre este crime, em que muitas verdades inconvenientes foram reveladas, poderá ter estado na origem deste fim trágico. Mas as razões da sua morte nunca foram realmente reveladas ao público a não ser um comentário vago sobre “como não aguentou a forma como era tratado”. O motivo, antes pelo contrário, parece ter sido escondido, abafado, dissimulado da imprensa e dos noticiários. E hoje, quase nada consta de Miguel Ganhão Pereira, nem fotografias suas na internet para além da notícia resumida da sua morte do Jornal Público, que foi repetida por igual em quase todos os jornais como se de um fax da Agência Lusa se tratasse. Apenas conseguimos encontrar um video de uma pequena reportagem em Ferreira, e outro, sobre o incêndio de Cascais no verão antes da sua morte, nada mais. Até o seu funeral, filmado pela TVI tentaram apagar por via legal, já na época (agora apagado).

Encontramos ainda alguns excertos da sua imagem enquanto jornalista no pequeno video de 2 minutos em sua memória realizado pelo seu colega da TVI, Jorge Nuno Oliveira em junho de 2017. E da reportagem brilhante que realizou sobre Camarate tudo, absolutamente tudo foi apagado, mesmo tratando-se de uma reportagem realizada para uma televisão. Tudo excepto um pequeno excerto, filmado de uma televisão, que por enquanto, ainda “flutua” à deriva no mundo virtual, até vir a a ser, também ela, a última memória apagada. Neste excerto fica claro que a investigação de Miguel Ganhão chegou a ligações de empresas que traficavam armas para as nossas ex-colónias e que terão levado à morte de Adelino Amaro da Costa que tinha ameaçado desmontar essa rede, e Sá Carneiro que no mesmo dia em que morreu, à noite, no seu tempo de antena para as eleições presidenciais, tinha acusado o General Ramalho Eanes de ter estabelecido uma aliança com o Partido Comunista, pondo em causa a democracia. Segundo Miguel Ganhão o Major Canto e Castro era uma peça fundamental em toda a trama, e que estaria escondido na Guiné-Bissau ou no UK.

Já em 1995, a TVI divulgara uma primeira confissão de Farinha Simões onde este já falava no nome do major Canto e Castro. Miguel Ganhão Pereira relacionou depois os militares com Camarate e o tráfico de armas com países africanos. Constate-se ainda que o então Presidente da Assembleia-Geral da ONU, Freitas do Amaral, ao contrário do jornalista da TVI, não achava ainda oportuno dizer publicamente o que disse posteriormente, ou seja, que suspeitava que o negócio do tráfico de armas para a guerra Irão-Iraque tinha estado por detrás do atentado de Camarate. Também é curioso que Henrique Garcia, colega sénior de Miguel Ganhão no Telejornal da TVI, tenha sido o jornalista escolhido pela RTP em 1980 para ir fazer a reportagem do desastre de Camarate. Este jornalista, que se reformou da TVI em 2018, reportou os primeiros momentos in situ, da morte de Sá Carneiro, mas coincidentemente tinha também gravado as imagens do mesmo Sá Carneiro, no aeroporto de Lisboa, uns minutos antes. As imagens gravadas no aeroporto foram retidas pela Polícia Judiciária e nunca foram mostradas na televisão por constituírem elemento de prova na investigação.

Sem dúvida que esta investigação apaixonante de Miguel Ganhão era o sonho de qualquer jornalista e ele soube fazê-la como ninguém. Mas terá sido esta a principal causa deste estranho “suicídio”, do qual quase nada se falou nos dias e semanas seguintes nos telejornais e até nas revistas cor-de-rosa? Estaria ele ao atirar-se da ponte a proteger a sua esposa e filha contra alguma ameaça contra a sua família, por ter “escavado” demais no caso Camarate? Miguel Ganhão era uma pessoa calma, racional e não parece ter o perfil de alguém desesperado que se atire de uma ponte num ato tão simbólico, para chamar as atenções do país inteiro, justamente no mesmo dia 4 de dezembro da tragédia de Camarate? Que mensagem quis ele transmitir ao escolher o mesmo dia e hora aproximada, exatamente, a hora a que dizia as notícias na TVI, na sua “Última Edição”?

E o que devemos pensar do diretor de programas da TVI no momento da morte de Miguel Ganhão, José Eduardo Moniz, que em 2008 foi convidado para um almoço-surpresa de forma a assinalar o 10º aniversário da TVI (15 anos depois da sua criação…?), durante o qual este classificou como o pior momento desses dez anos “a morte do jornalista Miguel Ganhão Pereira em circunstâncias muito dramáticas”, numa altura em que a TVI mudava de logótipo (Setembro de 2000) pois, “era a entrada de uma nova Era que se estava a materializar“, citando as suas próprias palavras. Também o filme “Camarate”, excelentemente realizado por Luís Filipe Rocha, revela as suspeitas de tráfico de armas por parte de algumas altas patentes do Exército, alguns pertencentes à Maçonaria, e tráfico de diamantes que envolviam também políticos e famílias de renome.

Miguel Ganhão Pereira, um excelente profissional de jornalismo, terá sido apanhado na teia de corrupção de Camarate?

Texto de Pedro M. Duarte

 

2 comments

  1. Gostei. Já nem me lembrava deste rapaz.
    Na altura fiquei desconfiado das razões.
    Mas o tempo, como em tudo, vai apagando memórias.

  2. Este país é feito por pessoas que nunca quiseram largar a ditadura, que vem dos seus primórdios. Se por exemplo O Dr. Salazar fosse vivo o que pensaria de tudo isto? Eu pergunto, foi para isto que matamos um Rei e deposemos um Ditador? Insólito não è?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s