Será possível que a pandemia tenha sido inventada para nos incomodar? (4)

O primeiro artigo desta série está disponível aqui, o segundo pode ser acedido aqui, e o terceiro está disponível aqui também.

Para responder de forma desagradável, mas afirmativamente à pergunta, como vimos nas publicações anteriores desta série, devemos ter em conta que a medicina tem servido a humanidade para curar doenças, mas também para usar os humanos como cobaias, seja na guerra química, nos genocídios ou nas torturas. Devemos também ter em conta que a humanidade construiu uma organização global de conflitos, lutas e guerras em torno da discussão do poder, de quem manda mais, de quem é o macho alfa. Este modelo de luta é usado a todos os níveis da realidade, desde a casa de família até ao topo, opondo Washington a Pequim. E quando os paquidermes lutam entre si usam todos os instrumentos ao seu dispor.

O planeamento é um desses instrumentos capazes de, através do endoutrinamento e do treino, incorporar os desejos do poder mesmo nas pessoas que são oprimidas por ele: principalmente pelas pessoas que são oprimidas directamente pelo poder abusador.

O abuso sexual de crianças é um fenómeno muito mais vulgar do que se quer imaginar. Apesar da repugnância que tais tipos de conduta provocam, quiçá aos próprios abusadores, as sociedades modernas encobriram esse tipo de crime até há muito pouco tempo. Hoje, com a sua criminalização, passaram a pôr-se alguns dos abusadores (e outras pessoas vítimas de erros judiciais) a cumprir penas de prisão. Mas não se conhecem formas de ajudar os abusadores que querem deixar de o ser a aprender a comportarem-se de modo a evitar continuar a cometer crimes. Tal como as adições do tabaco, do álcool e de outras drogas, deixar de ser abusador – isso sabe-se – é frequentemente difícil para quem comete esses crimes.

Madoff foi um herói de Wall Street, o Ricardo Espírito Santo da bolsa de Nova Iorque, acusado e condenado após a falência do sistema financeiro global. Fez as suas famas e fortuna através de cometer sucessivos e sistemáticos actos criminosos. Tal como era então corrente, também em Portugal, a liberdade de iniciativa económica dos investidores era total, incluindo a liberdade de violar os códigos criminais de conduta. Dizia-se, então, como dizia o presidente Jorge Sampaio, que os crimes de colarinho branco passavam impunes e, relacionado com isso, o financiamento dos partidos políticos usava essa impunidade. Quando foi preso Madoff, em Nova Iorque, e Ricardo Espírito Santo ficou sem o seu banco, em Lisboa, os políticos de serviço logo se apressaram a dizer que afinal a justiça estava a funcionar igual para todos, ainda que as prisões continuassem cheias de pilha-galinhas condenados por bagatelas penais. Quando em 2019 recomeçaram a correr as notícias de se estar a atingir um quadro financeiro global semelhante, para pior, do que despoletou a crise de 2008, isso só pode querer dizer aquilo que também já se sabia: as práticas financeiras e políticas endureceram, mas não mudaram.

Nas escolas e nas universidades, os professores não ensinam aos alunos o que representou a crise global de 2008. As escolas e universidades continuam a formar profissionais preparados para servir nos postos de trabalho desenhados por quem lhes pague um salário, cada vez mais baixo e precário. Para os estudantes portugueses, 2008 é uma data tão estranha quanto 1910 ou 1640. 1974 só é diferente pelas emoções que a memória da revolução de Abril ainda provoca em todos os mais velhos que a viveram. Ninguém se lembra ou refere qual foi a reacção política da União Europeia a essa crise. Começou por a negar, como voltou a acontecer com a COVID, respondendo mal, tarde e a más horas. Isso empobreceu Portugal, deixou-nos vulneráveis perante a China, originou uma onda de emigração como não se via desde os anos 60, levou do país os profissionais de saúde que hoje são necessários para enfrentar a pandemia, mas não estão cá. Que se espera que aconteça no ano 2021?

Como é possível as sociedades modernas viverem carregando segredos como os abusos sexuais, os domésticos e os institucionais, os crimes financeiros, os dos empresários e os dos estados? Serão as escolas e as universidades livres para ensinarem educação sexual, economia, história, tendo em conta realidades estruturais como as referidas? Sociedades modernas como estas podem sujeitar-se a conspirações que abusam delas, inventando doenças?

Quem leu o primeiro post sabe qual é a minha resposta. Porém, a resposta verdadeira é contra-intuitiva. Requer actualizar, transformar, substituir modos de pensar e convicções banais e muito divulgadas, como se fossem naturais, como se fossem reais e inamovíveis. Os modos de pensar e as convicções inquestionadas, comuns, partilhadas por todos, tornam-se tão ou mais inamovíveis do que as montanhas: para as terraplanar, mesmo com os meios mecânicos modernos, demora muito tempo de trabalho organizado. E no fim de terraplanar uma montanha há todas as outras para terraplanar, até que a Terra fique plana.  

Ora, o trabalho de romper com os modos de pensar correctos e as verdades adquiridas já é feito, hoje, de forma intensiva e coordenada pelos partidos políticos, pela comunicação social, pelas ONG´s, pelas universidades, pelas escolas. É mais fácil reconhecer o que está a acontecer nos países inimigos, como a Coreia do Norte, a China, a Rússia ou a Venezuela. É muito difícil admitir passar-se o mesmo em Israel ou nos EUA, e mais ainda em Portugal. Porém, se recuarmos um pouco na história veremos que as práticas de endoutrinamento, treino e planeamento distinguem radicalmente os séculos XIX, XX e XXI.

Os jornais e as escolas do século XIX eram instrumentos da burguesia, sinais de distinção social ambicionados pelos trabalhadores. Os jornais e as universidades populares eram ambições revolucionárias. 1864 foi o ano de realização do primeiro recenseamento da população e de fundação do Diário de Notícias, o primeiro jornal para um público indiferenciado em Portugal. Em 1879 fundou-se o jornal A Voz do Operário, que se proponha utilizar os problemas do desemprego dos operários para promover a sua escolarização. Este ideário operário foi transferido para as ciências sociais actuais através da tese de as escolas serem um ascensor social. Embora a asserção seja falsa, ela mantém-se firme na propaganda política e social, mesmo depois de, sobretudo após a crise de 2008, ser evidente que as melhores formações não significam melhores empregos. Em todo o caso, isso é verdade para quem não tenha os contactos e a apresentação sociais convenientes. A vida moderna pode ser bastante ingrata, por exemplo, para quem se lembre de querer viver à sua maneira, por exemplo, de uma maneira ecológica. Ao ponto de haver casos de filosofia positiva em que os seus heróis e heroínas fazem a experiência de viver sem dinheiro durante alguns meses. Concluem que é possível. Esquecem-se dos milhões de seres humanos que vivem, de facto, sem dinheiro, na fome, na miséria, em campos de refugiados.

Um pouco de esmola a troco de um voto…

A segunda metade do século XX substituiu a lógica da luta de classes e do salve-se quem puder, que tinha originado duas guerras mundiais, pela representação política das classes e pela negociação de planos de acção racionais consensualizados pelos parceiros sociais, o planeamento. Grandes vitórias das classes trabalhadoras e, também, dos empresários. Actividade planeadamente abolida na União Soviética, os negócios privados pagaram impostos acima dos 90% nos EUA nas décadas do pós-guerra. Não foram apenas os controlos das populações, de que os Censos são símbolo. A burocratização do sistema fiscal, de que ainda hoje se continuam a queixar os empresários, sobretudo os que não pagam impostos, foi uma marca indelével da nova organização dos estados modernos do século XX. Essa burocratização dos estados invadiu também as empresas, obrigadas a construir extensões dos serviços de finanças para poderem apresentar contas e pagar impostos. Hoje, grande parte da actividade administrativa do estado e das empresas é o resultado da expansão das lógicas de planeamento substitutivas das lógicas de luta de classes.

Muitos profissionais se dedicam à contabilidade. Há quem acuse os economistas actuais, mesmo os com mais elevados cargos nacionais e internacionais, de estarem viciados no Excel, nas folhas de cálculo. Por todo o lado, nas ciências sociais como no jornalismo, a ideologia da estatística e dos dados procede a uma substituição das realidades, sobretudo as realidades incómodas e repugnantes, por elegantes números elaborados em gráficos, de preferência apresentados de forma dinâmica. As escolas e as universidades ensinam, antes e mais do que tudo o resto, os estudantes a permanecerem sossegados, a controlarem a sua ansiedade pela acção, e a respeitarem os ensinamentos indispensáveis para passar nos exames, mesmo quando aquilo que aprendem se esgota no fim do exame e só serve para fins escolares.

Imaginem que os estudantes de hoje quisessem reflectir cientificamente sobre o caso Casa Pia, sobre o racismo institucional, sobre a crise de 2008? Qual programa, unidade curricular ou professor os pode atender? Ainda que haja espaços de conversa sobre tais assuntos, poderiam esses temas constar das matérias para os exames?

O leitor pode dar a resposta que entender a estas perguntas. A verdade é que não encontrará muitos jovens na casa dos vinte ou trinta anos que tenha uma ideia do que se passou em 2008 e que mudou o rumo da história recente. Na verdade, mesmo as gerações mais velhas continuam cheias de vontade em continuar a acreditar, contra as evidências e apesar dos sofrimentos, que tudo está como antes. Afinal, a maior ambição expressa aquando da crise do vírus é que tudo volte à normalidade. O mesmo desejo platónico e ignaro que orienta os políticos neo-nazi-fascistas (voltar à pureza étnica da nação), os social-democratas e comunistas (voltar ao estado social) e liberais e conservadores (que tudo volte a ser como quando os EUA eram uma esperança para a humanidade).   

Imaginem que os jovens quisessem saber o que se passa com a virose que está a ser apresentada como a causa para suspender as suas relações sociais num momento decisivo das suas vidas. Antes mesmo de aprenderem alguma coisa sobre isso, encontram-se submergidos por números, estatísticas e pareceres utilizados pelos planeadores (neste caso de saúde, em substituição dos financeiros, actual e temporariamente de folga) e divulgados obsessiva e hipnoticamente pela comunicação social, como se fosse uma escola aberta, e cujos resultados é a maior das confusões. Para decidir o que fazer, há os políticos profissionais, igualmente atarantados e incapazes de agir – afinal eles também sofreram a mesma estupidificação infantilizante em que todos fomos endoutrinados e treinados para servir os planeamentos, em submissão. Nós e os jornalistas sofremos com os políticos, pobres diabos, com a tarefa impossível de, ao mesmo tempo, acreditar no que dizem os especialistas, a ciência como dizem, e fazer aquilo que entendem dar-lhes mais jeito, seja para servir Bruxelas e os interesses que representa, seja para manterem o poder.

(continua)

A quinta parte deste artigo está disponível aqui.

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