Bolsonaro e a Guerra Híbrida contra o Brasil

Bolsonaro

Muitos temem que a eleição de Jair Bolsonaro vá transformar o Brasil num estado “pós-democrático”. A comunicação social e as redes sociais têm abordado e criticado extensivamente as suas declarações de apoio à ditadura militar Brasileira, a sua apologia da tortura, os seus comentário homofóbicos e misóginos e até a sua defesa da perseguição dos seus oponentes políticos.

Mas existem outros elementos que têm sido menos discutidos, nomeadamente, as ligações de Bolsonaro aos Estados Unidos da América e como estas ligações se enquadram na guerra híbrida que os países da NATO estão a travar contra certos países emergentes, nomeadamente, contra o Brasil.

Ao estudarmos melhor estas ligações, chegamos à conclusão que a eleição de Bolsonaro não é só uma derrota para a democracia, é uma derrota para as sucessivas tentativas de emancipação dos países ditos “em desenvolvimento”, da América do Sul e do Sul Global em geral.

O Brasil, como a Venezuela, tem sido vítima daquilo a que os analistas chamam de “guerra híbrida”- o grande objetivo desta guerra é impedir a todo o custo a emergência de um Brasil forte e independente que poderá ser um rival do Bloco Ocidental na região, e eventualmente, no mundo. Todos os BRICS (países designados como sendo economias emergentes: Brasil, Rússia, India, China e Africa do Sul) têm sido vítimas desta guerra, de formas diferentes. O Brasil parece ter sido o alvo mais fácil desta guerra, e cujos resultados têm sido mais visíveis e devastadores.

Esta guerra tem como objetivo a desestabilização política e económica do país alvo por vias indiretas e através de agentes estrangeiros assim como agentes infiltrados no terreno. Uma das vertentes da guerra híbrida é o dito “lawfare“, ou guerra judicial, em que agentes usam o sistema judicial do país alvo, juntamente com campanhas mediáticas arrasadoras e incessantes contra políticos que não se vergam o suficiente para com os poderes hegemónicos globais. No que toca à identificação destes agentes, Temer parece ser um suspeito relativamente óbvio, mas haverão mais- o sistema judicial Brasileiro está repleto de juízes corruptos que são facilmente co-optados e recrutados- pelo preço certo. Entretanto, o envolvimento da NSA e da CIA na operação Lava Jato, sem a qual a eleição de Bolsonaro teria sido impossível, têm sido alvo de várias investigações e reportagens, nomeadamente da WikiLeaks.

Torna-se óbvio que os EUA e as suas agências de espionagem estiveram profundamente envolvidas na operação judicial que acabou por ser o principal factor de descredibilização do PT e que subsequentemente abriu o caminho para a eleição de Bolsonaro. 

Quanto ao Bolsonaro ele mesmo, não é preciso especular quando às suas alianças internacionais. Ele próprio parece orgulhar-se do seu amor compulsivo pelos EUA. Lembrem-se também que o Steve Bannon, uma das principais figuras da campanha do Trump, esteve envolvido na campanha de Bolsonaro, e já veio declarar que a vitória de Bolsonaro vai aproximar os dois países. Alguns comentadores afirmam que o apoio dos EUA no contexto de uma guerra híbrida contra o Brasil terá ajudado Bolsonaro a subir nas sondagens.

Bolsonaro EUA
Jair Bolsonaro faz a continência à bandeira dos Estados Unidos da América, num evento em Deerfield Beach, na Flórida, a Outubro de 2017

E depois de uma campanha absolutamente desonesta, usando, de certeza, as ultimas tecnologias de análise de dados, manipulação psicológica e propaganda, chegamos ao final de um ciclo desta guerra híbrida com a eleição de Bolsonaro- o Brasil terá agora um presidente que se orgulha em ser subserviente aos EUA. Vai certamente tentar destruir os avanços sociais construídos pelo PT e tentar a todo o custo tornar o Brasil num país vassalo dos EUA.

E aqui é que a história vai ficar ainda mais complicada.

Já saíram vários artigos de jornais financeiros e económicos a saudar, mesmo que de forma algo indireta, a eleição do Bolsonaro, o que serve de indicação para o que poderá vir a seguir- os “mercados”, ou seja, o cartel de bancos que domina a finança global, assim como a burguesia internacional, vão “premiar” o Brasil com investimento e acordos comerciais. Donald Trump já veio declarar a intenção de fortalecer os laços entre os dois países num dos seus últimos Tweets:

Trump Tweet Brazil.png
Trump diz que falou com Bolsonaro e que os dois concordaram que os  EUA e o Brasil vão cooperar nas áreas do comércio, exército e “tudo o resto”.

Resultado? A imprensa mundial vai possivelmente poder apresentar no futuro próximo números económicos positivos, nomeadamente, através do aumento do investimento estrangeiro. Isto vai a curto prazo fazer com que indicativos importantes da economia Brasileira possam ser apresentados como sendo positivos. Mas a médio-longo prazo, sabemos o que se vai estar a passar. A riqueza do Brasil vai ser saqueada e vendida ao desbarato enquanto que uma grande parte da sua população ficará ainda mais empobrecida.

Ou seja, a eleição de Bolsonaro pode vir a ter resultados geopolíticos tão importantes como outras eleições de candidatos ditos “populistas”, como a de Trump nos EUA e de Salvini na Itália. Vários elementos estão-se a conjugar para que daqui a um ou dois anos, se possa olhar para trás e dizer que a eleição de Bolsonaro foi “boa para a economia”. O Brasil vai provavelmente ser usado como mais um exemplo do falhanço das políticas socialistas, como tem vindo a ser feito com a Venezuela. A verificar-se esta possibilidade, dir-se-à certamente que tudo isto é fruto da imperfeição latente do socialismo, e que o capitalismo é o melhor e único sistema possível, sem dúvida nenhuma.

O que vai ficar por dizer é que existe um sistema montado, à escala global, encabeçado pelos Estados Unidos da América e a União Europeia, que usa todo o seu poderio político, diplomático, financeiro, económico e militar para impedir a todo o custo que surjam alternativas viáveis à plutocracia vigente.

Vão-nos dizer que as alternativas não têm sucesso por causa da força da natureza (humana, porque somos gananciosos por natureza, etc.)

Mas a verdade é que toda e qualquer alternativa política é sistematicamente sabotada ou esmagada pela natureza da força (pela simples razão que o poder vai, inevitavelmente, sempre tentar acabar com tudo o que lhe faz frente e tudo que se encontre no seu caminho).

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