A Luz Entra Pela Ferida- da Repressão Policial ao Arrebatamento Fascista em Toda a Parte

Em pleno ano 2026 são poucas as pessoas que se sentem surpreendidas com o estado do mundo. Não nos apela por exemplo olhar para as revoltas populares dos mineiros indígenas contra o neoliberalismo na Bolívia (2026) ou para os bloqueios/greves dos portos em Itália contra o armamento de Israel (2025-2026). A situação actual no Curdistão da Síria e na Turquia também não tem por onde seguir, nem mesmo tendo como prova a maior revolução de mulheres em Rojava (2012-2026). Apesar da grande expansão tecnológica, as vozes são abafadas no background do grande palco do mundo. Ninguém sabe nada acerca dos vários jovens da Antifa encarcerados em prisões de alta segurança na Alemanha, Hungria, Turquia, etc. As flotilhas humanitárias rumo a Cuba em Março de 2026 (bem-sucedidas) como quase único e exclusivo recurso de apoio humanitário também são um assunto a descartar. As várias flotilhas humanitárias rumo à Palestina servem para carregar ódio aos activistas, que mais vale convencer o Papa a embarcar e ver o que acontece. Nesta encruzilhada de batalhas medievais, os motivos que levam a tal cenário são vários- sendo a falta do sentido de comunidade aquele que pretendo enunciar aqui.

Vivendo ainda de perto o rescaldo de mais uma greve geral e carregamento policial na assembleia da República em S.Bento, podemos e devemos ficar chocados com a falta de empatia com os manifestantes. Não é novidade, já que os media portugueses são implacáveis na desinformação. Mas importa questionar: afinal quem são estas pessoas? Em que é que elas se inspiram? Certamente não se inspiram na televisão ou nos media mainstream, e ao que parece o cérebro delas funciona de forma um pouco diferente. Podemos evocar as ideologias revolucionárias para que nos salvem aqui, mas usando a lupa: a empatia está lá, e isso basta para este artigo. E como bem proclamam o movimento EZLN-Zapatista Mexicano: Adelante! Ou as mulheres indígenas Munduruku do estado do Pará/Brasil: Sawé! Em celebração à união na luta pelo seu território- caminhemos também que no Inferno não nos convém parar. E não podemos de facto parar.

As mulheres têm um papel preponderante n movimento revolucionário EZLN (Zapatistas)

Na Bolívia são as Feministas comunitárias anti-patriarcais pertencentes à comunidade indígena Aymara que desbravam o caminho das revoltas populares. Em Itália são os estivadores e os estudantes o motor das sucessivas greves. Nos Balcãs e até chegar à Turquia, lá vai mais uma enxurrada de caravanas humanitárias rumo a Rojava (Curdistão/Síria). Viajam aqui entre fronteiras pessoas que são comuns mortais, e ninguém chega ao destino. Já sabemos o que os espera, e se forem deportados já estão cheios de sorte. Temos também a vergonhosa situação no Reino Unido, onde pessoas de terceira idade que se manifestam pela Palestina há consecutivos meses não estão salvas da repressão policial.

Mulheres Bolivianas Aymara

Vamos lá então, Repressão Policial. Como primeira premissa vamos pelo menos ser humildes (honestos) e assumir que tanto o racismo institucional português como de qualquer outro país colonizador neste planeta (são muitos como sabem), que nada disto é novidade. Mas como segunda premissa temos que olhar para o facto de que se inverteram aqui umas quantas variáveis históricas, e intoxicaram-se também muitas mentes nas enxurradas das redes sociais- e consequentemente no Ego-Narcisista Capitalista que elas nos oferecem. Ao que parece continuamos sem saber que a repressão policial existe. Este binómio vigente do Bem/Mal, Preto/Branco, Good Cop/Bad Cop, bom activista (caridade)/vândalo, mais educação cívica zero traz-nos um problema grave- a desumanização não só da Revolução, como a desumanização dos activistas. A revolução é humana, e não artificial ou digita. Esclareço- o activista é pessoa, e provoca greves, revoltas, insurreições e felizmente também revoluções. Um não se conhece (o activista), sem o outro (a repressão policial/institucional). E todos os outros, estão de fora, porque o estado assim o exige.

Faz algum sentido? De uma forma simplista vou entregar-vos a questão final de que é precisamente este precipício entre nós- as comunidades de um lado e a repressão policial, estatal e institucional do outro- que expande o fascismo pelo mundo afora. No acrescento de que o Imperialismo, o patriarcado e o fascismo são grandes máquinas a fabricar psicopatas- somos todos voluntários ao abismo. Nada a fazer, é tempo de intervir com tudo o que tens. E às vezes também com o que não tens- estilo pão, habitação, essas coisas- e a educação até correu bem mas temos pena que o capitalismo engoliu tudo.

Mas a ferida é o lugar por onde a luz entra, como nos elucidou o grande Rumi. E porque às vezes a luz também entra pela ferida adentro, vai ser necessário o grande trabalho não só de interpretação de texto, como também de leitura do mundo.

E se estamos de momento neste lugar onde a ferida só se consegue sustentar na entropia de não se conhecer a si mesma, nada mais importante que deixar a luz entrar.

Adelante! Sawé!

One comment

  1. Excelente artigo
    Existebum livro editado em 1995 – Armadilha da globalização – foca tantos destes aspectos.
    Obg

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