Os Utópicos Falanstérios e o Hedonismo Idealista Falhado

O socialismo utópico constituiu-se como um fenómeno da história do pensamento inovador da primeira metade do século XIX. Rapidamente se disseminou pela Europa e América em experiências sociais decisivas para a mudança do rumo da história da classe operária, nascida da Revolução Industrial. O fracasso da Revolução Francesa na concretização da “Igualdade, Liberdade, Fraternidade”, marcado pelas ideias imperialistas de Napoleão, acabou por deixar o povo a meio caminho da sua revolução social. O Industrialismo inglês alastrava pela França e também ao resto da Europa, à velocidade das suas máquinas. A burguesia liberal instalada no poder político, substituía o trabalho manual individual pela mão-de-obra especializada industrial. As cidades cresciam rapidamente atraindo as populações das zonas rurais. A máquina, no entanto, provocou desemprego e miséria e as cidades estavam inundadas de problemas sociais. Eram, por isso, terreno fértil para uma nova mudança política. Por outro lado, o Romantismo enquanto movimento cultural, apelava ao idealismo, ao sonho, ao devaneio. E é neste contexto que surge a utopia socialista do operariado. Destacaram-se Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1825) e Robert Owen (1771-1858). No entanto, a designação “socialismo utópico” surgiu mais tarde, nos discursos de Marx e Engels como contraste ao seu “socialismo científico”, pois não identificaram nos primeiros os meios que permitiriam à utopia materializar-se numa sociedade igualitária suportar-se e manter-se. Engels procurou contribuir para a organização do movimento operário, para a constituição de uma agenda de lutas e formalização de uma doutrina socialista que fosse clara para a classe operária e que lhes permitisse acreditar neste inovador projeto como exequível.

Charles Fourier foi considerado o mais pragmático dos socialistas utópicos, no sentido em que detalhou todo o seu conceito filosófico até ao mais pequeno pormenor. No entanto teve dificuldade no seu tempo de vida em encontrar interessados que quisessem materializar os seus projetos de comunidades utópicas (desenho abaixo). Karl Marx, apesar de reconhecer o seu contributo na construção de uma sociedade do proletariado referiu nos seus textos que estas utopias acabaram por não evoluir porque existiam entre o movimento do proletariado e a burguesia. Para ele as ideias de Fourier representavam uma promissora mas pouco desenvolvida forma de socialismo que se baseava essencialmente em valores reacionários e sentimentos acima de materialismo social, suportado em boas noções de natureza humana e cooperação mais do que em história, ciência ou economia. O utopismo é visto muitas vezes como irrealista, mas Fourier não era assim tão utópico. Ele criou uma forma de trabalho atrativa, fundindo a natureza humana com o trabalho ao contrário do que se passa hoje em dia, em que há uma separação entre estes dois fatores causado pela automatização ou repetição, que afasta da equação a realização pessoal. E era precisamente isto que Fourier queria evitar. Ele ambicionava alargar o conceito de felicidade a todos os trabalhadores e membros de uma sociedade o que o levou a materializar este conceito nos famosos Falanstérios e Familistérios, comunidades intencionalmente cooperativas não coercivas em que os seus elementos eram envolvidos numa variedade de tarefas e ofícios consoante a vocação e paixão de cada um.

Etimologicamente a palavra Phalanstère deriva da contração “phalan[ge]” (do grego antigo φάλαγξ, que significa “batalhão”) e [mona]stère (de στερεός que significa “sólido”, “unitário”), ou seja uma tipologia arquitectónica que fosse algo entre um mosteiro e um quartel militar. Estas utopias teriam uma hierarquia social baseada no tipo de trabalho que faziam e não na sua riqueza ou descendência. Não eram, por isso, totalmente igualitários, embora existisse bastante igualdade de direitos e deveres. Segundo o seu conceito o trabalho deveria basear-se nas paixões livres e desejos naturais, mais do que ter de ser ensinado como disciplina, como acontece no contexto capitalista de economias competitivas. Hoje em dia comunidades ligadas ao ambiente baseiam o seu conceito numa sociedade mais orgânica e natural que pode ir de comunidades reduzidas a congregações maiores baseadas em solidariedade, partilha e cooperação. Em geral vivemos em comunidades artificiais ou comunidades institucionais obedecendo a regras, leis ou hierarquias. Mas comunidades utópicas intencionais têm normalmente um fundo religioso, socialista ou anarquista preocupando-se quase sempre em unir a contemporaneidade com algum aspeto da vida perdido no tempo (Deus, liberdade sexual,…) e que pode voltar a ser reintegrado dando mais sentido à vida comunitária. Para Fourier esse aspeto era essencialmente a “harmonia no trabalho”. Nesta lógica investigativa ele identificou alguns problemas fundamentais resultantes do trabalho: a dependência económica (pois as pessoas precisam de dinheiro para a sua sobrevivência), a competitividade agressiva do mercado, a exploração de horas extraordinárias pelos patrões (redução da qualidade de vida).

Face a tudo isto Fourier encontra esperança no prazer que o trabalho pode dar às comunidades. Dá ao seu conceito um caráter antropomórfico comparando a vida dos operários à dos castores, abelhas, vespas e formigas que receberam de Deus um mecanismo que lhes permitem sentirem-se realizados numa certa industrialização e não na inércia. A forma que encontrou para materializar os seus conceitos com a contemporaneidade do seu tempo resultou em alguns princípios fundamentais: diversificação do trabalho, cooperativismo com base em conceitos de amizade em vez de hierarquias, potenciação do trabalho por divisão de tarefas. Este último aspeto é o principal responsável, na atualidade, pela degradação do conceito de trabalho. Passar o dia inteiro numa linha de montagem a fazer a mesma tarefa repetitiva dificilmente pode gerar felicidade. O segredo está em subdividir as tarefas de maneira a que estejam presentes em simultâneo as componentes física, psicológica e emocional.

Assim, Fourier conseguiu identificar 600 tipos distintos de tarefas numa comunidade e cada membro deveria eleger 3 ou 4, segundo as suas habilidades e preferências, para que a felicidade pudesse estar sempre presente no trabalho. De certa forma, haveria tarefas mais aconselháveis e mais propícias conforme a idade e o sexo e podiam integrar criatividade pessoal ou detalhes aburguesados. Segundo ele cada tarefa não devia estender-se para lá de duas horas, deveria ter períodos de descanso intercalares, nunca superiores a duas horas e nunca deveriam ser executadas mediante obrigatoriedade. A qualidade do trabalho não era no entanto um fim em si mesmo, mas uma forma de proporcionar qualidade de vida. Para ele, a pobreza era um cancro na evolução das civilizações e a tarefa fundamental de uma sociedade deveria ser a de garantir as necessidades básicas de cada pessoa. Os pobres roubavam, criavam instabilidade e revoltavam-se contra a ordem instituída. Fourier não entendia como o mundo vivia em agonia por causa do trabalho, quando este podia ser justamente o motor da felicidade social e da qualidade de vida. Na sua perspectiva um trabalhador feliz não procuraria unicamente realizar-se e trazer felicidade à sua casa, mas o sentimento de realização estaria presente em todos os aspetos da vida comunitária. A realização pessoal iria gerar, por consequência, a felicidade do grupo. Para Fourier o ser humano era intrinsecamente bom, herdeiro da harmonia da natureza e consequentemente do universo. Mas a sociedade tal como existia, impedia o livre desenvolvimento das qualidades humanas do ser.

Os falanstérios de Fourier eram unidades auto-suficientes, de caráter misto urbano e rural , com apartamentos em blocos de edifícios (Familistérios) e uma grande casa comum (Falanstério). Os vários falanstérios trocavam entre si bens produzidos nas suas terras ou resultantes dos seus ofícios artesanais. Deveriam ser criados por uma associação voluntária de membros, não superior a 1.600 pessoas, as quais viveriam juntas num complexo de edifícios que deveria também incluir instalações para todos os serviços da coletividade. Cada pessoa era livre de escolher seu trabalho, podendo mudar sempre que o desejasse e a poligamia era permitida e até estimulada como forma de aumentar a felicidade da comunidade. O êxito desta utopia residia numa rede extensa de falanstérios a qual levaria à transformação social por meio da experiência deste modo de vida, originando consequentemente um novo mundo. Mas passar da teoria à prática não era tão fácil, numa sociedade tendencialmente conservadora e clássica. Das poucas experiências realizadas em França, praticamente só houve um caso com verdadeiro êxito – o Falanstério em Guise, designado por Familistério de Godin, por se destinar a famílias. Todas as outras falharam quase instantaneamente. Inspirado diretamente na obra de Fourier (“A harmonia universal e o Falanstério”) bem como nas teorias socialistas de Saint-Simon e Owen, o empresário Jean-Baptiste Godin comprou em 1859, 18 hectares de terreno onde mandou construir um complexo arquitectónico destinado a 2000 operários e à sua família, inspirado na volumetria de praça do Palácio de Versalhes e nos desenhos originais de Fourier (Falanstério L’Avenir – imagem anterior).

Godin pensava que o povo tinha o mesmo direito de habitar em palácios, com a diferença que estes seriam mais funcionais e dirigidos a uma comunidade laboral. Segundo as suas próprias palavras em 1870: “O progresso social das massas está subordinado ao progresso das disposições sociais da arquitectura”. Por isso, acabou por designar o complexo como Palácio Social, tal como sugerido nos desenhos utópicos originais de Fourier. No fundo era gerido com uma perspetiva empresarial embora segundo um espírito comunitário: proprietário, engenheiros e trabalhadores viviam no mesmo complexo e partilhavam tarefas. Esta comunidade localizada perto da Bélgica, perdurou com sucesso até 1968. Uma verdadeira cidade, que oferecia mais de 300 apartamentos distribuídos em 3 edifícios retangulares construídos ao longo de 20 anos, unidos por passagens cobertas, em 4 pisos, com varandas corridas cada um com um pátio central coberto com uma estrutura de vidro, o que facilitavam a vida comunitária neste centro agregador e funcional, mesmo no inverno (originalmente tinha café, biblioteca, infantário, economato, banhos coletivos e outros pequenos negócios). Os serviços excepcionais que oferecia valeram a visita de Zola e Hector Malot e a referência escrita de Engels, serviços que Godin designou como “o equivalente da riqueza”.

Considerando que em 1859 a nova classe social – o proletariado – resultante da Revolução Industrial, enfrentava uma crise de desemprego e pobreza esta comunidade representava um enorme avanço social. O conjunto arquitectónico oferecia apartamentos para as famílias (os Familistérios) com unidades subdivididas em duas áreas de 20m2 cada, a grande fábrica de lareiras metálicas (salamandras) e pequenos ateliers. Tinha ainda a quinta, estábulos, uma grande horta e o edifício defronte com teatro, escolas, lavandaria e piscina. Os apartamentos eram modulares e adaptáveis ao número de filhos e tinham janelas de grandes dimensões que permitiam a ventilação cruzada entre o pátio e o exterior, criando um ambiente saudável. O pátio era ventilado também através da cave que fornecia ar fresco no verão e calor das caldeiras no inverno. As habitações possuíam conduta vertical de lixo, e cada piso tinha balneários coletivos separados por sexos, um conforto que algumas casas burguesas em Paris não dispunham. Um enorme avanço técnico para a época. Ar Puro, Espaço e Luz, três princípios básicos considerados no desenho deste Falanstério, que mais tarde Le Corbusier revisitava na sua famosa obra “L’únité d’Habitación de Marselha. Experimentalismo e pragmatismo marcam toda a obra de Godin assim como marcaram a de Le Corbusier, grande mentor do racionalismo do movimento moderno de arquitectura. Uns anos mais tarde, antes de falecer, Godin constrói outro falanstério mais modesto na sua fábrica em Laeken, mas que nunca chegou a ter a complexidade do de Guise, cujo símbolo era uma colmeia (o princípio antropomórfico das abelhas obreiras de Fourier).

O esforço de Godin ao passar à prática as ideias de Fourier foi um caso praticamente isolado de sucesso na implementação de Falanstérios na Europa onde o este socialismo utópico teve uma duração curta enquanto filosofia. Mas nos Estados Unidos,  esta ideologia foi bem acolhida e até gozou de prestígio intelectual. A ideia da vida cooperativa pareceu atrativa a muitos burgueses na época da depressão económica industrial. Em pouco tempo foram criados entre 40 e 50 falanstérios mas apenas três sobreviveram mais de dois anos, dos quais o mais conhecido foi a Falange Norte-americana que se extinguiu depois de um incêndio, tendo atingido uma população de 150 pessoas. Tal como nas comunidades owenitas, o fracasso destes falanstérios, teve origem no rápido crescimento, atraindo muitas pessoas pouco preparadas para esta nova forma de estar e portanto, pouco comprometidas com o projeto social, apesar das boas condições que oferecia comparativamente à média norte-americana. Os seus “colaboradores” (como eram designados) vinham na maioria do Nordeste dos Estados Unidos, pertencentes à classe média e baixa. Eram admitidos segundo a sua conduta e habilidade e existia um período experimental de 30 dias após o qual era oferecido um ano de associação provisória. Depois de um ano era finalmente reconhecido como parte da comunidade. A passagem probatória destas fases tinha de ser votada positivamente por unanimidade. Caso contrário o candidato não era aceite na comunidade.

O modelo de Fourier inspirou ainda muitas comunidades intencionais: Utopia (Ohio), La Reunion (perto de Dallas), Lake Zurich (Illinois), North American Phalanx (Red Bank, New Jersey), Brook Farm (West Roxbury, Massachusetts), Community Place e Sodus Bay Phalanx (New York), Silkville (Kansas) e muitas outras. Da mesma forma, inspirados também nas teorias de Robert Owen um dos socialistas utópicos iniciais, nasceu o Centro de Vida Comunitária New Harmony. Das experiências owenistas foi de longe a que teve mais sucesso (figuras abaixo). Mas a expansão dos europeus para o Novo Mundo, tornou-se numa oportunidade de ouro para o desenvolvimento destes projetos utópicos o que levou à criação de experiências sociais até na América Latina. Em 1885 Marie Stevens Howland publicou o livro “Papa’s Own Girl” que a levou a desenvolver um modelo de cidade ideal em Topolobampo, no México. Aí conseguiu pôr em prática algumas das suas ideias de amor livre e de libertação da mulher através de um modelo comunitário de trabalho doméstico independente da economia e da dependência masculina. Os seus esforços encontraram, no entanto, grande resistência por parte da comunidade masculina que não aceitava facilmente a emancipação da mulher moderna.

Fourier, nascido em Besançon, via a sociedade por ele idealizada como um projeto concreto a ser realizado e para o provar seria também ele um dos fundadores deste tipo de comunidade. Chegou a colocar anúncios em jornais à procura de investidores, mas nunca conseguiu concretizar o seu sonho, no seu tempo de vida. Inspirara-se em diversas utopias anteriores como “A República” de Platão, a “Utopia” de Thomas Morus (1478-1535), a “Nova Atlântida” de Francis Bacon (1561-1626). O modelo utópico de Fourier, negava a sua realidade pois considerava que o seu mundo estava do avesso, a sua sociedade em que vivia era desajustada, com desordens várias e a sua intervenção iria corrigir estes problemas. A desigualdade social, o casamento monogâmico, o trabalho como obrigação, a tendência à especialização – todos estes aspectos foram vistos por Fourier como
absurdos, sinais de uma sociedade doente, uma espécie de sonambulismo social que impunha aos seres humanos um padrão de vida muito inferior àquele do qual poderiam usufruir. A miséria social era para ele “a mais escandalosa das desordens”. O capitalismo – e a sociedade
industrial – corresponderiam à “desordem generalizada”. Este abandono do “Éden Original” é detalhadamente analisado no seu livro “Os Quatro Movimentos” (1808).

Apesar de haver a preocupação de uma distribuição uniforme de homens e mulheres que pudesse fomentar à sua união amorosa, Fourier não era um defensor da monogamia criticando visceralmente o casamento. Pelo contrário, ele esperava que o convívio comunitário debaixo da premissa da felicidade poderia levar à dissolução desta crença cristã, originando a felicidade da poligamia social. Para isso era fomentada a socialização através da arquitetura, com zonas de refeições e de convívio coletivas. Acreditava numa sociedade totalmente livre de preconceitos. Este comportamento tendente à multiplicação de contatos amorosos era chamado
por Fourier de “angélico”, numa perspectiva hedonista do comportamento humano no qual todos buscavam o máximo de prazer, tal como na “Utopia” de Thomas Morus. Segundo os socialistas utópicos a monogamia era um dos males da sociedade, pois gerava comportamentos artificiais socialmente e por vezes até agressividade e recalcamentos, movidos pelo ciúme ou pelo distorcido sentido de posse matrimonial. Para Fourier o “aprisionamento” pelo casamento era uma espécie de “prostituição hipócrita e legal” que ao fim de alguns anos acabava por gerar doenças mentais, ressentimentos, ou até infidelidades desenfreadas. Segundo ele, o livre acesso aos prazeres eliminaria as tendências aos excessos, permitindo que os homens e mulheres descobrissem o real prazer da vida sexual e amorosa, uma serena plenitude.

O desenvolvimento de uma sociedade que instituía exclusivamente os casamentos monogâmicos, era para este filósofo, um dos males da civilização. A disseminação do princípio da tradicional família nuclear, fechada sobre si mesma, gerava egoísmo, competitividade negativa e comportamento anti-social. O despique entre famílias chegava mesmo a gerar guerras fúteis. A monogamia inibia a possibilidade da comunhão universal, do amor fraterno, de um para todos, a mesma fraternidade universal que havia sido prometida pela Revolução Francesa e até pela Bíblia. Fourier era também crítico do papel secundarizado da mulher no casamento monogâmico e do papel do “déspota” masculino, que oprimia não só a mulher mas também as crianças. Por isso mesmo, os falanstérios tinham infantários e escolas onde todos os filhos eram educados em conjunto, com o mínimo de interferência dos pais, gerando igualdade social também no mundo infantil. Desta forma, ele acreditava que uma parte dessas crianças desenvolveriam livremente o gosto por cuidar dos jardins, das hortas ou até da limpeza do espaços interiores, como atividade lúdica. No falanstério, não haveria seres humanos improdutivos ou infelizes, tal como existiam na sociedade tradicional. A improdutividade, segundo a sua matemática estendia-se a dois terços da população da época e o ócio feminino, a reclusão doméstica forçada imposta pelo matrimónio e pelas falsas premissas religiosas eram motor, na maior parte dos casos, de infelicidade e inércia social.

De uma maneira geral Fourier critica a especialização das tarefas e a divisão do trabalho imposto pela sociedade de modelo capitalista da época. Na sua juventude tinha sido obrigado a trabalhar como empregado de balcão no comércio o que o levou a idealizar uma sociedade hedónica, movida pelo prazer de viver livre e trabalhar segundo a sua vocação. Também as violências por ele sofridas na Revolução Francesa o tornaram um verdadeiro pacifista, um romântico idealista, que rejeitava qualquer forma de violência. Comportamentos agressivos, compulsivos ou violentos nunca seriam admitidos nas suas utopias sociais. pelo contrário aqui era a felicidade a regra última dos falanstérios, como reflexo da vida em harmonia com a natureza e com o amor inato fraterno do humano. Era por isso importante a satisfação dos prazeres diversificados e das paixões como forma de libertação do ser, que lhe permitiria atingir a verdadeira luz da espiritualidade intrínseca à felicidade pura. A felicidade era o verdadeiro tesouro, a riqueza desta filosofia utópica, o prazer per se, o fim último, a paixão desinibida. Fourier termina a sua minuciosa descrição das paixões afirmando que só quando o “uniteísmo”, a força na união, vencer o “egoísmo”, a civilização estará a caminhar no sentido da harmonia social.

Fourier era tão minucioso que chegou a pensar em detalhes como a roupa de operário, que deveria ter botões nas costas para que estes se entreajudassem a vestir e a despir. Desta forma os padrões egoístas e individualistas eram excluídos até dos pequenos gestos quotidianos, tão enraizados durante milénios na civilização. O calçado era resistente e prático, mais do que estético, numa estética de reaproveitamento de materiais disponíveis e sempre evolutiva. A cultura ocuparia também um papel de destaque nesta nova harmonia social e seria uma resposta construtiva à degradação civilizacional, sobretudo das pessoas mais pobres. Os falanstérios deveriam, por isso, ser berços de artistas sensíveis tanto às formas de sociabilidade como à estética e à ecologia do novo mundo. Cada habitante do falanstério era estimulado a encontrar, além das suas tarefas, atividades ocupacionais de lazer ligadas à representação teatral ou como praticante de alguma arte ou ofício lúdico. O Teatro enquanto arte de expressão, permitia a fusão entre Arte e Sensibilidade e geraria uma dinâmica associativa e recreativa entre as diversas falanges dos diversos falanstérios espalhados pelo mundo. Desta forma, os falanstérios utópicos de Fourier fundiam este novo mundo industrial, agrícola e artístico numa atmosfera de felicidade harmónica que se estenderia idealmente a todo o planeta. O amor livre ao qual chamou de “prostituição santa” substituiria a “legalidade prostituída” do casamento monogâmico e o erotismo ensinado através de cursos ou fruto da experimentação entre cidadãos livres de preconceitos eliminaria instintos agressivos e egocêntricos. As orgias seriam permitidas, como na Antiguidade clássica, podendo surgir verdadeiras “hordas de cavalaria amorosa” secundadas por grupos de trovadores e sedutoras vestais e bacantes. Neste novo mundo, todos os desejos e inclinações sensuais podem ser satisfeitas à vontade. Mas a promiscuidade sexual não era obrigatória. Haveria lugar para emergir o amor puro, o amor platónico, abstinente do contacto físico.

Fourier, apesar destes pensamentos mais agnósticos, acreditava em Deus. Dizia que do alto da sua sabedoria eterna, apenas Ele esperava que a humanidade completasse o seu “trabalho” místico, a Harmonia com a Natureza, a qual se tornaria um dia parceira da humanidade, numa cooperação divina entre animais e humanos, como nas fábulas.

Texto de Pedro M. Duarte

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