Guiné-Bissau: 22 anos depois da Guerra Civil de 1998-99

A 7 de junho de 1998, a Guiné-Bissau mergulharia numa guerra civil até  maio de 1999. Em lados opostos do conflito estavam a junta militar, liderada pelo Ansumane Mané, e forças governamentais, fiéis ao então presidente da república, Nino Vieira. Ansumane acusava Nino de tráfico de armas.

Depois de 11 meses de conflito que causou  perdas irreparáveis, o país voltou a conhecer paz com o exílio do Nino Vieira e a consequente vitória da junta militar.  A seguir houve governo de união nacional e organizaram-se eleições. Mas não tardou para iniciar sequências de crises político-militares e golpes de estado. 

As  constantes crises e instabilidades políticas que o país tem vivido desde a sua independência, não permitiram a possibilidade da existência de um verdadeiro desenvolvimento. Essas crises têm várias origens:  a má governação e corrupção, durante anos o país tornou-se refém de uma classe política que não se entende e sem vontade nenhuma de colocar os interesses do povo em nível prioritário, tal como é suposto numa democracia, que manipula as forças de defesa e confunde a opinião pública.

A Guiné tem sido também um peão nas jogadas geopolíticas e alvo de várias influências, talvez pela sua localização geográfica, configuração e potenciais recursos naturais. Por exemplo, a sua relação com o seu vizinho, Senegal, com quem partilha fronteiras, não tem sido das melhores. Uma relação amarga que remonta dos movimentos para a independência da Guiné-Bissau, mas recentemente marcada pela questão dos movimentos separatistas da Casamansa, sul do Senegal,  por interesses económicos e a prospeção de petróleo na zona conjunta. E ainda, em dimensão das organizações, a Guiné encontra-se sempre numa demonstração de poder e influência entre duas organizações a que faz parte: a CEDEAO- Comunidade Económica dos Países da África Ocidental, organização sub regional, e a CPLP- Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa. A primeira é fortemente influenciada pela França e a segunda por Portugal. Tudo isso torna difícil qualquer tipo de mediação internacional, em caso de crises, assim como coloca em causa qualquer possibilidade de cooperação para desenvolvimento.

É de lamentar que o estado da Guiné-Bissau ainda dependa da ajuda externa para poder garantir o seu mínimo funcionamento, continuando incapaz de garantir o acesso a bens básicos, como a educação e a saúde, um país que em tempos arrancou elogios internacionais na sua luta contra o jugo colonialista e por ter sido a primeira colônia portuguesa em África a tornar-se independente, graças aos ideais de Amílcar Cabral numa luta que levou mais de 10 anos, e que  seria uma das  principais causas de revolução de 25 de abril de 1974, a qual pôs termo ao regime fascista em Portugal.Amilcar cabral

É urgente que os políticos guineenses repensem os seus papéis e que comecem a defender os interesses do povo nos âmbitos internos, externos e sub regionais, porque, como é óbvio, nenhum outro político doutro país irá defender os interesses da Guiné-Bissau. Que haja um ambiente verdadeiramente democrático, de estabilidade e paz sustentáveis, de inclusão, capaz de absorver a diáspora guineense, que possibilite empreendedorismo, partilha de experiências e conhecimentos, porque a  Guiné-Bissau é um país com enorme potencial.

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