Está provado cientificamente …

Cientista em dificuldades

Era assim que começavam as frases de autoridade lançadas nas mesas de café, tanto quanto me lembro da juventude. Outra frase interessante sobre a ciência vinha inscrita numa coluna de fim-de-semana num diário vespertino; definia cultura geral como aquilo que fica da educação escolar e científica.

Para a minha geração – como para as que se lhe seguiram – a ciência era uma autoridade de que as pessoas se esqueciam à medida que entravam no mercado de trabalho. Um estudo feito nos anos 80 mostrou como os estudantes de engenharia em Lisboa, como provavelmente todos os outros, usavam duas referências mentais conforme entravam numa sala de provas académicas – aí usavam os conhecimentos científicos – ou estivessem fora do contexto escolar – aí usavam o senso-comum, mesmo quando ele é facilmente reconhecido como o inverso daquilo que a ciência básica mostrou.

Uma das características conhecidas da modernidade, pelo menos desde Fernando Pessoa, é a capacidade que permite às pessoas tornarem-se indivíduos especializados, personagens de si próprios, divididas entre a pessoa de família, o profissional no mercado, o cidadão eleitor, como um computador que trabalha com diferentes programas, eventualmente contraditórios entre si.

Não é só nas mesas dos cafés que as pessoas, para encurtar a conversa, alegam a autoridade da ciência. Mesmo sem pensar muito no que seja a ciência, há profissões como a dos médicos que alegam frequentemente – contra a concorrência – o carácter científico das actividades profissionais. Embora não seja claro que a física, a biologia, a química sejam actividades parecidas com as práticas terapêuticas, embora haja um meio caminho na farmácia, admitamos que a medicina é uma ciência. Temos disso um bom exemplo público: a acção das instituições de saúde relativamente ao surgimento do COVID 19.

O que se vê com toda a clareza é a contradição entre as conversas de café – ciência como autoridade – e a incerteza dos investigadores – neste caso epidemiologistas e médicos de saúde pública. Tal é a incerteza que usam estatísticas feitas ad hoc para medir o risco de transmissão do vírus, a partir das práticas administrativas pré-existentes, para controlar a pandemia enquanto a ciência aplicada, noutro sítio e com outros métodos, procura curas e vacinas.

A autoridade, os governantes mais civilizados, alegam seguir as recomendações dos cientistas. Isso faz uma diferença importante relativamente aos energúmenos que representam o neo-nazi-fascismo e são, por tradição, contra a ciência e a racionalidade, por estas serem também símbolos da democracia. Entre as alegações e as práticas, perigosamente, os governantes civilizados seguem instruções diferentes daquelas que foram emanadas dos centros de consulta de cientistas institucionalizados. Em Portugal, por exemplo, o Conselho Nacional de Saúde Pública só se pronunciou cuidadosamente uma vez para logo ser ultrapassado pela política e nunca mais se ouviu falar dele. Pelo contrário, a Direcção geral da Saúde muda frequentemente de opinião sobre tudo, conforme a conveniência política da ocasião.

É evidente que a ciência não é a autoridade. O vice-versa também é verdade. E dificilmente poderá e deverá ser de outro modo. O totalitarismo soviético alegou frequentemente a ciência socialista para justificar o exercício do poder, até ao ridículo: alguns dos líderes foram aclamados grandes cientistas. Felizmente os actuais líderes não reclamam tais alturas. Mas lá que reclamam o apoio da ciência, apesar de não terem nenhuma intenção de a usar, isso está à vista.   

Não interessa tanto denunciar a lógica maquiavélica do poder, porque todos estamos tão habituados a isso que nem reagimos. Interessa mais notar a cumplicidade social generalizada com esta manipulação despudorada da expressão “ciência”, como se todos soubéssemos o que isso seja ou como se saber o que seja a ciência seja irrelevante para o conhecimento e para o exercício do poder.

Scientism
Quando a crença na ciência adopta moldes de fanatismo religioso, é uma antítese de si mesmo

Há uma incompatibilidade radical entre a prática do ensino e a prática da ciência. No caso do ensino, as certezas têm uma direcção fixa; do púlpito e da boca ou escrita do professor para os alunos, entes que estudam o saber que o professor debita para melhor o copiarem. A ciência, ao inverso, não sabe o que seja a certeza, embora reconheça que há aquisições cognitivas. O ideal do cientista é destruir as aquisições cognitivas, para as elevar a novo conhecimento. A prática dos cientistas é muito menos idealista do que a vida escolar: é organizar perguntas que possam operacionalizar as dúvidas sobre as certezas vigentes, incluindo as certezas científicas, na esperança do conhecimento novo poder surgir desse exercício de liberdade e libertação. A esmagadora maioria das vezes os cientistas não produzem nem ciência nem nada: reproduzem o meio científico em que as perguntas são estimadas, mas seleccionadas.

O maior problema da ciência é a dificuldade de elaborar perguntas que ainda não tenham sido perguntadas e elaborar formas práticas de lhe responder de forma útil. Os melhores cientistas sabem que há que procurar espaço para fazer as raras perguntas úteis para a produção de conhecimentos, lá onde o senso comum e o senso comum científico fazem sombra. Condicionados, como estão todos os cientistas, à vida social e institucional são alvo, como todos os outros seres humanos, dos segredos sociais que encobrem a verdade de todas as maneiras possíveis e imaginárias.

Por exemplo, não vimos os cientistas reclamar contra os políticos que alegam seguir as recomendações científicas fazendo outra coisa. Ao invés, os epidemiólogos chamados a ir à televisão participar no espectáculo mediático que tomou, sem crítica, a alegação por verdade, sem processo de verificação da verdade, colaboraram com a encenação contentes e distraídos pelos seus 15 minutos de fama. Fizeram-no de borla. Já que as instituições governamentais não lhes falam, ao menos a comunicação social eleva-lhes o ego e a esperança de, através do espaço público, as vozes de burro chegarem ao céu.

Na verdade, comparando na prática as vozes científicas e as vozes governamentais, as primeiras corroboram com as segundas. Apesar de haver exemplos, como o da Suécia, em que os governantes seguiram, de facto, as recomendações científicas e, por isso, foram e são atacados pela comunicação social, ciosa de defender a arbitrariedade dos poderes governamentais. Como no caso de tomar o exemplo do ministro da saúde checo, um jurista, que decidiu medidas duras de confinamento e foi usado como decisão certa, a par da China, comparando com a moderação das políticas noutros países, durante a primeira fase da pandemia.

Estas formas realmente básicas e enganosas de construção de segredos sociais – neste caso, o segredo de que a ciência não conduz nem a D.G.S. nem a acção do governo contra a pandemia – pela comunicação social que alega estar a sofrer a concorrência de outras fake news, as das redes sociais, só são viáveis numa sociedade educada para engolir sapos e elefantes vivos.  

O professor mostra aquilo que é reconhecido como válido sob a forma de dogma para decorar, deglutir e deitar fora, a seguir aos exames. O cientista esgueira-se por entre as certezas para verificar e reverificar se não há gato escondido por detrás delas, sempre em risco de entrar nalgum compartimento com conspiradores lá dentro. O professor é obrigado a cumprir o seu papel de autoridade, quer queira quer não. O cientista é convidado a reproduzir a ciência, por isso ser mais cómodo para os poderes estabelecidos e para o próprio cientista – afinal a inovação em ciência, mesmo contando com esforços heróicos dos que se esforcem, depende muito do acaso e da oportunidade.

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