Sexo, Drogas e Pseudo-Ativismo

Como a Esquerda foi Tomada de Assalto por Betinhos Mimados, Adolescentes Mal Resolvidos e “Adultos” Imaturos

De “Rage Against the Machine” a “Rage Against Já Não se Sabe bem o Quê”…

Ao crescer olhava com admiração para figuras como Che Guevara, Malcolm X e Amílcar Cabral. Ouvia Rage Against the Machine.e Public Enemy. Estudava os horrores do colonialismo, admirava as lutas pela emancipação dos afrodescendentes nos Estados Unidos da América. Sonhava poder contribuir para ajudar os oprimidos e lutar contra os opressores. Era muito claro para mim quem eram os oprimidos, e quem eram os opressores. Os oprimidos eram os pobres do mundo e os povos dos países destruídos pelo colonialismo e pelas invasões estrangeiras. Os opressores eram os ricos e poderosos, sobretudo os governantes dos países Ocidentais que decidiam invadir países mais pobres, e os patrões gananciosos que tudo fazem para pagar aos seus trabalhadores o menos possível, condenando muitos à miséria, tudo para terem uma maior margem de lucros, dinheiro o qual depois usam para continuar a subornar políticos e juízes e depois ir comprar mais um Ferrari e mais um Iate, e se sobrar dinheiro, mais um colar de pérolas para a amante.

Tudo isto pode parecer uma caricatura simplista do mundo que se formou na mente de uma criança. Mas à medida que me tornei adulto, o mundo rapidamente começou a tornar-se cada vez mais neste pesadelo maniqueísta. A invasão criminosa do Iraque em 2003, liderada por pessoas como Dick Cheney e Donald Rumsfeld, personagens macabras com interesses pessoais na indústria do armamento e petróleo dos EUA, voltou a pôr a luta contra a guerra na ordem do dia. Pouco tempo depois a crise financeira e a incrível corrupção do mundo financeiro que continuava a dar milhões aos seus executivos enquanto obrigava os mais pobres a pagar pela sua própria ganância através da austeridade só confirmou que a luta contra as desigualdades económicas e a injustiça do sistema financeiro tinha que ser uma prioridade.

No meio de tanta desgraça, houveram vários sinais positivos. Milhões pelo mundo fora protestaram contra a invasão do Iraque em 2003. E muitos mais manifestaram-se contra a austeridade, contra a Troika e contra a corrupção no mundo da alta finança como resultado da crise financeira de 2008, em Portugal e em todo o mundo.

E depois, lá por volta de 2013 ou 2014, as coisas começaram a ficar estranhas. E muito confusas. De um dia para o outro, a arena do ativismo foi invadida por todo o tipo de reinvindicações parvas, causas ridículas e cartazes que mais pareciam piadas de mau gosto.

“Dos vossos gabinetes faremos Cabarets”… E do ativismo político faremos uma piada de mau gosto.

A Cooptação do Mundo Ativista

Todas as sociedades desenvolvem mecanismos para domesticar a irreverência juvenil, para neutralizar o impulso revolucionário adolescente, construindo armadilhas para fazer com que a inesgotável energia da juventude se foque o mínimo possível na atividade política revolucionária. Afinal de contas, todas as revoluções políticas encontram no fogo que é a irreverência da juventude um dos seus principais combustíveis.

A sociedade Ocidental parece ter encontrado um mecanismo perfeito para este efeito- o movimento LGBT+, assim como toda uma panóplia de movimentos paralelos que têm tido o efeito de hipersexualizar os circuitos de ativismo político e afastá-los das áreas de atividade política revolucionária e verdadeiramente incómodas para as classes dominantes. Desde campanhas para a legalização total da prostituição e do proxenetismo, a campanhas de sensibilização sobre os mais variados temas ligados à sexualidade, a obsessões incompreensíveis com casas de banho para transexuais- todas estas iniciativas têm algo em comum- são inerentemente pseudo-revolucionárias, e não só não tocam nos problemas centrais do mundo atual, como cada vez mais estão até a ser usadas como uma arma do Ocidente para atacar os países ditos “em desenvolvimento”. Estas campanhas e causas têm também a tendência para serem vagas o suficiente para serem facilmente usurpadas e deturpadas pelos poderes dominantes, e sobretudo, são particularmente apelativas para os adolescentes, os quais estão, por definição, a passar pela idade em que estão a começar a puberdade, a desenvolver a sua sexualidade e a descobrir a sua identidade sexual. Ou seja, politicamente, estas campanhas são a armadilha perfeita para prender adolescentes e jovens adultos com pouca maturidade e uma fraca formação política em debates fúteis e iniciativas ridículas, e mais ainda, são particularmente úteis pois podem ser usadas pelos comentadores reacionários como prova de que as pessoas que tentam mudar a sociedade para melhor são de facto pessoas perigosas, desequilibradas e com uma fraca noção da realidade. Conseguem então simultaneamente reduzir ou até neutralizar o potencial revolucionário dos circuitos ativistas ao mesmo tempo que denigrem a sua imagem, contribuindo então para que… Tudo fique essencialmente na mesma.

Até as corporações mais nojentas, como o é sem dúvida a Goldman Sachs, apoiam hoje em dia o movimento LGBT+ e as suas demais variantes. Fariam o mesmo com movimentos contra a guerra? Ou anticapitalistas? Ou por movimentos que apelam à sindicalização dos seus trabalhadores? Claro que não.

Como é que Chegamos Aqui?

Todo o panorama político ficou, entretanto, mais confuso também, em todas as áreas, em Portugal como no mundo. Os EUA e os seus aliados continuavam a destruir o Médio Oriente, mas já não o faziam através de invasões diretas, mas através de infiltração, subversão e agentes de proximidade. A austeridade de direita foi substituída pela austeridade de esquerda, ou seja, continuava efetivamente tudo na mesma, com a destruição dos serviços públicos a prosseguir a uma velocidade. Só que desta vez nem sequer vemos manifestações. A “resistência” foi visivelmente neutralizada.

E talvez o mais preocupante, é que enquanto há alguns anos víamos centenas de milhares de pessoas focadas e unidas para lutar contra um inimigo comum, os ricos e poderosos, dada altura as pessoas começaram a virarem-se umas contra as outras. Agora os inimigos eram outros. O inimigo é o trolha que manda um piropo. O inimigo é o cigano que ganha o RSI. O inimigo é a mãe desempregada que teve um segundo filho mas não devia ter engravidado. O inimigo é o estudante que fez uma piada machista. O inimigo é o imigrante. A inimiga é aquela escritora que teima em usar o termo “mulher” em vez de usar aquele outro termo que foi inventado a semana passada.

O inimigo é toda a gente e portanto não é ninguém em particular. O inimigo somos nós.

À medida que se perdeu o foco, a maioria das pessoas perdeu a paciência e a esperança. A classe média adulta, em geral, ou abandonou o ativismo, ou virou-se para a “Nova Direita” para ter soluções e aderir a uma narrativa que possa compreender. Os circuitos de ativismo de esquerda ficaram entregues aos adolescentes, estudantes e adultos socialmente desenquadrados.

Os movimentos de resistência foram derrotados, mas nunca o souberam admitir. Os diferentes movimentos não conseguiram transformar a mobilização popular em vitórias substanciais. Os sindicatos dos pobres estão de rastos e constantemente sob ataque, enquanto que os sindicatos dos ricos e poderosos como a Maçonaria somam e seguem. Num mundo onde tudo se tornou numa mercadoria, os ricos e poderosos conseguem comprar tudo, inclusive os mecanismos políticos e judiciais. Isso já sabíamos. A novidade é que hoje em dia os próprios movimentos de ativistas foram comprados, cooptados, infiltrados e completamente neutralizados. Há uma divisão no mundo “alternativo”, tanto político como mediático. Existem as “alternativas” que o sistema aceita, e as que não aceita. A emergência da “Nova Esquerda” insere-se claramente na primeira categoria, nos movimentos de “resistência” que o poder instituído tolera e que por vezes até cultiva.

Forever Young– A Adolescentização e Hipersexualização da “Resistência”

Cartaz no 1º de Maio de 2017, Lisboa. Hahaha! Haha! Ha. Ah. Ok… Então está bem… O  cartaz diz: “Um broche é melhor do que estar desempregado”. A legalização do proxenetismo e a normalização da prostituição tornou-se numa causa importante para muitos “ativistas”

Cada vez mais, a tendência é para que ativistas se escondam atrás de causas fúteis e narcisistas, a substituírem causas justas e nobres por subterfúgios radicalóides para não serem obrigados a enfrentar o poder instituído, não sofrendo assim as consequências da opressão Estatal ao mesmo tempo que podem continuar a fingir que são subversivos e alternativos. Desde ‘ativistas poliamor’, a ativistas para quem a permissibilidade do sexo com golfinhos é um tema importante, até campanhas para construir casas de banho somente para transexuais (enquanto que mais de metade do mundo não tem acesso a saneamento básico). O “novo” ativismo é caracterizado pela fixação adolescente em fazer frente à autoridade parental mais do que à autoridade Estatal, e depois confundir as duas coisas como se fossem a mesma coisa. O uso do termo “patriarcado” como desígnio do inimigo a abater é particularmente eficaz no que toca a misturar e confundir a autoridade parental, neste caso a autoridade do pai especificamente, com a autoridade Estatal.

É também um “ativismo” que tem uma obsessão doentia com o policiamento da linguagem popular, a defesa da legalização de algumas drogas e da prostituição, o ódio aos homens em geral mas sobretudo aos homens pobres em particular, ódio esse que é disfarçado por detrás de termos abstratos e vagos como “lutar contra o heteropatriarcado”, assim como a defesa da censura de todas as ideias consideradas perigosas. A defesa da censura à larga escala de ideias políticas consideradas inconvenientes deveria ser uma tarefa do Estado para abafar movimentos revolucionários, e porém, parece ter-se tornado numa das principais causas de certos “ativistas”. Estranho… Ou não.

Tudo serve de forma a poder utilizar linguagem aparentemente radical e até revolucionária sem por isso correr o risco de ser considerado como um agente verdadeiramente subversivo.

Quando se tenta fazer passar a frase “eu faço o que me apetece” por uma reivindicação política, sabemos que a adolescentização do ativismo político está numa fase avançada. Qualquer semelhança entre o cartaz do manifestante e a personagem do South Park, Cartman, faz todo o sentido e não é coincidência nenhuma
Uma imagem de promoção de uma marcha política qualquer… Um exemplo do que acontece quando a política supostamente revolucionária se torna num recreio de adolescentes mimados com demasiado tempo nas mãos
A estupidificação agressiva do ativismo político resumida numa só imagem

Hipersexualizado, ‘adolescentizado’, deprimido, sem estabilidade laboral nem estabilidade emocional, com a mente constantemente fraturada pelo último trauma amoroso, em constante expetativa pela próxima experiência sexual, orgulhosamente escravo dos prazeres mundanos e com tendência a ter relações pouco saudáveis com a família, sobretudo com os pais e avôs- é esta a realidade para muitos ativistas modernos. Não comunica com seriedade e frontalidade, preferindo exprimir-se através de cinismo e piadas sardónicas, mas paradoxalmente, leva-se demasiado a sério, certamente mais a sério do que merece. É um boémio que para além de fútil, não tem uma grande capacidade de organização, e cuja principal fonte de frustração não é a injustiça praticada sobre os outros, mas sim o sentido de que merece um salário melhor e uma profissão que lhe conceda mais estatuto social- finge ser o mais oprimido do mundo, e depois lá vai lembrando, simbolicamente, de quem o é verdadeiramente, mas somente para depois poder dar mais uma voltinha no carrossel que é a ilusão da sua própria vitimização. O ativista moderno não é aquele que está numa posição de força e que quer usar esse privilégio para ajudar os fracos, é alguém que está constantemente a inventar desculpas para justificar os seus fracassos e a adoptar novas ideias na medida em que lhe dão novas razões para renovar o seu sentido de vitimização.

A imagem do ativista moderno é diametricamente oposta aquela do passado, o do guerreiro altruísta que vive para fazer justiça e que para isso está pronto a morrer. Em contraste, os ativistas modernos fizeram com que aos olhos de uma parte crescente da população a luta contra a opressão se tenha tornado numa piada.

“Worshop de brinquedos sexuais”. Sábado às 18:15. “Trabalho sexual é trabalho?” Debate imperdível no Domingo pelas 14:00. Percebe-se pelo título que a resposta correta é “sim, é trabalho, porque acabamos de usar o termo ‘trabalho sexual’ ora, sim, é trabalho”. Não percam. Uma componente essencial para a formação política dos nossos jovens revolucionários. Tudo isto e mais, num acampamento “político” do Bloco de Esquerda perto de si!

Estes ativistas são o produto inevitável do sistema capitalista assim como o seu maior defensor e aliado. Encorajar a promiscuidade, o hedonismo e o individualismo não é somente destrutivo para o planeta e para as nossas mentes, alimentando uma mentalidade que só perpetua a insatisfação e a ganância- é um pilar fundamental deste não-tão-Admirável Mundo Novo em que o prazer instantâneo serve como um dos mecanismos de controle mais basilares. As questões relacionadas ao sexo e ao género em particular tornaram-se no subterfúgio pseudo-radical principal para certas alas políticas cuja sobrevivência depende, paradoxalmente, da sua capacidade de serem vistos como sendo radicais e subversivos perante as camadas mais jovens, mas inócuos e inofensivos perante o poder instituído.

Para alguns, torna-se na legitimação de um falso sentimento de opressão e vitimização, pois fornece a camadas de pessoas privilegiadas (sobretudo jovens tendencialmente de classe média alta, cosmopolitas e com acesso a ensino superior) narrativas onde se tornam nas ultra-coitadinhas oh-tão-oprimidas vítimas da sociedade.

Mas para a maioria da população, é somente a prova de que a maioria dos ativistas se esqueceram deles.

O tipo de material “académico” que esta nova estirpe de ativistas produzem- um comentário sobre como a experiência de pilotar um drone é similar à experiência “Queer” e a “ansiedade de género”. Os mesmos drones que matam pessoas inocentes indiscriminadamente em cenários de guerra… Mas agora reinterpretados, com um novo angulo de análise que não serve a ninguém a não ser os que procuram distrair as pessoas do que deveria estar verdadeiramente em causa- a ética, ou falta dela, da utilização de drones em cenários de guerra

“Feminismo de Terceira Vaga”, ou como Empurrar os Homens que têm um Sentido de Dignidade para a Direita

Uma das melhores maneiras de identificar as crescentes tendências misandricas da “Nova Esquerda” é a través da fetichização bizarra, para não dizer patética, dos homens transsexuais (homens que se identificam como mulheres). Usando o material de canais de YouTube como o ContraPoints (de Natalie Wynn) a Tempero Drag (de Rita von Hunty), tornou-se moda para os “ativistas” de “esquerda” partilhar vídeos de homens vestidos de mulheres a explicar coisas de forma condescendente e muitas vezes, intelectualmente desonesta. Se fossem simples homens, isto seria “mansplaining”, o vil e horripilante ato em que um homem explica algo a uma mulher. Mas como os interlocutores se vestem de mulheres, ou como fizeram a transição para o sexo feminino, não só se torna aceitável, torna-se progressivo, desejável, ou até uma fonte de orgulho. Porquê? Vamos olhar para a questão de outra forma. Muitos rapazes e homens que não se querem identificar como homens parecem ter uma capacidade surpreendente de ganhar o respeito ou até adulação desta nova esquerda. Porquê? Porque se partirmos do princípio que os homens são maus, que são a fonte de todo o mal na terra, que é sob o seu poder e influência que o malvado sistema patriarcal se abate sobre todos nós, ou seja, se há uma espécie de pecado original associado à infelicidade de se ter nascido biologicamente homem, então segue-se naturalmente que a coisa mais virtuosa é, primeiro, sentir-se envergonhado de ter nascido homem, e subsequentemente, de negar a sua masculinidade. Mas isto não chega. É preciso tomar ação. E a ação mais direta da negação da sua masculinidade começa com a identificação com outro género, ou pelo menos ao se deixar de se identificar como homem. Podem ir mais longe até, dependendo do grau de heroísmo que pretendem na sua batalha contra a sua própria masculinidade, ao tentar exorcizar o homem que ainda têm dentro de ti como se de um espírito maléfico se tratasse. E óbvio, o próximo passo passa por atos de castração, literais ou simbólicos, como demonstração da vergonha e culpa sentida pelo facto de se ter nascido homem, e não só, como demonstração que estão prontos a fazer algo sobre isso, por muito drástico e irreversível que possa ser.

Os ex-homens que fazem este tipo de exercício de auto-castração ganham imediatamente a adulação das hordas misandricas que, conscientemente ou subconscientemente, detestam os homens e a masculinidade, sendo esta adulação proporcional ao quão profundas e extremas as medidas tomadas para a negação da sua própria masculinidade são.

Os efeitos políticos de tudo isto? Cada vez mais, os homens saudáveis e com um sentido de dignidade e autoestima estão a abandonar os circuitos de ativismo da “Nova Esquerda”, enquanto que muitos outros vão diretamente para a mão da extrema-direita ou direita conservadora.

Tornar a Luta Contra a Opressão numa Piada de Mau Gosto

No passado, o ativista era um herói que se sacrificava pelo bem comum. Hoje, a caricatura do ativista é a de um jovem arrogante, com estudos superiores e que vê nesses estudos não um privilégio que lhe permite ajudar a sociedade, mas um sinal de estatuto que lhe dá ao mesmo tempo direito de se superiorizar aos outros, assim como o direito a um emprego ‘digno’, e por ‘digno’ entenda-se um emprego que o ponha acima da classe trabalhadora. Vai falar com uma condescendência absoluta para com todos que não aceitem os seus conceitos ultra abstratos, sempre pronto para os acusarem de serem homofóbicos, transfóbicos, racistas, ou outro qualquer insulto que lhes dê uma vantagem sem terem que formar argumentos racionais nem sequer debater verdadeiramente as ideias em questão.

O ativista moderno tem também um ódio ao ‘velho’ e uma paixão incondicional pelo ‘novo’. Primeiro de tudo, isto distancia-o dos idosos, um dos setores mais oprimidos de qualquer sociedade. A defesa dos idosos é, claro, uma causa que está muito pouco na moda, e não há sinais que esta tendência mude. Afinal de contas, o ativista moderno tem muito pouco contato com os mais velhos e idosos- se morar com os pais, isto será motivo de vergonha e de indignação política. E a responsabilidade de tratar dos seus pais e avós é uma responsabilidade, que por estar associada à moral monoteísta, é descartada por associação, ou seja, é vista como sendo inerentemente reacionária, até porque é o Estado que deve tomar conta dos idosos, seja através do sistema de pensões, seja através de subsídios às casas de acolhimento. Já a paixão incondicional pelo “novo” é mais difícil de explicar, mas é tão ou mais notável, se bem que, estranhamente, não tendem a ser particularmente entusiastas da inovação tecnológica, pois tendem a privilegiar as ciências sociais e são, portanto, tendencialmente iletrados em questões de tecnologia e engenharia.

O Poder Suave e a Cooptação dos Movimentos de Resistência:

Cartaz da Padaria Portuguesa durante o Pride Month, Junho de 2019. Aumentar salários? Não! Sindicalizar os trabalhadores? Nem falem disso. Apoiar o movimento LGBT+? Claro! E é isso que importa, certo?

Na era do “poder suave”, o principal mecanismo de autopreservação que os Estados não é a violência direta, mas sim a cooptação e a domesticação dos movimentos de resistência. A esquerda hipersexualizada serve hoje um papel fundamental nesta indústria de cooptação, dirigindo a revolta dos jovens o mais longe possível de arenas verdadeiramente incomodas para o poder como o ativismo anti-guerra e as lutas contra a corrupção incrível do mundo financeiro para arenas mais aceitáveis como a representação de pessoas da comunidade LGBT nos executivos das empresas, por exemplo.

Onde Se Enquadram os Ativistas da “Velha-Guarda”?

Ainda me considero de esquerda? Claro. Mas sinto-me completamente alienado desta “Nova Esquerda”. Mas não porque a minha visão do mundo mudou. A “Nova Esquerda” é que conseguiu mudar a esquerda, e entre derrotas políticas e degeneração ideológica, está irreconhecível. Por vezes parece que só há espaço para estudantes betinhos e arrogantes para quem a causa política favorita é lutar contra o flagelo do manspreading. Não sabes o que isso é? Estás com sorte. Não vale a pena descobrir. É só mais uma das pseudo-causas ridículas de que a nova esquerda tanto gosta.

Admito que se está a tornar cada vez mais difícil aturar esta nova horda de adolescentes de classe média-alta para quem o auge do pensamento político é denunciar o “privilégio heterossexual”, quando de facto o maior privilégio de todos é poder fazer das questões sexuais o centro da sua identidade e da sua luta política.

A solução? Penso que a solução passa pela complementação de conceitos oriundos do mundo das ciências sociais com conhecimento estatístico, matemático e do foro da engenharia. Nomeadamente, os circuitos ativistas têm que se reconciliar com a matemática, as ciências exatas, e retomar a vanguarda naquela que é a era da tecnologia e da ciência. Politicamente falando, isto passaria pelo debate sobre quais são, e quais devem ser, as prioridades políticas. Ter um debate sério sobre prioridades políticas tornou-se um tabu absoluto no mundo do ativismo, porque usar números para demonstrar que uma certa “causa” é de facto inconsequente é visto como uma tentativa de secundarizar a experiência de certos sectores sociais. Mas com o mundo do ativismo completamente descredibilizado, é necessário tomar medidas urgentes para recentrar objetivos e voltar a capturar os sectores sociais que estão a ser empurrados a procurar alternativas políticas na “Nova Direita”, sem dúvida a mais perniciosa e perversa corrente política dos nossos tempos.

João Silva Jordão

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