O Leninismo Já Estava Moribundo – Com a Pandemia, Morreu

O Leninismo na sua génese era uma ideologia política de ponta- era efetivamente a vanguarda do pensamento político da sua era. Projetou aquele que era o país menos industrializado da Europa, a Rússia, para posição de potência global em 25 anos.

Mas hoje em dia, infelizmente, a grande parte dos aderentes do Leninismo podem ser mais corretamente identificados como sendo a retaguarda tanto do pensamento político como da ação política.

Para começar, só sabem falar na sua gíria parcialmente incompreensível. Até quando se concorda com eles, se não se explicar as coisas exatamente nas mesmas palavras, tendem a rir-se e gozar com uma prepotência algo surpreendente. Pior de tudo, são alérgicos a pessoas de classe trabalhadora, que vêm como sendo tendencialmente reacionários e quem odeiam por estes já não quererem aderir, há várias décadas, aos seus partidos “revolucionários” em números suficientes para efetivar qualquer plano de transformação política viável. A grande parte são ratos de biblioteca com pouca ou nenhuma preparação física, ora, nunca conseguiriam efetivamente fazer frente às forças do Estado na eventualidade de um real contexto de instabilidade política e eventual revolução. Estão obviamente à espera que outros façam o trabalho sujo da revolução em si, trabalho sujo o qual inclui necessariamente pôr a própria segurança, liberdade e vida em perigo- não há, afinal de contas, atividade mais ilegal e detestável aos olhos do Estado do que o trabalho revolucionário.

Mas a maioria do contingente que se identifica como sendo Leninista não é, nem quer ser, verdadeiramente revolucionário- tendem a ser pessoas privilegiadas, membros da intelligentsia Ocidental, uma parte substancial dos quais depois se entrincheiram em Faculdades de Ciências Sociais, que hoje em dia são demasiadas vezes locais prediletos para quem quer fugir da realidade e isolar-se numa bolha que lhes vai conceder validação intelectual sem terem o incómodo de terem que testar as suas ideias empiricamente, ou seja, através do trabalho político real. A falta de embate com a realidade política por sua vez, paradoxalmente, só faz com que pensem ainda mais que eles é que têm razão, enquanto que o resto do mundo é que não tem razão. Esta reticência em mudar as ideias e métodos em consequência da realidade material não é somente casmurrice- é o oposto total da atitude que pautava o Leninismo na sua génese, o qual é caracterizado pelo pragmatismo político, talvez até demasiado pragmático.

A maioria dos Leninistas quer ser Lenin, ou seja, quer liderar, e não seguir. Então o resultado inevitável é a formação de inúmeros grupelhos altamente oportunistas que não sabem, não conseguem e talvez nem querem trabalhar entre si, porque são liderados por indivíduos que se vêm como sendo detentores da linha correcta, gerando profundos ódios entre estes “generais” que não conseguem encontrar “soldados” que queiram militar debaixo das suas ordens.

Mas talvez o mais chocante de tudo tem sido o desempenho da grande parte dos Leninistas durante a pandemia. Como mencionei noutro texto:

“É esta a história recente da esquerda. Uma força política que se diz revolucionária, mas que ao mesmo tempo apela a que se confie nas boas intenções do Estado, tentando ativamente calar, censurar e gozar com toda e qualquer voz discordante, e que não vê nisso nenhuma contradição.”

Mas é de facto ainda pior do que isto. Uma parte substancial dos Leninistas tem demonstrado durante a pandemia que tem um fetiche irracional pela repressão Estatal- e se essa repressão Estatal por sua vez se traduzir em perdas para empresas, nomeadamente resultando em fechos e falências, o seu apoio torna-se ainda mais fervoroso. O que é expectável, sendo os Leninistas anticapitalistas. Porém o que é surpreendente é que mesmo quando esta mesma repressão Estatal, sob o pretexto de combate à pandemia, acaba por inegavelmente prejudicar a classe trabalhadora, uma parte substancial dos Leninistas acabaram mesmo assim por apoiar fanaticamente a repressão Estatal. Chegamos então à conclusão desconfortável mas algo inevitável que muitos Leninistas preocupam-se de facto muito pouco com o seu alegado objectivo principal, que é o de contribuir à melhoria das condições materiais da classe trabalhadora, ficando-se pela mera celebração do uso do poder Estatal como se este fosse uma finalidade legítima por si própria.

E mesmo as notícias de como a pandemia e as medidas que os Estados têm vindo a aplicar para supostamente a combater vão empurrar cerca de 150 Milhões de pessoas para a pobreza extrema através do mundo não parecem ser suficientes para que que a maioria dos Leninistas mude de opinião, perpetuando então a incapacidade quase total de grande parte da ala Leninista de pensar sobre a pandemia de forma crítica. Decidiram desde muito cedo na pandemia que iam aceitar o estado de exceção, suspender a guerra de classes e assumir que os Estados, perante a ameaça, vão agir de forma insuspeita e socialmente responsável, zelando pela saúde da população acima de tudo, deixando todas críticas que possam ter para as empresas privadas.

Mas depois não notam que se tornam em “revolucionários” que não somente apoiam fanaticamente toda e qualquer medida aplicada pelo Estado, mas que acabam até por criticar, gozar, difamar e insultar quem ainda ousa resistir e fazer frente ao Estado.

E entretanto, a classe trabalhadora, empobrecida, oprimida e completamente desgastada, vê durante a pandemia a sua vida atirada para uma espiral de caos e pobreza ainda maior, com cada vez mais incertezas e instabilidade- mas se há uma coisa na qual podem ter a certeza, é que não podem contar com a maior parte do contingente Leninista para defender os seus interesses.

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